A cobertura de gelo do Ártico
atinge a sua extensão máxima no fim de março. Nesse período
do ano, em média 15,7 milhões de quilômetros quadrados de
gelo quase duas vezes o Brasil cobrem o oceano ao redor do Pólo
Norte geográfico e se estendem sobre o mar a partir das costas da Groenlândia,
do Canadá, da Rússia, do Alasca e do arquipélago de Svalbard.
Normalmente, em março, os fiordes dessas ilhas norueguesas estão
cobertos por uma camada compacta de gelo. Essa é a paisagem que se espera
encontrar no Kongsfjorden, que banha o vilarejo de Ny-Ålesund, uma base
científica dedicada ao estudo polar. No mês passado, quando VEJA
visitou o local, o que se via era uma aberração climática:
pelo quarto ano consecutivo, quase não há gelo sobre as águas
do fiorde. "Seria necessário um período de comparação
mais longo para termos certeza de que a falta de gelo no Kongsfjorden é
culpa do aquecimento global", disse o geofísico alemão Sebastian
Gerland, do Instituto Polar Norueguês, enquanto se preparava para embarcar
em uma expedição para medir a espessura do gelo nos fiordes ao redor
do arquipélago. "Mas não há dúvida de que a redução
da área com gelo marinho no Ártico como um todo é um efeito
da mudança climática pela qual a Terra está passando", completou
Gerland. A superfície congelada de mar no inverno ártico, em 2005,
foi quase 1 milhão de quilômetros quadrados menor do que o normal
o equivalente em área ao estado de Mato Grosso , e a sua espessura
média diminuiu 1,3 metro na década de 90.
Há consenso entre os cientistas de Ny-Ålesund de que o Ártico
passa por uma ampla e rápida transformação, como não
se vê em nenhuma outra parte. Esse processo decorre do que se poderia chamar
de círculo vicioso. À medida que o aquecimento global diminui a
área coberta por gelo e neve, mais e mais calor do Sol é absorvido
pelas superfícies que ficaram expostas na terra e no mar. Outra causa de
degelo é o impacto direto da poluição no efeito albedo, como
é chamada a capacidade de refletir o calor da radiação solar.
O depósito de fuligem sobre a neve, resultante da queima global de combustíveis
fósseis e levada para o Ártico pelo vento, já reduziu em
3% o albedo da região. Devido a tudo isso, a temperatura no Ártico
aumentou 2 graus no último século, o dobro da média mundial.
O calor rompeu o equilíbrio
do gelo marinho, das geleiras e também do permafrost, a vasta região
de solo permanentemente congelada nas áreas continentais dentro do Círculo
Polar Ártico. Numa região onde a vida se dá em condições
climáticas extremas, qualquer desequilíbrio tem efeitos devastadores
para a fauna e a vegetação. Um exemplo: o período em que
a água permanece congelada na Baía de Hudson, no Canadá,
está agora três semanas mais curto. Com isso, reduziu-se a temporada
de caça às focas, que vivem no gelo e são a presa predileta
dos ursos-polares. Em menos de duas décadas, a fome deixou a população
local de ursos-polares 20% menor. O vilarejo litorâneo de Shishmaref, no
extremo norte do Alasca, tem existência comprovada de 4.000 anos, o que
faz dele uma preciosidade arqueológica. Agora, por causa do sumiço
do gelo marinho que protegia a praia, está ameaçado de ser engolido
pelo mar. Numa única tempestade, a erosão causada pelas ondas fortes
levou 15 metros do terreno da vila. Em todo o Ártico, o volume de chuva
aumentou 8% nos últimos 100 anos, acelerando o derretimento da neve.
Os cientistas já conseguiram comprovar que muitas dessas mudanças
estão relacionadas ao aquecimento global. Outras ainda dependem de pesquisas
mais detalhadas. Por isso, as bases avançadas de estudos polares no Alasca,
no Canadá, na Groenlândia, em Svalbard e na Sibéria fervilham
com cientistas empenhados em entender melhor o que já se sabe e trazer
à luz o que se desconhece sobre o Ártico. Em Ny-Ålesund, há
oceanógrafos, biólogos, hidrólogos, glaciologistas e climatologistas,
entre outros tantos especialistas de dez nacionalidades, empenhados em quase quarenta
projetos de pesquisa todos de alguma forma relacionados à compreensão
do aquecimento global. O biólogo Haakon Hop, do Instituto Polar Norueguês,
por exemplo, está interessado em entender como o aumento de temperatura
da água afeta os zooplânctons, organismos minúsculos que estão
na base da cadeia alimentar marinha, e os animais que deles se alimentam. Com
quinze anos dedicados a pesquisas no Ártico, Hop nunca testemunhou tantas
alterações no ambiente que estuda como agora. "Os cardumes de arenque,
típicos do Mar do Norte, já são encontrados mais próximos
do Oceano Ártico", diz Hop.
