O açaí
é uma pequena fruta roxa de gosto amargo com mais caroço
do que polpa. Com essas credenciais, parecia natural que seu
consumo se limitasse às populações ribeirinhas
da Amazônia. Ou, no máximo, fosse servida com
granola, em tigelas, em praias, quiosques e academias. No
entanto, reembalada em um esforço de marketing, essa
fruta de origem amazônica está se tornando a
nova sensação de consumo nos Estados Unidos,
onde foi eleita um dos principais sabores de 2007, de acordo
com a consultoria Mintel, uma empresa multinacional de pesquisa
de mercado. A Anheuser-Busch, a segunda maior fabricante de
bebidas do mundo, acaba de lançar um energético
de açaí, o 180 Blue até então
os sabores eram convencionais, como limão e laranja.
Em setembro passado, a Bolthouse Farms, empresa americana
que fabrica sucos de fruta, inaugurou nos arredores da cidade
de Belém sua primeira instalação fora
dos Estados Unidos, num investimento de mais de 10 milhões
de dólares. Objetivo: assegurar a produção
diária de 60 toneladas de polpa de açaí
para abastecer a sua fábrica de sucos tropicais na
Califórnia. A febre do açaí não
se restringe às bebidas. Com base nas propriedades
antioxidantes da fruta, a gigante americana Procter &
Gamble e a fabricante de cosméticos Borba, também
dos Estados Unidos, criaram xampus, sabonetes e cremes, todos
à base de açaí.
Todo esse esforço
empresarial visa a mimetizar a incrível trajetória
comercial de outra fruta exótica de aparência
e gosto discutíveis o kiwi, fruto de forma ovalada,
gosto ácido, coberto de pêlos e de difícil
conservação. Não fosse por uma estrondosa
operação de marketing, é provável
que o kiwi nunca tivesse saído da China e de Taiwan,
países onde há setenta anos era usado como comida
para porcos. Nos anos 80 do século passado, o kiwi
foi reinventado numa campanha mundial de valorização
financiada por produtores asiáticos e liderada pelo
governo da Nova Zelândia. Chefs famosos nos Estados
Unidos e na Europa receberam remessas regulares da fruta,
cujo gosto "exótico" e propriedades terapêuticas
eram trombeteados aos quatro ventos. A campanha teve enorme
sucesso e o consumo de kiwi espalhou-se pelo mundo.
Divulgação
Surfistas da Sambazon: jovens
americanos faturam 12 milhões de dólares por ano vendendo
suco de açaí
Ainda que o açaí
siga o mesmo caminho do kiwi, existe uma enorme diferença
entre as campanhas de marketing empregadas para reinventar
as duas frutas. O kiwi foi catapultado por empresas e governos
dos próprios países produtores. Já o
açaí, tratado como produto alternativo no Brasil,
ganha cada vez mais valor agregado graças ao talento
de empresas estrangeiras, em sua maioria americanas. O açaí
desembarcou nos Estados Unidos em 2000 pela iniciativa de
um grupo de jovens empresários do país que,
hoje donos de empresas especializadas em sucos da fruta, disputam
a primazia do feito. Uma dessas empresas é a Sambazon,
formada por surfistas californianos que provaram o açaí
numa viagem ao Nordeste brasileiro há sete anos. Em
2006, eles faturaram 12 milhões de dólares.
Outra empresa é a Bossa Nova Beverage, fundada pelo
americano Alton Johnson após uma viagem de negócios
a São Paulo, em 1999. A empresa tem hoje dez funcionários
e faturou no ano passado 4 milhões de dólares
com a venda de suco. Neste ano, Johnson já conseguiu
levantar quase 7,5 milhões de dólares entre
investidores privados e depositou nove pedidos de patentes
relacionados ao processo de fabricação do suco
de açaí.
Assim como ocorreu
com outras frutas exóticas introduzidas com sucesso
no mercado americano, os rótulos de "orgânico"
e "saudável" dão um empurrão nessas iniciativas.
