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André
Petry Um ano depois...
"Um
balanço do que aconteceu neste último ano dá uma excelente
idéia sobre a real disposição de parlamentares e governantes
para combater a corrupção que infelicita o país"
A CPI dos Correios completou seu
primeiro aniversário de encerramento na semana passada. Há um ano,
a CPI divulgava um relatório com quase 1.900 páginas e enumerava
uma série de providências destinadas a combater a roubalheira com
o dinheiro público e, quem sabe, evitar que o país voltasse
a conviver com mensalões e mensaleiros. Um balanço do que aconteceu
neste último ano dá uma excelente idéia sobre a real disposição
de parlamentares e governantes para combater a corrupção que tanto
infelicita o país:
A CPI propôs a criação de um sistema nacional de combate à
corrupção, que deveria ser integrado por quinze órgãos
do governo, do Congresso e do Ministério Público. Seria como uma
tropa de choque especializada para farejar permanentemente suspeitas de desvio
de dinheiro público em todo o território nacional. A idéia
não saiu do papel.
O Coaf, órgão que hoje fiscaliza as movimentações
financeiras no país, deveria ser transformado numa agência nacional.
Com isso, teria seus próprios recursos e ganharia maior autonomia em relação
ao governo federal. Deixaria de ficar perseguindo caseiros, por exemplo. Nada
foi feito. Em seu relatório
final, a CPI tocou na origem do mensalão: pediu que os 25.000 cargos de
confiança no governo federal, que são preenchidos na base da disputa
política e germinam boa parte do desvio de recursos públicos, fossem
reduzidos em 75% ao fim de dois anos. Exigiu medida semelhante nos outros poderes.
Passado um ano, tudo continua como antes. Ou melhor: algumas estimativas indicam
que o número de cargos no governo federal aumentou um pouco.
Das dezessete medidas legais sugeridas pela CPI, apenas uma foi aprovada até
hoje. Trata-se de uma lei que procura melhorar a fiscalização sobre
os fundos de previdência complementar, nos quais 14 milhões de brasileiros
depositam suas economias para garantir uma aposentadoria mais confortável.
Mas nem essa única medida entrou em vigor. Até agora, só
foi aprovada pelo Senado. Aguarda votação na Câmara.
Das dezenove autoridades governamentais que receberam o relatório da CPI
para tomar as devidas providências, catorze não se deram ao trabalho
nem de responder ao Congresso Nacional. Diante do descaso, há um mês,
parlamentares que integraram a CPI deram um ultimato às autoridades. Elas
tinham de prestar contas até 5 de abril. O dia 5 de abril caiu na quinta-feira
passada, véspera de feriado nacional. Nenhum parlamentar estava em Brasília.
Também há um
ano, o procurador-geral da República divulgava uma peça arrasadora,
com 136 páginas, denunciando quarenta envolvidos no escândalo do
mensalão e dizendo com todas as letras que a cúpula do PT formara
uma "sofisticada organização criminosa" que se especializara em
"desviar dinheiro público e comprar apoio político". A denúncia
chegou ao Supremo Tribunal Federal, mas, passado um ano, não se abriu um
único processo criminal.
Eis como se combate a corrupção no Brasil. |