No cenário mais catastrófico
do aquecimento global, traçado pelo cientista inglês James Lovelock,
a humanidade precisaria migrar para os pólos e para o alto das montanhas,
onde a neve e o gelo remanescentes garantiriam um clima mais frio no verão.
Seria uma espécie de volta ao berço. Foi no clima rigoroso da última
glaciação na Europa, que só terminou 11.500 anos atrás,
que o homem moderno desenvolveu os conceitos de família, de religião
e de convivência social, os alicerces da civilização atual.
Sabe-se disso porque os homens da Idade do Gelo deixaram espetaculares evidências
arqueológicas de uma revolução criativa, iniciada há
mais de 30.000 anos.
O homem
moderno não pôs os pés na Europa até 40.000 anos atrás.
Não há certeza de onde vinha, mas o ponto de partida mais provável
é a África oriental por sinal, o berço da espécie
humana. Até então o continente era habitado pelo homem de Neandertal,
parente próximo na árvore da evolução e que agora
está extinto. Os neandertais eram uma espécie de sucesso havia 200.000
anos, eram mais robustos e fisicamente mais bem adaptados ao clima frio. Por que
os vencemos? Um especialista nesses primos desaparecidos, o antropólogo
americano Ian Tattersall, do Museu de História Natural de Nova York, escreveu
que os neandertais eram seres complexos e mestres em sobreviver no continente
gelado. Mas não deixaram evidências de criatividade, daquela centelha
de inovação que é a característica do homem. Foram
os primeiros a enterrar seus mortos, mas não há sinal de nada parecido
com os rituais praticados por nossos ancestrais. É possível que
um grupo neandertal pudesse passar a vida toda sem jamais ver um estranho. Ao
contrário, o homem de Cro-Magnon como é chamado o antigo
Homo sapiens europeu, numa referência à região no sul
da França onde se encontraram seus primeiros vestígios fósseis,
no século XIX deixou objetos tão deslocados de sua origem
geográfica que só podem ser explicados pelo desenvolvimento, na
era glacial, do comércio de longa distância.
Quando chegou à Europa, o homem era fisicamente igual a nós e vinha
equipado com a capacidade de raciocínio abstrato, de linguagem e de cooperação
social do homem moderno. Ocorre, contudo, que até a explosão criativa
da Idade do Gelo não há provas arqueológicas daquilo que
mais nos diferencia dos outros animais a habilidade cognitiva e um comportamento
condicionado por preocupações abstratas e simbólicas. De
repente, 300 séculos atrás, essas provas surgem por toda parte na
Europa. O mais exuberante registro do nascimento da arte são as pinturas
nas cavernas. São cavalos, mamutes, renas, bisões, leões
e uma infinidade de outros mamíferos. Só em Lascaux, no sul da França,
a mais famosa dessas cavernas, há mais de 600 imagens feitas há
17.000 anos, muitas de animais extintos, como o rinoceronte lanudo, dos quais
só conhecemos a aparência graças à arte desses antepassados.
"Foi depois que o homem passou a representar o mundo por meio de símbolos
que se abriram as portas para a criatividade ilimitada", diz Walter Neves, coordenador
do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da Universidade de São
Paulo.
Os Cro-Magnon foram
a primeira sociedade humana que se sabe ter enterrado seus mortos com rituais.
Junto aos corpos, eram colocados colares, armas e outros objetos de uso cotidiano.
Três corpos de 28.000 anos atrás, encontrados na Rússia, vestiam
túnicas confeccionadas com mais de 3.000 peças feitas de marfim.
Cada uma delas demorou pelo menos uma hora para ser produzida. A única
explicação para tal comportamento é a crença de que
seriam úteis na vida após a morte. São as provas mais antigas
da existência de uma experiência religiosa. O exame de locais de acampamento
revelou um padrão de várias fogueiras, sinal de uma organização
social baseada na família. Já foram encontrados instrumentos musicais
feitos há 32.000 anos. O homem da Idade do Gelo fazia arpões de
chifre, e há indícios de que tecia fibras vegetais para o vestuário.
O fato é que eles costuravam suas roupas, como testemunham agulhas feitas
de ossos. Sabe-se até que usavam sapatos. "Entre os esqueletos encontrados
nesses locais, os ossos dos dedos menores do pé estavam encolhidos, o que
não aconteceria se andassem descalços", disse a VEJA o antropólogo
americano Erik Trinkaus, da Universidade de Washington, na cidade de Saint Louis.
Não é sem razão que quando a era glacial chegou ao fim, há
11.500 anos, estávamos equipados para conquistar o mundo. Hoje, somos todos
descendentes desses criativos e habilidosos filhos da Idade do Gelo.
RETRATO DO PASSADO PRESERVADO
NO GELO
Uma das dificuldades para
conhecer o modo de vida dos nossos antepassados é o fato de tecidos, peças
de couro ou de fibras vegetais se desfazerem com o tempo. Não há
vestígios arqueológicos das vestes do homem da Idade do Gelo. Uma
oportunidade única de conhecimento surgiu em 1991, com a descoberta de
um corpo mumificado numa geleira dos Alpes. Não era de alguém da
Idade do Gelo, que terminou há 11 500 anos, mas de um homem morto há
5 300 anos. O frio e o clima seco da montanha conservaram seus restos e objetos
de forma admirável.
Ötzi,
como foi chamado, é ainda hoje a múmia mais antiga já encontrada
perfeitamente preservada. Suas roupas estavam intactas. A peça principal
era uma túnica feita com pedaços de couro de vários animais.
Vestia ainda uma capa de palha trançada e trazia um gorro de pele e sapatos
de couro de cervo forrados com capim. Levava um machado com lâmina de cobre
e uma faca de pedra lascada, ambos com cabo de madeira, pederneiras para fazer
fogo, um arco e catorze flechas num estojo de couro, duas delas com pontas de
pedra, uma bolsa de couro e uma espécie de mochila. Ötzi está
no Museu Arqueológico de Bolzano, na Itália. É a múmia
mais estudada do mundo.