O novo ministro da Justiça diz que o Brasil é maior do que o
PT pode pensar e que é nula a chance de retrocesso institucional
Otávio Cabral
Ana Araujo
"A
grande utopia da revolução democrática do Brasil é
fazer com que as pessoas pertençam às classes sociais, e não
que sejam destituídas de classes sociais"
O
novo ministro da Justiça, Tarso Genro, 60 anos, gaúcho de São
Borja, transformou-se no curinga do governo do presidente Lula. Já ocupou
três ministérios e passou pela presidência do PT no auge da
crise do mensalão. Hoje, depois da queda de José Dirceu, Antonio
Palocci e Luiz Gushiken, está entre os principais conselheiros políticos
do presidente. Como sinal de que pretende ficar no governo até o fim, ele
acaba de alugar um apartamento em Brasília. Desistiu de morar em quarto
de hotel. No novo imóvel, pode receber com mais conforto amigos e familiares,
inclusive a filha, Luciana Genro, a deputada esquerdista do PSOL, com quem tem
um bom relacionamento. "Não discutimos política. De vez em quando,
trocamos uma ironia ou outra", diz. Terreno para ironias não faltam. Tarso
Genro acha que o Brasil está no rumo certo, diz que a simbiose entre crescimento
e estabilidade é o principal aprendizado do primeiro governo Lula. Para
ele, quem, dentro do PT, discute um terceiro mandato para Lula ou a convocação
de plebiscitos sem passar pelo Congresso é contra tudo "contra o
PT, contra o presidente e contra a democracia".
Veja
Seu antecessor era ligado ao PT, mas o senhor é o primeiro ministro
da Justiça filiado ao PT e com uma história política vinculada
ao partido. Há risco de, sob seu comando, a Polícia Federal virar
uma polícia petista? Genro O risco é zero. Desde a Constituição
de 1988, os sucessivos governos foram profissionalizando cada vez mais a Polícia
Federal. A margem de uso da polícia pelo poder político foi se estreitando
cada vez mais. Portanto, repito: o risco é zero.
Veja Claramente, há uma ala do
PT querendo controlar a PF, manipulando inquéritos, investigações
etc. Genro Políticos
tentando instrumentalizar as instituições existem no PT, no PSDB,
no PMDB. É recorrente. Não digo que sejam tentativas normais ou
aceitáveis, mas apenas que são recorrentes. Portanto, sobre isso,
não acho que o PT tenha feito nada de excepcional. O que posso afirmar
é que todas essas tentativas são absolutamente equivocadas. Foram
rechaçadas na gestão do Márcio Thomaz Bastos e serão
rechaçadas na minha. Um dirigente do PT, sendo ministro da Justiça,
precisa dar exemplo de comportamento republicano. É o que pretendo fazer.
Veja No primeiro mandato do presidente Lula, surgiram propostas para
controlar a imprensa, a universidade, o Ministério Público, o cinema,
a cultura. Essas tentações totalitárias podem voltar neste
novo mandato? Genro Qualquer
regulamentação do estado que venha a diminuir a circulação
das idéias, que venha a estatizar e controlar a formação
da opinião pública é antidemocrática. Não estou
falando das propostas específicas que você mencionou, porque nem
as conheço em detalhe, mas falando de uma questão de princípio.
O estado deve interferir em apenas dois pontos na questão da informação.
Primeiro, para garantir sua livre circulação. Segundo, para impedir
que se torne veículo da criminalidade organizada, como algum órgão,
digamos, fazendo promoção da pedofilia.
Veja Não se pode dizer que esse seja o pensamento do PT, não? Genro Gostaria de fazer uma
reflexão sobre isso. Quando se fala de liberdades democráticas,
a crítica que se faz ao PT é justa e ao mesmo tempo injusta. Vou
me explicar. É justa porque o PT também se originou de organizações
revolucionárias que defendiam a visão unitária do estado
a partir da luta de classes. Mas a crítica é ao mesmo tempo injusta
porque essa visão unitária do estado nunca foi hegemônica
no PT. Hoje, é altamente minoritária, não tem nenhuma chance
de vingar. É por isso, inclusive, que o PT vem sofrendo algumas dissidências.
Dentro do partido, as visões mais tradicionalmente ligadas ao messianismo
proletário tornaram-se cada vez menos expressivas. Hoje, independentemente
de ranço ideológico aqui e ali, não há mais nenhum
grupo no PT que defenda um projeto socialista compatível com a supressão
das liberdades, com uma visão de dominação de classes, de
estado classista. Além disso, só para fechar o raciocínio,
a história nos ensina que, no Brasil, a violência contra as liberdades
democráticas, contra a liberdade de imprensa, é coisa da direita,
não do PT.
Veja
As instituições brasileiras estão amadurecendo
no caminho certo ou o governo e o PT acham que é preciso mudar o rumo?