"Durante incontáveis séculos, os povos do Amazonas
consumiram o açaí como fonte de longevidade",
diz a propaganda da MonaVie, empresa que vende um suco contendo
dezenove frutas, entre elas o açaí, a "jóia
da coroa" do produto. As peças de marketing da empresa
definem o açaí como o alimento com mais substâncias
antioxidantes "da Terra", deixando para trás outras
frutas e o vinho tinto, famoso por suas propriedades no combate
ao envelhecimento. Embora o carro-chefe seja o açaí,
a bebida também tem guaraná e uva, para tornar
o sabor mais palatável para os estrangeiros. A Fruta
Vida, uma empresa texana, também vende um suco eclético,
chamado de "mistura única de sabores brasileiros" e
composto de mate, açaí e cupuaçu. A maior
parte dessas empresas se propõe a reverter uma fatia
da receita angariada com a venda de produtos de açaí
em ações ambientais de proteção
da Amazônia. "Cada garrafa que você compra salva
uma árvore da Floresta Amazônica", dizem os fundadores
da Bossa Nova. Eles não são os únicos.
"Uma porcentagem do dinheiro recebido com a venda de cada
garrafa volta para as pessoas e plantas da selva amazônica",
promete a Fruta Vida. As empresas juram ajudar, com o dinheiro
da venda de produtos à base de açaí,
famílias indígenas brasileiras que vivem da
coleta da fruta.
O
kiwi é a última fruta exótica a ganhar
escala de produção comparável à
de frutas tradicionais. Atualmente, além do açaí,
outras também abrem um mercado cada vez mais lucrativo
nos Estados Unidos entre elas lichia, da China, rambotã,
da Malásia, noni, do Taiti, e goji, do Tibete. Entre
2001 e 2004, as frutas exóticas contribuíram
para o aumento de 26% nas vendas da indústria européia
de alimentos orgânicos, de acordo com o Datamonitor.
Mas elas ainda ocupam menos de 5% do comércio mundial
de frutas, que movimenta 53 milhões de toneladas por
ano e, desde 1998, cresce a taxas médias de 17,8%,
segundo o Instituto Brasileiro de Frutas. Somente a banana
é responsável por 30% desse movimento. No Brasil,
o país com a maior biodiversidade do planeta, o carro-chefe
das exportações é a uva. Frutas não
convencionais, como açaí e cupuaçu, não
chegam a 1% das vendas externas. Segundo o engenheiro agrônomo
Harri Lorenzi, autor do livro Frutas Brasileiras e Exóticas
Cultivadas, empresários brasileiros conseguiram
viabilizar o comércio em grande escala de apenas quatro
de 320 espécies nativas brasileiras: caju, goiaba,
maracujá e abacaxi. A desculpa usada para desprezar
as outras é sempre a mesma: frutas não convencionais
são muito pouco produtivas. Talvez por causa dessa
mentalidade o Brasil poderá em breve perder até
a exclusividade da mais nativa de suas frutas: a jabuticaba,
que tem um poder antioxidante superior ao do açaí.
Ela já está na mira dos mesmos empresários
que, com criatividade de marketing, reinventaram a fruta amazônica.
Ralph Crane/Time Life
Pictures/Getty Images
Cornuelle, da United Fruit:
frutos da ação política
A relevância do comércio de frutas transcende
o mundo do marketing e mistura-se à história
política de alguns países. Ao menos dois presidentes
foram depostos na América Central em golpes promovidos
por produtores e exportadores de frutas. O primeiro foi o
presidente de Honduras Miguel Dávila, deposto em 1911
num golpe abertamente patrocinado pela companhia americana
Cuyamel Fruit. Em 1954 foi a vez do presidente da Guatemala
Jacobo Arbenz, deposto após expropriar terras da United
Fruit Company. Conhecida como "O Polvo", por seus tentáculos
políticos e financeiros, a companhia controlou o comércio
internacional de bananas por décadas. Teve na sua presidência,
nos anos 60, um dos grandes visionários do comércio
mundial de frutas, o empresário Herbert Cormelle. Episódios
como esses motivaram o humorista americano William Sydney
Porter a cunhar a expressão "República de Bananas"
para designar, pejorativamente, países governados por
regimes militares corruptos e cuja economia, atrasada, se
baseava nas exportações de um único produto
básico. No cinema, esse arquétipo foi retratado
por Woody Allen em Bananas, filme de 1971 em que um
testador de produtos de uma grande empresa se transforma,
acidentalmente, em presidente da republiqueta fictícia
de San Marcos.
Ninguém
imagina que o Brasil irá se tornar uma "República
de Açaís". A economia do país é
muito mais diversificada do que a de nações
caribenhas ainda dependentes exclusivamente do mercado dos
Estados Unidos. Mas, no comércio mundial, ganha mais
dinheiro quem cria novos e exclusivos produtos. Um açaí
pode ser apenas um açaí, como concluíram
os ribeirinhos da Amazônia. Mas pode ser algo mais.