VEJA foi ao Ártico
e à Antártica conferir os estragos causados pelo aquecimento global. A notícia
não é boa: as calotas polares estão no limite da resistência
Norbert
Rosing/National Geographic/Getty Images
TRISTE
DESTINO Urso-polar vasculha lixo no
Canadá. O maior predador do Ártico está ameaçado pela
redução da área de mar congelado, seu território de
caça
Nos
pólos estão gravadas as informações que permitem entender
o passado e fazer uma aposta segura de como será o futuro da Terra. O Ártico
e a Antártica são ao mesmo tempo o termômetro das atuais alterações
ocorridas no clima e um arquivo minucioso da história da atmosfera nos
últimos milhões de anos. O que se ouve nos pólos agora é,
infelizmente, um grito agônico: as mudanças que estão acontecendo
por lá são mais rápidas e intensas do que as sentidas em
qualquer outra parte do mundo. No Ártico, o ritmo da elevação
da temperatura na atmosfera é o dobro da média global. A calota
gelada do Oceano Ártico deve desaparecer totalmente durante o verão
a partir de 2060. Na escala geológica, meio século é um piscar
de olhos. As crianças de hoje serão testemunhas dessa mudança
brutal e talvez não possam ver ursos-polares fora de zoológicos.
A sobrevivência desse magnífico predador na natureza está
ameaçada pela redução da área de mar congelado, seu
território de caça. No sul, registra-se a formação
de áreas verdes maior do que o comum na Península Antártica,
antes predominantemente branca, como o resto do continente. Ninguém pode
ficar indiferente diante dessas mudanças. O que ocorre nas regiões
polares tem repercussão direta no equilíbrio climático em
escala planetária.
Ty
Milford/Getty Images
MAIS
GELO NA ÁGUA Na Antártica,
icebergs cada vez maiores têm se soltado das geleiras. São tão
grandes que alguns levam mais de dez anos para derreter completamente
A compreensão
do que acontece nos pólos se tornou tão crucial e urgente que mais
de sessenta países, entre eles o Brasil, estão mobilizando 10.000
cientistas e vão dedicar 1,5 bilhão de dólares a 228 projetos
de pesquisa no Ártico e na Antártica, como parte do Ano Polar Internacional
2007-2008, que começou em fevereiro. O pano de fundo das pesquisas é
o aquecimento global, que é causado pelo aumento dos gases do efeito estufa
na atmosfera, principalmente o dióxido de carbono, resultado da atividade
humana. Esses gases formam uma espécie de cobertor em torno do planeta,
impedindo que a radiação solar, refletida pela superfície
em forma de calor, se dissipe no espaço. O efeito estufa é um fenômeno
natural, que garante as condições de temperatura e clima necessárias
para a existência de vida na Terra, mas agora se tornou sufocante. Quando
esse mecanismo delicado saiu dos trilhos é uma das perguntas às
quais a Antártica começa a responder. Quando a neve se solidifica,
pequenas bolhas de ar ficam presas no gelo. O exame dessas bolhas em gelo formado
nos últimos 720.000 anos, extraído na Antártica, mostra que
a concentração de dióxido de carbono na atmosfera tem oscilado
para mais e para menos ao longo dos séculos, mas nunca foi tão elevada
como hoje.
O terceiro relatório do
Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), da ONU,
divulgado na sexta-feira passada, coloca o Ártico no topo da lista das
regiões sob pressão do aquecimento global, devido à elevação
da temperatura superior à média mundial. As mudanças aceleradas
na criosfera como é chamado o conjunto dos ambientes congelados
da Terra terão repercussões dramáticas nas outras
partes do mundo. "As regiões polares são como gigantes adormecidos:
seu despertar será sentido com violência em toda parte", disse a
VEJA o oceanógrafo americano Paul Berkman, da Universidade da Califórnia,
que há mais de vinte anos pesquisa as regiões polares. Os pólos,
devido a suas baixas temperaturas, ajudam a manter o clima global ameno, alimentando
as correntes marítimas, resfriando as massas de ar e devolvendo ao espaço
a maior parte da energia solar que recebem, graças a suas vastas superfícies
brancas. Por isso, mesmo alterações aparentemente pequenas nos ambientes
polares podem quebrar o equilíbrio climático do planeta. "Algumas
projeções indicam que a superfície do Oceano Ártico
vai ficar 12 graus mais quente quando todo o gelo derreter, alterando dramaticamente
o clima no Hemisfério Norte", disse a VEJA o australiano Tim Flannery,
autor do livro Os Senhores do Clima (Editora Record).
Nacional
Science Foundation
SOBRE
O PÓLO SUL Para não serem cobertos pela
neve no inverno, os prédios novos da estação científica Amundsen-Scott, dos Estados
Unidos, no Pólo Sul, foram construídos sobre colunas hidráulicas
Uma dificuldade para a humanidade se preparar melhor para as mudanças climáticas
decorre da falta de conhecimento científico sobre o Ártico e a Antártica.
Os modelos meteorológicos usados na previsão do tempo ainda não
dão o devido peso à influência dos pólos. "Uma melhor
compreensão do complexo sistema climático das regiões polares
faria a previsão do tempo de três dias de antecedência ser
tão acurada quanto a de dois dias é hoje", afirma Rainer Vockenroth,
chefe da base alemã de pesquisas polares em Ny-Ålesund, no arquipélago
norueguês de Svalbard, localizada dentro do Círculo Polar Ártico,
a apenas 1 200 quilômetros do Pólo Norte. O mesmo tipo de conhecimento
é necessário para antecipar com maior precisão os efeitos
do aquecimento global em todo o planeta. Já se sabe que o nível
dos oceanos está aumentando 3 milímetros por ano por causa do derretimento
do gelo dos pólos e dos glaciares das montanhas. A Groenlândia e
a Antártica, que acumulam 99% do gelo do planeta, por enquanto respondem
por 30% da elevação dos mares. Os glaciologistas estão tentando
descobrir agora se e quando a perda de volume desses dois imensos
reservatórios de água doce chegará ao ponto em que a elevação
anual do nível do mar será medida em metros, não mais em
milímetros. Nas páginas seguintes, o relato dos repórteres
de VEJA enviados ao Ártico e à Antártica.
Paul
Nicklen/Getty Images
OCEANO
EXPOSTO Navio quebra-gelo em expedição
científica no Ártico: a área com gelo marinho está diminuindo