Genro Rigorosamente, o país está no caminho certo. Desde
1988, estamos consolidando a democracia. Tivemos o impedimento do presidente Collor,
depois a estabilidade democrática no governo FHC, seguida das duas eleições
do presidente Lula. Isso mostra que as instituições democráticas
estão, se não consolidadas, em via de consolidação.
É difícil uma democracia se consolidar com tanta desigualdade social.
Isso porque a democracia tem um arcabouço institucional, mas sua base é
a coesão social.
Veja
O principal desafio da democracia brasileira é consolidar-se
apesar da imensa desigualdade social? Genro
Acho que a palavra adequada é coesão social. A democracia
tem de admitir uma desigualdade social relativa, senão ela não será
democracia. O elemento estratégico vital para sua consolidação
é a coesão social. Eu diria que a grande utopia da revolução
democrática do Brasil é fazer com que as pessoas pertençam
às classes sociais, e não que sejam destituídas de classes
sociais. Temos de reestruturar a sociedade de classe. As pessoas têm de
ter o sentimento de pertencer às classes sociais porque assim elas participam
de um diálogo de coesão. Isso é que dá estabilidade
e força à democracia.
Veja O senhor elogiou há pouco a estabilidade democrática
no governo FHC. Mas, em 1999, o senhor escreveu um artigo, intitulado "Por novas
eleições presidenciais", no qual afirmava que a reeleição
de FHC não era legítima e defendia que ele deixasse o cargo. O senhor
se arrepende de ter escrito aquele artigo?
Genro Na verdade, minha intenção com aquele artigo era fazer
uma dura crítica às medidas econômicas tomadas logo no início
do segundo mandato, em janeiro de 1999, que destruíram a âncora cambial
da estabilidade. No artigo, coloquei taxativamente que o mandato de Fernando Henrique
estava ilegitimado por aquele ato e, por decorrência, ele deveria convocar
nova eleição. Meu objetivo foi fazer um duro ataque político,
e não propor uma mobilização para interromper seu mandato.
Na época, assim que leu o artigo, Lula me disse: "Esse seu artigo vai ser
interpretado como um chamamento ao PT para fazer o impeachment. Seu artigo está
errado". Lula tinha razão. Foi interpretado mesmo como se fosse um "fora
FHC". A repercussão foi muito mais forte do que eu esperava. O conteúdo
das críticas que está ali eu mantenho. Mas, se soubesse que teria
sido apanhado como proposta de interrupção do mandato, eu não
teria dado aquela forma.
Veja Mas, dois meses depois, em outro artigo, o senhor chamou FHC
de "o presidente fora-da-lei", pelo excesso de medidas provisórias, pela
cooptação de deputados e pelo empenho em arquivar CPIs. Como Lula
fez as mesmas coisas, ele também é um "presidente fora-da-lei"? Genro Dentro da normalidade democrática,
acredito que as críticas à ilegitimidade do mandato são totalmente
pertinentes, como foram pertinentes as críticas que a oposição
fez ao presidente Lula. Naquela ocasião, apesar das críticas, Fernando
Henrique conseguiu legitimar seu mandato, exatamente como fez o presidente Lula.
O mérito da crítica está na disputa entre governo e oposição.
Veja Então,
fica subentendido que a oposição critica tudo aquilo que ela mesma
fará caso vire governo. Afinal, o presidente Lula abusa de medidas provisórias,
coopta deputados e tentou impedir CPIs... Genro
As situações podem ser análogas, as críticas
são recorrentes e pertinentes, mas os resultados dos governos são
diferentes. Primeiro, quem não legislar com medida provisória não
governa. Isso não tira o direito de a oposição fazer crítica,
mas o fato é que não governa. Em relação a CPIs, sabemos
que existem as legítimas e as ilegítimas. É um direito da
oposição pedir CPIs e é um direito do governo se opor a elas.
E, quanto à cooptação de deputados, vivemos hoje uma situação-limite
do sistema político. Os hábitos de formação de maioria
são pré-republicanos. Hoje, as bases de sustentação
de um governo são formadas por negociações regionais em cima
de lideranças, não de partidos. O que o segundo governo do presidente
Lula está fazendo é tentar modificar esse hábito, formando
um governo com base num documento de coalizão política, valorizando
os partidos os partidos que temos, que são reais, que estão
aí. Mudar isso, só com uma reforma política.
Veja O senhor apostaria um centavo na
reforma? Genro Na reforma
integral, não. A reforma política deve vir na seqüência
da evolução pela qual a democracia vem passando. O próximo
passo seria uma reforma política com fidelidade partidária, financiamento
público de campanha e valorização dos partidos através
de uma votação em lista.
Veja Uma corrente do PT está empolgada com a tese de um terceiro
mandato para o presidente Lula. Isso pode prosperar?
