Houve um tempo em que
elas eram vistas com preconceito. Hoje, as intérpretes femininas dominam o mercado
de discos e comandam a tradição de canto da musica popular brasileira
Sérgio
Martins e Paulo Vitale (fotos)
NEGRA
LI
A paulistana de 25 anos, destaque
do seriado Antônia, está à procura de uma ponte
entre o hip hop e os ritmos brasileiros
O
Brasil é a nação das cantoras. Observe-se a seguinte estatística:
em 2006, mais de 100 discos de intérpretes femininas chegaram às
lojas. No mesmo período, foram apenas 34 lançamentos de intérpretes
homens. O exército das novatas é impressionante. Nas fotos desta
reportagem, o leitor encontrará cinco delas em destaque acompanhadas
por várias outras igualmente promissoras, como Bruna Caram, Ana Krüger,
Tatiana Parra, Karine Alexandrino ou Giana Viscardi. Mas a força da voz
feminina é bem mais que uma questão de número. Há
três razões para isso. Primeiro, o apuro técnico das cantoras
vem aumentando. Elas querem que sua voz seja um instrumento versátil, e
não apenas afinado. Algumas, inspirando-se num exemplo consagrado como
o de Marisa Monte, até mesmo vão buscar apoio no estudo lírico.
Em segundo lugar, as mulheres dedicam-se com maior afinco à tarefa de interpretar.
Houve uma era em que cantores importantes faziam apenas isso: dar vida às
canções de outros. Foi o tempo de Orlando Silva e Mário Reis.
A partir dos anos 70, a MPB viu despontar o "cantautor" (como o batizaram alguns
críticos): um compositor que também usa o microfone. A ascensão
desse personagem reduziu o espaço dos intérpretes puros mas
apenas os do sexo masculino. A terceira razão da proeminência feminina
é o intenso diálogo que, em geral, elas mantêm com suas precursoras.
Não é difícil traçar uma linha conectando a paulistana
Ana Cañas às cantoras do rádio dos anos 40. Realizar essa
mesma operação unindo um cantor novo e, digamos, o venerável
Francisco Alves é quase impossível. Existe uma tradição
viva de canto na música popular brasileira? Sim, existe. E ela pertence
às mulheres.
ROBERTA
SÁ A cantora potiguar começou
com o pé esquerdo. Foi uma das concorrentes do Fama, da Rede Globo,
mas não venceu o programa. Depois disso ela lançou Braseiro,
um dos melhores discos de 2005, que combinou canções antigas
com criações de compositores jovens como Pedro Luís e Marcelo
Camelo
As
jovens cantoras de hoje podem ser agrupadas em vertentes. Dito de outra maneira:
há certos nomes mencionados com freqüência como parâmetro
ou influência. A lista contém surpresas. Dela não constam,
por exemplo, Gal Costa e Maria Bethânia, duas das artistas mais representativas
da música brasileira nas décadas de 70 e 80. Bethânia é
lembrada com veneração por umas poucas, como Vanessa Da Mata, mas
Gal parece despertar um certo enfado. É possível especular, também,
sobre a formação, em breve, de um grupo de cantoras que terão
Sandra de Sá como referência do passado. São cantoras como
Negra Li, ligadas ao movimento hip hop, hoje forte em favelas e periferias. Aos
olhos delas, Sandra de Sá representa uma ponte entre o soul e o hip hop,
de matriz americana, e os ritmos brasileiros. No momento, contudo, as escolas
dominantes são quatro.
Aquela
que tem mais discípulas é a de Elis Regina, caracterizada pelo estilo
teatral, de emoção derramada em cada nota. "Quando decidi virar
cantora, a primeira coisa que fiz foi mergulhar na discografia de Elis", diz a
paulista Daniela Procopio, que abandonou uma carreira de designer industrial para
dedicar-se à música e concluiu recentemente o seu primeiro CD, ainda
inédito. Ao lado de Bruna Caram ou Giana Viscardi, ela mostra aquela capacidade
que Elis tinha de ir do sussurro ao canto aberto numa mesma canção
de maneira coerente e memorável.
