Lula atropela
a Aeronáutica, cria uma crise com os militares e é enquadrado
pela caserna mas o país segue sem uma solução
para o apagão aéreo
Otávio
Cabral e Diego Escosteguy
Christian
Hoehn/Getty Images, Andre Dusek/AE
MEDINDO
FORÇA O presidente com o brigadeiro
Saito (à dir.) e os demais membros da cúpula das Forças
Armadas: eles peitaram Lula e ganharam a parada
O
que levou o presidente Lula a ceder tão gentilmente aos controladores de
vôo amotinados nos aeroportos do país no dia 30 de março,
concordando em dar-lhes compensações salariais e revogando-lhes
uma ordem de prisão dada pela cúpula da Aeronáutica? O que
levou o presidente Lula, dias depois, a chamar os controladores de irresponsáveis
e traidores, cancelando correções salariais e autorizando prisões
em caso de nova rebelião? Em sua explicação pública
para tamanha guinada, Lula saiu-se com justificativas contraditórias. Primeiro,
disse que, ao saber do motim dos sargentos, estava a bordo do Aerolula rumo aos
Estados Unidos e não recebera um "quadro completo" da situação.
Depois, encarregou seus assessores de espalhar que o recuo se explicava porque,
no auge da crise, não tinha alternativa além de ceder aos controladores,
sob pena de manter os aeroportos do país paralisados. Por fim, em reunião
com aliados no Palácio do Planalto, disse que se sentia "traído"
pela categoria. "Fui apunhalado pelas costas. Esperaram eu sair do país."
O que Lula não disse é que o principal motivo de ter mudado tão
radicalmente de posição foi outro: os militares peitaram o presidente
e ganharam a parada.
Assim que teve sua ordem de prender os controladores de vôo cancelada por
Lula, o comandante da Aeronáutica, o brigadeiro Juniti Saito, reuniu-se
com um grupo de oficiais, assessores jurídicos e dois representantes do
Superior Tribunal Militar (STM). A reunião aconteceu no 9º andar do
prédio da Aeronáutica, na Esplanada dos Ministérios. Na discussão,
ponderou-se que a decisão de Lula poderia resultar numa acusação
por crime de responsabilidade. Afinal, no artigo 7º da lei que define crime
de responsabilidade prevê-se punição para a autoridade que
venha a "incitar militares à desobediência à lei ou infração
à disciplina". Com essa poderosa ameaça na manga, o brigadeiro convocou
outra reunião, para a manhã seguinte, com os nove brigadeiros que
compõem o alto-comando. Nesse encontro, discutiram como ampliar o arsenal
para enfrentar Lula. A primeira decisão foi que o Ministério Público
Militar, afinado com a cúpula da Aeronáutica, processaria os rebelados,
a despeito das promessas do presidente de que não haveria punição.
"A punição dos grevistas sempre foi questão de honra. Não
voltaremos atrás nem com ordem do papa", disse a VEJA um integrante do
alto-comando.
AE
A
CENTRAL DA CRISE Controle de vôo em Brasília,
no momento do motim dos sargentos
Na mesma reunião, os brigadeiros decidiram ainda resistir a outra reivindicação
dos sargentos amotinados que Lula mandara atender: a desmilitarização
do controle de tráfego aéreo. Atualmente, os controladores de vôo
e os responsáveis pela defesa aérea compartilham uma parte dos equipamentos.
Os militares decidiram, ali, que os equipamentos passariam a ser usados somente
pela defesa aérea. Também decidiram suspender o treinamento de novos
controladores, uma tarefa hoje exclusiva da Aeronáutica, e listaram os
benefícios que mandariam cortar dos rebelados: moradia funcional, transporte
de casa para o trabalho, assistência médica e alimentação
tudo, hoje, cedido pela Aeronáutica. Por fim, Saito disse que, se
Lula mantivesse a decisão de ceder tudo aos amotinados, ele entregaria
o cargo. Os demais presentes com uma só divergência, a do
brigadeiro José Américo dos Santos também disseram
que entregariam o cargo ao presidente. "Olha só a situação
em que eu cheguei", comentou o brigadeiro Saito. "Posso ser o comandante da Aeronáutica
com a permanência mais curta da história."
O pacote todo a suspeita de crime de responsabilidade e a retaliação
à desmilitarização foi apresentado a três interlocutores
do presidente Lula: o deputado Arlindo Chinaglia, presidente da Câmara,
e os ministros Waldir Pires, da Defesa, e Walfrido Mares Guia, das Relações
Institucionais. Lula foi devidamente informado de tudo no próprio sábado,
quando ainda estava em Washington. Ao desembarcar de volta ao Brasil, no domingo
de manhã, o presidente já sabia que transformara o apagão
aéreo numa crise militar e partiu para o recuo. Logo que chegou,
Lula telefonou para o brigadeiro Saito e fez um discurso conciliatório.
