Sabotar vôos com informações falsas. Essa é a nova
tática dos controladores para aumentar o caos
Gabriela
Carelli e Leoleli Camargo
Otavio
Dias de Oliveira
"Os
controladores de vôo estão mentindo para os pilotos como forma de protesto. Isso
é muito perigoso. Com essas atitudes, não há condições de segurança. Nós, pilotos,
só saímos do chão hoje para não perder o emprego."
Frase de um comandante de aeronave na quarta-feira passada
Até
a colisão do Boeing da Gol com o jato Legacy, em setembro do ano passado,
os brasileiros acreditavam contar com um sistema de segurança aérea
de Primeiro Mundo. Depois do acidente, essa crença se revelou uma ilusão
coletiva alimentada por um misto de desinformação e propaganda oficial
enganosa. Os céus brasileiros, descobriu-se, são tão inseguros
quanto os africanos. Ou seja, em matéria de vigilância e prevenção
de acidentes, o Brasil não ombreia nem com o Terceiro Mundo. Situa-se no
Quarto. Controladores mal preparados operam equipamentos ultrapassados, os aviões
ficam expostos a zonas cegas de radar e a comunicação por rádio
é deficiente. Como se não bastasse tudo isso, um ingrediente explosivo
se juntou à lista de problemas que comprometem a segurança dos vôos
no Brasil. Os controladores de vôo, os mesmos que se amotinaram há
uma semana e paralisaram o país, passaram a lançar mão da
sabotagem como forma de demonstrar insatisfação com suas condições
de trabalho. Segundo uma dezena de pilotos ouvidos por VEJA, os controladores
mentem a eles nas comunicações por rádio. Dois exemplos ocorridos
na semana passada:
• Um avião
ia de Belo Horizonte para São Paulo. O piloto recebeu a informação
de que, por causa do excesso de tráfego aéreo, não poderia
pousar no Aeroporto de Congonhas nas duas horas seguintes. O avião foi
redirecionado para a posição AAQ, onde deveria sobrevoar a região
de Araraquara. Menos de dez minutos depois, o comandante recebeu uma outra informação,
afirmando que Congonhas estava livre para pouso. Em terra, descobriu que o desvio
por duas horas nunca fora necessário.
•
Um vôo vindo do exterior com destino ao Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos,
foi interceptado pelos controladores. Determinou-se ao piloto que sobrevoasse
São Paulo até segunda ordem. Usando os equipamentos de bordo, o
piloto descobriu que não havia tráfego sobre o aeroporto que justificasse
a manobra e decidiu, por conta própria, continuar o vôo. Pousou,
tranqüilamente, após receber permissão da torre do aeroporto.
"Os controladores de vôo
estão mentindo para os pilotos, só para piorar o caos aéreo.
Além de fazer as companhias desperdiçar combustível, isso
eleva nosso stress a níveis insuportáveis", diz um ex-comandante
da Varig que hoje atua em outra companhia. O Sindicato Nacional dos Aeronautas,
sediado no Rio de Janeiro, recebeu queixas de vários de seus associados
relatando casos em que os controladores transmitiram informações
falsas à cabine de comando. Na quinta-feira passada, o sindicato emitiu
uma nota recomendando aos pilotos "serenidade e habilidade gerencial" diante desse
novo desdobramento da crise aérea. "Estamos pedindo aos pilotos que formalizem
as acusações, para que possamos averiguá-las e saber quem
são os responsáveis pelos dados falseados", diz a presidente do
sindicato, Graziella Baggio. Os pilotos observam que a ordem para retardar muito
o pouso de um avião representa, por si só, um perigo. "As longas
jornadas, somadas a uma tripulação tensa e a passageiros nervosos,
se transformam num novo fator de risco nos vôos", diz um comandante de uma
grande companhia.
Divulgação/A
Crônica/AE
DESPREPARO
E TRANSGRESSÃO Controladores militares
amotinados: o que parecia ser o ápice do abuso deu lugar a métodos
ainda mais condenáveis
O descomprometimento e a irresponsabilidade dos controladores aéreos vêm
num crescendo desde que o Boeing da Gol despencou na Amazônia. Primeiro,
para eximir-se de participação na tragédia, eles tiveram
uma reação corporativa: esforçaram-se para jogar toda a culpa
nos pilotos americanos do Legacy. Em seguida, estimulados por líderes sindicais
adeptos do marxismo mais rasteiro que se pode imaginar, entraram nesse vácuo
para reivindicar melhores salários e a desmilitarização daqueles
profissionais pertencentes aos quadros da Aeronáutica. A fim de pressionar
Brasília, iniciaram as operações-padrão e os apagões
que tornaram as viagens de avião no Brasil um inferno. Na semana passada,
às voltas com um governo titubeante, cruzaram os braços. O motim
ocorrido entre os 2.100 controladores militares, que paralisou também seus
400 colegas civis, parecia ser o ápice do abuso. Mas não. Obrigados
a voltar ao trabalho, passaram a enganar os pilotos que estão no ar, colocando
em perigo a vida da tripulação e dos passageiros. É preciso
que fique claro: o fato de ganharem mal não justifica por nenhum ângulo
tais atitudes. Esse tipo de sabotagem contra os vôos é uma transgressão
muito mais grave do que as que eles já cometiam. Cada informação
falsa repassada a um avião deveria ser interpretada como uma tentativa
de homicídio.