LUCIANA
ALVES A paulistana Luciana Alves é
uma das raras cantoras jovens que afirmam não sofrer influência alguma
de Elis Regina. "Em casa tinha apenas um disco dela", diz. Luciana tem estilo
próprio: sua voz é afinada e cheia de energia
A
segunda escola, curiosamente, tem um homem como referência. É a escola
de João Gilberto (muito embora Nara Leão também seja citada
por novatas de inclinação semelhante). "Parece estranho à
primeira vista. Mas não deixa de ser natural que muitas mulheres se sintam
próximas de um cantor de voz tão suave quanto a dele", diz a professora
de canto Regina Machado. Essa vertente atrai dois tipos de artista: aquelas interessadas
na precisão técnica do canto e aquelas de voz miúda, que
se inspiram na interpretação contida do papa da bossa nova. Luciana
Alves, cantora do grupo do violonista Chico Pinheiro, pertence ao primeiro time.
Os vocais límpidos e a graça com que se apresenta lhe rendem elogios
constantes. "Fiquei impressionado com sua técnica", diz o pianista americano
Brad Mehldau. Seu primeiro disco-solo sairá neste ano, com canções
inéditas de Joyce e Chico Pinheiro. Érika Machado é uma expoente
da segunda linha. De voz miúda, quase juvenil, ela convocou o produtor
e guitarrista John Ulhoa (do Pato Fu) para criar No Cimento, um destaque
do mercado no ano passado. São doze canções de apelo pop
que poderiam muito bem figurar nos discos de um artista como o americano Beck.
ANA
PAULA LOPES Meu, disco
de estréia dessa artista de 28 anos, tinha um repertório calcado
nos clássicos da MPB. Ainda assim, Ana Paula surpreendeu pela segurança
de sua interpretação. O segundo disco da cantora deverá
trazer autores contemporâneos e um formato mais pop
A
redescoberta recente do samba tradicional em redutos como a Lapa, no Rio de Janeiro,
e também em casas de shows de São Paulo e Belo Horizonte fez com
que Clara Nunes, depois de duas décadas de semi-ostracismo, se tornasse
uma figura importante para diversas cantoras jovens. Clara, que morreu em 1983,
exercitou sua voz possante entoando boleros no início da carreira, mas
descobriu seu ambiente natural na peculiar mistura de alegria e tristeza que caracteriza
o samba de raiz. A paulistana Mariana Aydar e a carioca Mariana Baltar são
duas artistas que fazem questão de ressaltar a admiração
por ela. O primeiro disco de Mariana Aydar, Kavita, foi um dos melhores
lançamentos de MPB de 2006. Mariana Baltar era dançarina antes de
se lançar como intérprete, há cerca de cinco anos. Ela foi
uma das articuladoras da revitalização pela qual passou o bairro
da Lapa nos últimos tempos. Seu CD de estréia, Uma Dama Também
Quer Se Divertir, é uma bem-cuidada seleção de sambas
raros, como Deixa Comigo, de Assis Valente, e Ralador, parceira
de Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro.
A
última grande vertente é a de Marisa Monte. Embora não tenha
mais que vinte anos de carreira, ela é hoje uma figura dominante na música
brasileira. "Não tenho dúvida de que Marisa inaugurou uma escola.
A obsessão com a técnica e a maneira de compor o repertório
são suas duas lições básicas", diz o produtor Marco
Mazzola. As intérpretes atuais que melhor assimilaram essa proposta são
Roberta Sá, Anna Luisa e Luísa Maita. As três estudaram canto
antes de partir para a música popular. "O treinamento lírico me
ajudou muito. Mas é preciso ter personalidade própria para cantar
MPB", diz Roberta, uma cantora que está próxima do estrelato. Braseiro
(2005), seu disco de estréia, mistura sambas tradicionais com criações
de compositores contemporâneos como Pedro Luís e Marcelo Camelo.
