A primeira impressão
que se tem ao navegar pela Antártica é que o aquecimento global
ainda não chegou por lá. Paredões de gelo, com mais de 100
metros de altura, deixam acanhados os transatlânticos que levam turistas
para ver o litoral do único continente intocado pela mão do homem.
O que se pode dizer, então, dos pequenos navios científicos que
passam meses navegando pela costa, coletando dados sobre o papel desempenhado
no clima global pela região mais fria, mais seca, mais alta e com os ventos
mais fortes do planeta? Na realidade, as mudanças climáticas também
já são pesadamente sentidas por lá, ainda que em escala diferente
da que ocorre no Ártico. Não há previsão, por exemplo,
de que suas geleiras possam desaparecer nos próximos milênios. É
um alívio que seja assim. Se todo o gelo que existe na Antártica
se derretesse, o nível dos oceanos subiria 63 metros, alterando brutalmente
o recorte costeiro do planeta.
O lugar onde o aquecimento global exibe maior intensidade é a Península
Antártica, uma área pequena em comparação com o resto
do continente. Com 1.300 quilômetros de extensão, a península
chega próximo a Ushuaia, na Argentina, o ponto extremo da América
do Sul. Nos últimos cinqüenta anos, a temperatura média na
parte ocidental da península aumentou 3 graus, bem mais que no resto do
mundo. Já se vê grama em locais que permaneciam cobertos de gelo
o ano inteiro. As plantas não apenas se espalharam geograficamente, mas
também já conseguem sobreviver à temporada de inverno, quando
o normal seria que morressem com o frio, reaparecendo somente no verão.
O aviso mais contundente de que o aquecimento global chegou ao continente gelado
foi o colapso da plataforma de gelo Larsen B, em 2002. Esse pedaço de gelo
com área duas vezes maior que a cidade de São Paulo e mais de 11.500
anos de existência, fragmentou-se em pequenos icebergs em apenas 35 dias.
Hoje, sabe-se que a plataforma entrou em colapso em função dos ventos
mais fortes e da elevação da temperatura do ar e da água,
causados pelo aquecimento global. "Tudo está acontecendo muito rápido
na península. Se quisermos entender o que pode ocorrer com a Antártica
num futuro de temperaturas mais altas, é para lá que temos de olhar",
diz Jefferson Cardia Simões, glaciologista e coordenador do Núcleo
de Pesquisas Antárticas e Climáticas (Nupac), da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul.
Por
estar numa latitude mais ao norte, a península possui temperaturas mais
amenas do que a média de 50 graus negativos aferida na parte oriental do
continente. Suas ilhas servem de colônia para pingüins e focas. A ilha
Peterman é um desses berçários que abrigam a pouca vida selvagem
que se aventura a viver na Antártica. Os principais moradores são
os pingüins papua e os pingüins adélia. As duas espécies
parecem dividir igualmente o espaço da ilha, mas nem sempre foi assim.
Há poucos anos, Peterman era ocupada predominantemente pelos pingüins
adélia. Com o aumento da temperatura, a quantidade de gelo marinho na região
diminuiu, afetando os pingüins adélia, que começaram a migrar
para locais mais frios ou morreram de fome. O fenômeno se repete por toda
a Antártica e o resultado é que a população de pingüins
adélia caiu um terço nos últimos 25 anos.
Em novembro, Simões irá à Antártica fazer perfurações
para coletar amostras de gelo com dados sobre o clima da península há
500 anos. Perfurar o solo e o manto de gelo da Antártica é uma das
melhores maneiras de descobrir se o que está acontecendo agora faz parte
de um ciclo natural ou se de alguma maneira está sendo provocado pelo homem.
A análise de cilindros retirados das montanhas de gelo da Antártica
Oriental provou que os níveis de CO2 nunca estiveram tão
altos nos últimos 720.000 anos. Foram colunas de sedimentos, rochas e fósseis
que demonstraram que um dia a Antártica foi um continente com florestas
subtropicais e até mesmo dinossauros. A importância das descobertas
que as perfurações proporcionam é rivalizada somente pelo
trabalho dos satélites.
Desde o fim da década de 70, quando os satélites começaram
a ser utilizados para monitorar as regiões polares, eles cresceram em número
e precisão. Com dispositivos especializados, como o ICESat, da Nasa, a
agência espacial americana, é possível medir a espessura do
manto de gelo com a precisão de centímetros. Foi através
de imagens de satélite que os cientistas identificaram a aceleração
do fluxo das geleiras. "Podemos dizer que existe uma Antártica antes e
depois dos satélites. Hoje, dispomos dos meios para dizer se o manto de
gelo está encolhendo ou crescendo", disse a VEJA Jay Zwally, engenheiro
da Nasa que trabalha com o satélite ICEsat. Na Antártica Ocidental,
que inclui a península, o gelo está encolhendo. No resto do continente,
permanece estável.
Os cientistas sabem que, junto com as perfurações, os satélites
são uma peça-chave para ampliar o conhecimento que se tem sobre
a Antártica. O foco principal é determinar a rapidez com que o gelo
vai se derreter num cenário de aquecimento global, já que a equação
é simples: um mundo mais quente significa mais gelo derretendo e aumento
do nível dos oceanos. O derretimento de todas as geleiras do continente,
que guardam 90% de todo o gelo do mundo, é um quadro pouco provável
nos próximos milhares de anos. Isso porque na parte oriental do continente,
que concentra a maior parte do gelo, as temperaturas médias, abaixo dos
50 graus negativos, e o volume do manto de gelo estão estáveis.
Ou, pelo menos, é o que pensam os cientistas, com base no que sabem agora.
O climatologista americano David Bromwich, da Universidade Estadual de Ohio, recomenda
prudência nas previsões. Disse ele a VEJA: "A verdade é que
ainda temos muito que aprender antes de dizer com que rapidez o gelo vai se derreter".
A próxima plataforma
a se romper deve ser a Larsen C. O colapso de plataformas não contribui
para a elevação dos oceanos, porque essas massas de gelo já
estão flutuando na água. O problema é que as plataformas
funcionam como uma barreira natural para o gelo dos glaciares, que se forma sobre
o continente e se move em direção ao oceano. Estudo recente publicado
na revista Science mostrou que, depois do sumiço de Larsen B, a
geleira passou a se movimentar numa velocidade de duas a seis vezes maior do que
na época em que a plataforma retardava seu avanço. É esse
gelo, preso nas geleiras, que contribui para a elevação dos oceanos.
Pode não parecer assustador, quando se considera que a península
concentra menos de 1% do gelo da Antártica. Mas o enfraquecimento das plataformas
também está acontecendo na Antártica Ocidental, onde os cientistas
identificaram glaciares fluindo mais rápido antes mesmo de as plataformas
entrarem em colapso. Se todo o gelo dessa região fosse parar na água,
o nível dos oceanos subiria 7 metros, o suficiente para inundar a orla
do Recife.