Os pilotos
estrangeiros também estão passando maus pedaços nos céus
do Brasil. Seu temor pela segurança dos vôos foi explicitado pela
publicação de um boletim de segurança da Federação
Internacional dos Pilotos (Ifalpa). O documento menciona os principais riscos
do setor aéreo brasileiro e as precauções a serem tomadas.
"O boletim da federação é a única arma que os
pilotos estrangeiros têm hoje para se prevenir contra as falhas constantes
no sistema aéreo brasileiro", disse a VEJA Bill Voss, presidente da Flight
Safety Foundation, outra instituição que monitora as condições
de segurança do tráfego aéreo no mundo. No boletim, a Ifalpa
deixa claro que os controladores brasileiros não são confiáveis:
não falam inglês e veja só já pregavam
mentiras antes de a crise começar, ao afirmar a pilotos de linhas internacionais
que o avião estava sendo monitorado por radar (veja quadro ao lado).
"Atualmente, o grau de confiança da comunidade internacional no espaço
aéreo brasileiro é mínimo", diz Voss.
Sebastiaão
Moreira/AE
TRAGÉDIA
ANUNCIADA Destroços do Boeing da Gol:
o acidente deixou expostos os riscos de voar no Brasil e o descaso do governo
com o setor aéreo
Os depoimentos dos pilotos confirmam o diagnóstico da Ifalpa. Nos Estados
Unidos, segundo um piloto acostumado a voar no exterior, o percurso de San Juan
de Porto Rico a Orlando, de 1.200 milhas, é monitorado por oito controladores,
cada um responsável por uma pequena área do trajeto. No Brasil,
a mesma extensão, que corresponde a um vôo de São Paulo a
Fortaleza, é coberta por no máximo dois controladores. "Nos últimos
tempos a situação piorou tanto que é preciso implorar para
um desses dois controladores atendê-lo. Eles têm muita má vontade",
diz o piloto. Um comandante italiano que chegou ao Brasil na semana passada atesta
que o controle do tráfego aéreo no Brasil, atualmente, é
comparável ao das regiões mais atrasadas da África. Mas,
segundo ele, voar na África é mais seguro, pela simples razão
de que há menos aviões voando simultaneamente. "No Brasil, a comunicação
por rádio é incrivelmente falha. Entre outras situações,
já fiquei esperando meia hora no pátio, com o avião pronto
para decolar, sem receber nenhuma satisfação do controle aéreo",
relata.
Um testemunho dramático
sobre as dificuldades de voar no Brasil foi dado a VEJA pelo mexicano Miguel Marín,
da Federação Internacional de Pilotos, que tem entre suas rotas
a América do Sul. Diz ele: "No espaço aéreo de outros países,
é comum solicitar uma mudança de rota para evitar uma tempestade.
No Brasil, do jeito que as coisas estão, alguns pilotos preferem atravessar
a tormenta. Pode ser menos inseguro do que receber instruções duvidosas
ou não receber instrução alguma. É espantoso: os controladores
brasileiros muitas vezes desprezam os chamados". Não é só
espantoso. É absurdo e inadmissível.
PREGAÇÃO
ANACRÔNICA Imagens do site mantido
pelo sindicato dos controladores civis: cartilha marxista do tempo em que Lula
pisava no chão da fábrica
O
MEDO DOS PILOTOS ESTRANGEIROS
Um boletim recente emitido pela Federação Internacional dos
Pilotos a seus associados alerta: voar nos céus brasileiros é um
perigo. Algumas das advertências do documento com relação
ao controle de tráfego aéreo brasileiro:
• Há áreas no espaço aéreo brasileiro que não
são cobertas por radar. Às vezes o controlador de vôo comunica
ao piloto que seu vôo está sendo acompanhado pelo radar, mas na verdade
o avião está num desses buracos negros
• As mudanças no plano de vôo nem sempre são transmitidas
para todo o sistema de controle de tráfego aéreo. Isso pode resultar
em setores com partes de dois planos de vôo, o original e o reformulado
• Alguns controladores falam
com boa pronúncia certas palavras em inglês, o que dá a impressão
de que dominam o idioma. Isso nem sempre é verdade. Esse engano pode causar
confusão quando o plano de vôo muda
• Ao trocar de altitude durante um vôo sobre o Brasil, o piloto deve prevenir-se
acendendo todas as luzes externas do avião
• O piloto deve manter-se atualizado, através da companhia aérea
em que trabalha, dos riscos de voar sobre o Brasil