Uma das faixas, A Vizinha do Lado, de Dorival Caymmi, foi escolhida para
fazer parte da trilha sonora da novela Celebridade, da Rede Globo. Seu
novo disco é aguardado para a segunda metade de 2007.
MARIANA
AYDAR A estréia de Mariana impressiona
pelo repertório: ele não traz compositores fáceis e manjados.
A cantora foi em busca de sambas e canções perdidas da MPB: "Existe
muita música boa para ser gravada. Não precisamos apelar para os
nomes de sempre"
Roberta
Sá tem algo mais em comum com Marisa Monte: ela é dona de suas próprias
gravações, que lança por um selo independente. Aí
se encontra outra fonte de poder das cantoras novas: elas gozam de uma autonomia
impensável noutras épocas. Foi uma longa viagem desde 1929, quando
Araci Cortes, cantora do teatro de revista, conseguiu transformar Jura,
um samba do compositor Sinhô, num fenômeno de popularidade. Naquela
data, pela primeira vez, uma cantora foi olhada com algum respeito: antes disso,
considerava-se que a atividade era literalmente vizinha da prostituição.
Dali em diante, a ascensão foi lenta e gradual até que se
tornasse possível a emancipação também no plano dos
negócios, como se vislumbra hoje para algumas felizardas. É claro
que ainda existem fórmulas para conduzir uma carreira dentro das grandes
gravadoras. Rick Bonadio, um dos produtores mais requisitados da atualidade, diz
que tem sua própria "receita de bolo" para lançar cantoras. Um dos
ingredientes é construir um repertório eclético, mas que
inclua músicas de compositores jovens e badalados como Lenine e Marcelo
Camelo. "É correto dizer, no entanto, que as novas cantoras surgem mais
livres, porque a indústria já não tem força para moldá-las
como fazia antigamente", diz o crítico Mauro Ferreira.
Talvez
seja o caso de dizer que a indústria já não tem nem força
nem necessidade de impor amarras às cantoras. Pois algumas delas mostram
fôlego incomparável no mercado de discos. Ivete Sangalo, Marisa Monte
e Ana Carolina estão entre as maiores vendedoras do país atualmente.
Ana Carolina vendeu 2 milhões de discos em oito anos de estrada. Em 2005,
bateu a marca de 1 milhão de cópias ao lançar simultaneamente
dois álbuns: a coletânea Perfil e Ana & Jorge,
registro de uma apresentação ao lado do pagodeiro Seu Jorge. Marisa
tem no currículo vendagens de 5 milhões. Em 2006, ela interrompeu
um jejum de seis anos com dois títulos: Infinito Particular e Universo
ao Meu Redor. Ambos esgotaram rapidamente tiragens iniciais de 300.000 cópias.
A campeã dos números é Ivete Sangalo, que bateu a marca de
8 milhões de discos entre sua carreira-solo e a de vocalista da banda de
axé Eva. Só o disco MTV ao Vivo, lançado em 2004,
vendeu cerca de 750.000 unidades. Não à toa, Ivete está repetindo
a dose neste exato momento, com outra gravação ao vivo. Sucesso
desse calibre nunca é para muita gente. Mas o mundo efervescente das cantoras
brasileiras promete. Sempre.
Ernani
D'Almeida
IVETE
SANGALO Ela começou a carreira na
axé music, mas hoje trafega entre gêneros como o pop e a MPB. Ivete
é um fenômeno. Seu MTV ao Vivo é o DVD musical mais
vendido no Brasil
ANA CAROLINA Em oito anos de carreira, a cantora e compositora
mineira vendeu mais de 2 milhões de CDs. "Sua força no palco é
incomum", diz o produtor veterano Mazzola