Aos sábados, os pesquisadores da vila norueguesa (população
máxima de 150 pessoas) reúnem-se numa casa transformada em bar.
No mês passado, o gelo colocado nos copos de uísque havia sido recolhido
de pequenos icebergs no fiorde na noite anterior, tinha se desprendido
de uma geleira próxima. A piada entre os cientistas era que se tratava
de uísque 12 anos com gelo 1 000 anos, a idade aproximada do glaciar. De
modo geral, o humor dos pesquisadores é mais sombrio. Estão todos
preocupados com a rapidez com que as geleiras de Svalbard estão perdendo
volume. Os glaciares do arquipélago norueguês, que cobrem uma área
equivalente à do estado do Alagoas, despejam 20 quilômetros cúbicos
por ano de água doce no oceano. É muita água, mas não
se compara ao que ocorre na Groenlândia, que sozinha contribui com 20% da
elevação do nível dos oceanos. Em 2005, a ilha despejou no
mar 200 quilômetros cúbicos de gelo.
Os pesquisadores esperam encontrar no comportamento das geleiras norueguesas um
padrão que permita prever o que acontecerá com o manto de gelo da
Groenlândia. O aumento no nível dos oceanos nas próximas décadas
depende, basicamente, do equilíbrio do gelo da ilha dinamarquesa, que concentra
pouco mais de 10% da água doce congelada existente no mundo. "Há
120.000 anos, quando a temperatura do ar era apenas 1 grau mais quente do que
é hoje, o volume de gelo sobre a Groenlândia era dois terços
do atual e o nível do mar estava 2 metros mais alto", diz o glaciólogo
escocês Doug Benn, do Centro Universitário em Svalbard (Unis). Esse
registro histórico mostra que as previsões mais aceitas sobre a
elevação do mar talvez sejam conservadoras: o Painel Intergovernamental
sobre Mudança Climática (IPCC), da ONU, prevê um aumento de,
no máximo, 59 centímetros no nível dos oceanos até
2100, apesar de estimar uma temperatura 4 graus mais alta. "Essa previsão
é otimista demais porque desconsidera o fator dinâmico dos glaciares.
Quanto mais se movimentam, maiores os icebergs que eles despejam no mar", preocupa-se
o glaciologista dinamarquês Carl Egede Bøggild, da Unis.
Os glaciares são rios de gelo que escorrem lentamente e perdem massa aos
poucos. Uma geleira estável não diminui de tamanho porque suas perdas
são compensadas pela queda de neve. Nestes tempos de desequilíbrio
climático, contudo, praticamente todos os glaciares do planeta estão
escorrendo mais rápido e perdendo volume. A velocidade do Helheim, na Groenlândia,
saltou de 20 metros por dia em 2001 para os atuais 33 metros. Nesse curto período,
a espessura da geleira perdeu 40 metros. "Quanto mais o glaciar afina, mais rápido
ele tende a se movimentar e a perder gelo", diz o glaciologista americano Jack
Kohler, do Instituto Polar Norueguês, em Tromsø.
Os pesquisadores estão atrás de um modelo matemático capaz
de prever a quantidade de gelo que a Groenlândia perderá nas próximas
décadas. Disso depende não só o nível dos oceanos
como também o equilíbrio climático do planeta. Se o ritmo
do derretimento aumentar, o enorme reservatório de água doce da
Groenlândia poderá diluir a salinidade do mar. O resultado seria
o enfraquecimento da corrente marítima do Golfo, cujo calor mantém
amena a temperatura na Europa Ocidental. Não seria apenas um pesadelo para
os europeus, mas um rompimento brutal do clima da Terra. Seria possível
encontrar icebergs no litoral inglês, e a Alemanha teria um inverno tão
rigoroso quanto o que atualmente ocorre no Canadá.
Não menos catastrófica é a perspectiva do derretimento do
solo congelado que cobre 20% da superfície terrestre e chega a mais de
1 500 metros de profundidade na Sibéria. O permafrost armazena mais
gás carbônico que todas as florestas temperadas e tropicais do mundo
juntas. Quando se derrete, o solo do Ártico libera parte desse gás
do efeito estufa, contribuindo para piorar o aquecimento global. A hidróloga
alemã Julia Boike, do Instituto Alfred Wegener para Pesquisa Polar e Marinha,
na Alemanha, faz medições periódicas de temperatura no permafrost
do Alasca, de Svalbard e da Sibéria e está habituada com os sinais
do derretimento do solo. "Há casas na Sibéria que estão desmoronando
porque o chão simplesmente descongelou e afundou", diz Boike. Dela se ouve
uma confissão alarmante: "Há tantas transformações
ocorrendo ao mesmo tempo no Ártico que nós, cientistas, mal temos
tempo de registrar e estudar".