Genro Se alguém do PT está pensando nisso, então está
pensando contra o PT. Isso é contra o pensamento de 99% do PT, é
contra o presidente da República e é um desserviço à
democracia.
Veja
Em documentos internos, o PT defende que o presidente da República possa
fazer consultas plebiscitárias diretas à população,
sem passar pelo Congresso. Genro
É uma discussão residual dentro do partido. Mas, de novo,
é preciso levar em conta que essa idéia não prospera dentro
do governo nem dentro do PT.
Veja O senhor
é a favor da anistia ao deputado cassado José Dirceu? Genro
O governo não tem nenhuma posição sobre isso, não
é uma questão governamental, não é uma questão
do Ministério da Justiça. É uma questão hoje do José
Dirceu e dos seus companheiros.
Veja O senhor já passou por outros três cargos, mas
está no governo desde o primeiro dia do primeiro mandato. Qual foi seu
maior aprendizado? Genro
Foi compreender a complexidade de governar democraticamente o país. Eu
achava que bastava ter uma maioria eleitoral, pois isso se refletiria nas questões
do Parlamento. Mas é muito mais complexo. Outro aprendizado relevante é
sobre decisões macroeconômicas. Sempre pensei que as mudanças
macroeconômicas, para fazer uma retomada forte do crescimento, pudessem
ser mais rápidas. Pensei que bastavam medidas administrativas diretas do
presidente. Eu não contava com a diversidade real de interesses que existe
na sociedade brasileira. E essa relação entre estabilidade e crescimento
é muito mais complicada do que eu pensava.
Veja E qual foi o maior aprendizado do governo? Genro
Eu diria que foi a compreensão de que as questões mais fundamentais
do país são muito mais amplas do que um partido pode pensar. Por
exemplo: a relação entre crescimento e estabilidade. Não
dar valor à estabilidade, num mundo instável e globalizado, é
um equívoco. Porque aí não se conseguem as modificações
necessárias para que o país cresça e deslanche.
Veja Isso significa que não existe
possibilidade de que, neste segundo mandato, o governo relaxe na estabilidade
em nome de um crescimento mais acelerado? Genro
Não existe a menor chance de que haja esse desequilíbrio
no segundo mandato. O valor da estabilidade como ponto de partida de um projeto
social já foi incorporado pela maioria do PT e do governo. E o presidente
Lula tem essa certeza de forma muito clara.
Veja A falta de segurança é, hoje, a principal preocupação
do brasileiro. O que o senhor tem a dizer para o cidadão que anda com medo
de sair às ruas? Genro
Assumo o compromisso, em nome do governo e acima de qualquer relação
partidária ou ideológica, de trabalhar com os estados e os municípios
para que os cidadãos brasileiros voltem a ter prazer de sair às
ruas com segurança. Hoje, com os escritórios integrados de segurança,
com os programas sociais, com o aprimoramento da inteligência policial,
é possível firmar um pacto federativo de segurança pública
muito forte com estados e municípios. São questões tão
universais que dificilmente serão partidarizadas.
Veja Quem são os pensadores que
o senhor mais admira? Genro
Até meus 30 ou 35 anos, eu era um admirador de Lenin, que conseguiu introduzir,
num país atrasado, princípios políticos e organização
política modernos, que, mais tarde, se revelaram como uma Revolução
Francesa tardia. Reconheço que, do modelo leninista, resultou o stalinismo,
mas também resultou a formação de um estado democrático
de direito originário das dores desse parto. Depois dos meus 30 ou 35 anos,
passei a ter grande admiração por Nelson Mandela. Ele é um
gênio político, comandou uma transição sem sangue de
dentro do cárcere e conseguiu derrotar o apartheid pela ação
política, pela convocação e pela mobilização
social. Se não fosse pela generosidade de Mandela, a África do Sul
estaria hoje afogada em sangue: sem revolução, sem paz e sem estado.
Por fim, do ponto de vista teórico, tenho duas referências intelectuais
fortes: Antonio Gramsci, que foi o grande intérprete da cultura política
revolucionária originária do Renascimento e do Iluminismo, e Norberto
Bobbio, cuja genialidade demonstrou que, sem regras estáveis e previsíveis,
o resultado é sempre pior para uma maioria. Bobbio interferiu profundamente
nos destinos do socialismo italiano, dizendo que, se existe uma possibilidade
verdadeira de socialismo, ela é, em primeiro lugar, uma questão
democrática.
Veja Qual a pitada de leninismo que o senhor colocará agora
no Ministério da Justiça? Genro
Nenhuma. Na minha gestão no Ministério da Justiça
quem estará muito presente será Norberto Bobbio. Isso significa
compreender que, sem uma ordem jurídica legítima, sem a obediência
às regras do direito, a saída será sempre totalitária.
A obra de Bobbio unifica a democracia, a norma jurídica e o direito.