Começou atribuindo a culpa ao seu negociador, o ministro Paulo Bernardo,
do Planejamento, que fora escalado para falar com os controladores amotinados
em Brasília e ofereceu a rendição completa do governo
inclusive assinando uma nota em que prometia, em nome do presidente, que não
haveria punição, mas depois negou solenemente o compromisso. Na
conversa telefônica com o brigadeiro, Lula disse que seu ministro se excedera
nas concessões.
AJB/RIO
IMAGEM
DO PASSADO Soldados do Exército ocupam
base da Aeronáutica na rebelião dos sargentos em 1963
Diante da firmeza com que os militares agiram, o presidente Lula voltou atrás
em tudo: autorizou prisões em nova rebelião, cancelou os aumentos
salariais e não editou a medida provisória prevendo a desmilitarização
do setor aéreo. Parece uma solução, mas não é.
"Lula não resolveu o apagão aéreo e ainda criou uma crise
militar. Transformou um problema em dois. Operou o milagre da multiplicação
das crises", avalia o cientista político e historiador Octaciano Nogueira,
da Universidade de Brasília. A crise com os militares não tem parentesco
em termos de gravidade com a revolta promovida pelos sargentos da Aeronáutica
em 1963, que defendiam a elegibilidade dos militares. "Mas talvez seja a crise
mais séria desde que o país voltou a ter eleições
presidenciais diretas, em 1989", diz Octaciano Nogueira. Em contraste com a atual
lambança, os governos passados conseguiram tratar com harmonia assuntos
caros aos militares. O presidente Fernando Collor, por exemplo, logrou acabar
com o famigerado SNI sem provocar a ira dos militares. O presidente Fernando Henrique,
igualmente sem sobressaltos, criou o Ministério da Defesa.
Em boa medida, a crise da semana passada é resultado da inabilidade do
presidente Lula em tomar decisões. A própria crise aérea
já dura seis meses, e, ao longo desse período, sempre que as circunstâncias
exigiram uma pronta decisão, o presidente titubeou e cada vacilo
correspondeu a um prolongamento do caos (veja o quadro na pág. 62).
Seu hábito de adiar ao máximo o momento de tomar uma decisão
parece ter surgido nos tempos de sindicalista no ABC paulista. Ali, Lula forjou
seu modo de fazer política, nas reuniões do sindicato dos metalúrgicos
com as montadoras de automóveis, em que conciliação e paciência
são virtudes essenciais na mesa de negociação. No exercício
da Presidência da República, tais características transformam-se
em defeitos. O comandante de uma nação deve lançar mão
de sua autoridade sempre que necessário, mas isso parece soar aos ouvidos
de Lula como um chamamento à truculência. "A ingenuidade e a irresponsabilidade
política demonstradas por Lula na crise aérea são características
dessa república sindicalista que está no poder", diz a filósofa
Maria Sylvia de Carvalho Franco, da Universidade Estadual de Campinas. "Em determinadas
situações, como a dos amotinados, simplesmente não se pode
negociar. É preciso assumir responsabilidade e tomar as devidas providências."
Ao somar sua proverbial inapetência
por decidir às nomeações equivocadas, Lula contribui pesadamente
para o caos atual. Nem se fale do ministro Waldir Pires, da Defesa, que já
deu provas cabais de sua inadequação ao cargo e a quem Lula
resiste em demitir. A passagem do deputado Carlos Wilson pela presidência
da Infraero quase destruiu a estatal, transformada num monumento à corrupção.
A rapinagem impossibilitou, por exemplo, reformas essenciais na pista do Aeroporto
de Congonhas, o mais movimentado do país. Na Agência Nacional de
Aviação Civil (Anac), dos cinco diretores, quatro não têm
nenhuma experiência no setor tanto que são jocosamente chamados
pelos próprios assessores de "pilotos sem brevê". O dado mais desalentador
é que, com tudo isso, o apagão aéreo entra no feriado da
Páscoa do mesmo tamanho, se não maior, que antes. Os controladores
estão revoltados com o governo, que não cumpriu suas promessas
e, embora estejam amedrontados pela ameaça de punições, mostraram
força para parar o país a qualquer momento. Os militares, por sua
vez, estão convencidos de que o presidente é capaz de lhes ceifar
a autoridade com uma ligeireza inaudita. E o país permanece sem que o governo
tenha até agora apresentado um plano consistente para superar o caos aéreo.
É um vôo cego.
Fotos
Victor Soares/Agência Brasil, Wilton Junior/Ae, Vivi Zanatta/AE e Alan Marques/Folha
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