Especial Todo
mundo quer ajudar a refrescar o planeta
Virou moda falar em aquecimento global. É preciso não esquecer
que os recursos naturais da Terra também estão em perigo
Okky
de Souza
Nicole
Bengiveno/The New York Times
DE
VOLTA AO PASSADO Beavan e Michelle, com
a filha: um ano sem luz elétrica, papel higiênico e elevador num apartamento na
Quinta Avenida, em Nova York
O alerta dos cientistas sobre
o aquecimento global e suas conseqüências, que há poucos anos
mobilizava apenas órgãos técnicos de governos e ambientalistas,
hoje se tornou um tema onipresente. O combate ao aumento do efeito estufa está
na retórica dos políticos e nos planos de negócios dos empresários.
Virou ferramenta de marketing na publicidade e de autopromoção entre
celebridades. Em todo o mundo, a possibilidade de ocorrerem catástrofes
cada vez mais devastadoras por causa da elevação da temperatura
no planeta é tema obrigatório nas rodas de conversa. Essa superexposição
do aquecimento global oferece um benefício e um risco. O benefício
é conscientizar as nações de que a escalada do efeito estufa
é uma ameaça real que precisa ser combatida. Embora não se
saiba até que ponto a atividade humana é responsável por
ela, já que houve muitos outros aquecimentos globais antes mesmo que o
homem inventasse a roda, o fato é que uma Terra alguns graus mais quente
será palco de cataclismos. O risco embutido na "moda" do aquecimento global
é desviar a atenção de outra ameaça ambiental igualmente
grave e cujas conseqüências se farão sentir mais cedo: o esgotamento
dos recursos naturais do planeta.
A maioria dos recursos naturais dos quais o homem depende para viver ou para manter
seu bem-estar pode desaparecer em relativamente pouco tempo. Em alguns locais,
sua falta já começa a fazer vítimas. O consumo de água
no mundo cresceu seis vezes nos últimos 100 anos. O resultado é
que um terço da população mundial vive em regiões
onde a água é escassa, porcentagem que deve dobrar até 2025.
A pesca excessiva e predatória nos mares impede a reprodução
das espécies e já reduziu em 90% a população dos grandes
peixes oceânicos, como o bacalhau e o mero. Estima-se que as reservas de
petróleo sob o solo terrestre se esgotem em cinqüenta anos
até hoje, não se descobriu outra fonte de energia economicamente
viável para substituí-lo em larga escala. A experiência brasileira
prova que o álcool e o diesel feitos com matérias-primas vegetais
podem ser usados como combustível no lugar do petróleo. Mas, caso
a frota mundial de veículos rodasse somente com álcool ou biodiesel,
não haveria terras disponíveis para atender toda a demanda. A exploração
dos recursos naturais permitiu ao ser humano atingir no século XX níveis
de conforto inéditos em sua história. Mas os especialistas em políticas
ambientais advertem que é urgente coibir o desperdício, principalmente
diante do rápido desenvolvimento da China e da Índia. Se essas duas
nações, que abrigam um terço da população do
globo, alcançarem patamares de consumo iguais aos de uma região
rica como a Califórnia, os recursos naturais do planeta entrarão
em colapso (veja
o quadro).
Se o esgotamento
dos recursos naturais da Terra pode ser medido em estatísticas e cifras
exatas, o mesmo não acontece com as conseqüências do aquecimento
global. Não há unanimidade entre os cientistas sobre elas. Isso
porque o clima da Terra é uma conjunção de tantos fatores,
combinados de forma tão complexa, que a ciência ainda não
conseguiu desvendá-lo por completo. É possível que boa parte
do cenário cinzento possa ser revertida também pela ação
humana. A favor dessa teoria existe o fato de que várias catástrofes
mundiais previstas em estudos no passado foram evitadas pelos avanços da
ciência e da tecnologia. Em 1798, o economista inglês Thomas Malthus
afirmou que as guerras pela disputa de comida dizimariam populações
inteiras. A fome seria provocada por um descompasso entre o crescimento vertiginoso
da população e a produção de alimentos. Em 1962, a
bióloga Rachel Carson anunciou que o uso intensivo de pesticidas provocaria
um desastre ecológico. A explicação era que o DDT e outras
substâncias, que permanecem no ambiente por muitos anos e se acumulam nos
tecidos gordurosos, têm efeitos nocivos em animais e seres humanos. Essas
e outras pragas apocalípticas foram vencidas. Disse a VEJA o climatologista
Richard Lindzen, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts: "O homem sempre
foi capaz de se adaptar ao ambiente. Ele inventou as casas, o guarda-chuva, a
calefação e a substituição de colheitas. Desta vez,
com o aquecimento global, não será diferente".
Hoje é cada vez maior o número de pessoas dispostas a empreender
ações individuais de combate ao aquecimento global. Popularizou-se
a prática da "neutralização" de carbono. Quem participa de
ações poluentes, como andar de carro ou viajar de avião,
paga a empresas especializadas para que plantem árvores em quantidade suficiente
para compensar a emissão de CO2 resultante de suas ações.
Uma viagem de São Paulo a Nova York, por exemplo, deve ser compensada com
o plantio de 1.000 árvores. Entre as atitudes individuais em favor do ambiente,
a mais radical de que se tem notícia é a do casal formado pelo escritor
Colin Beavan e pela jornalista Michelle Conlin, de Nova York. Desde o início
do ano, o casal eliminou de seu cotidiano tudo o que polui ou é produzido
de forma poluente. Isso inclui não usar eletricidade, produzida com a queima
de carvão, que produz CO2. Portanto, nada de luz elétrica
(à exceção de uma lâmpada fluorescente), televisão,
geladeira, máquina de lavar ou elevador embora o casal more no 6º
andar de um prédio na Quinta Avenida. Tudo o que é feito de papel
(produzido com a derrubada de árvores) está banido das compras.
Sim, papel higiênico inclusive. Nenhum alimento que o casal e sua filha
de 2 anos comem pode ter sido transportado por trem ou avião. Em lugar
de pasta de dentes, bicarbonato de sódio. A experiência da família
vai durar um ano. O sacrifício é exemplar, mas, infelizmente, de
pouca utilidade. Ações individuais em favor da preservação
ambiental têm impacto praticamente nulo nos problemas que pretendem combater,
sobretudo no caso do aumento do efeito estufa. Em geral, sua principal utilidade
é tranqüilizar a consciência de quem as pratica. De qualquer
maneira, a disseminação do engajamento verde serve para pressionar
os governos a tomar as medidas realmente eficazes para salvar a Terra.