Luiz
Felipe de Alencastro
Ler
Santo Agostinho
"Não
é certo que todos os leitores de Santo
Agostinho passarão os portais do céu. Mas
é
seguro que eles entrarão no paraíso da literatura"
Ilustração Ale Setti
 |
Deu na primeira página do jornal francês Le
Monde: o presidente argelino, Abdelaziz Bouteflika,
reabilita Santo Agostinho, que nasceu, viveu e morreu na
antiga Numídia, na Argélia atual. Pouco tempo
atrás, a editora francesa Gallimard começou
a publicar os principais livros de Santo Agostinho em sua
prestigiosa coleção La Pléiade,
que reúne as grandes obras literárias da humanidade.
Santo Agostinho é Doutor da Igreja, estatuto outorgado
pelos papas a uns poucos pensadores cristãos reconhecidos
como doutrinários do cristianismo. Mas ele é
também um filósofo e um autor extraordinário.
Ao longo dos séculos, essa última dimensão
tem sido ocultada pela tradição pia do catolicismo.
Sobretudo pelo oficialismo católico português
e luso-brasileiro, pouco dado a exaltações
literárias. De resto, na língua portuguesa
o nome do santo parece o diminutivo deformado e infantilizante
de um Augusto qualquer, contribuindo para dar-lhe o jeito
de um beato cheio de candura, representado em santinhos
dourados. Nada mais equivocado: Agostinho, como o chamam
os universitários que estudam seu pensamento, é
um tremendo escritor. Aurelius Augustinus nasceu em 354
e morreu em 430. Na periferia do Império Romano,
seus pais se endividaram para mandá-lo estudar na
Universidade de Cartago, a metrópole da África
romana. Mas o jovem Agostinho, então com 16 anos,
em vez de estudar, caiu na gandaia: "E eu fui a Cartago;
em minha volta crepitava a caldeira dos amores vergonhosos
...; eu procurava o que amar ... vítima e agente
de sedução". Amancebado com uma moça
cartaginesa, ele tem, aos 18 anos, um filho, Adeodato. Dá
para saber tudo isso e muito mais de sua vida porque Agostinho
escreveu, 25 anos depois, quando já se havia convertido
ao cristianismo e era bispo de Hipona (atual Annaba, na
Argélia), as Confissões, a autobiografia
que constitui uma obra-prima da literatura ocidental. Aliás,
os especialistas consideram que, graças ao livro,
modelo de reflexão introspectiva sobre a hesitação
e a fraqueza humana, Agostinho é uma das personalidades
mais bem conhecidas da Antiguidade. Grande escritor, correspondendo-se
sempre com pessoas influentes, ele também soube cuidar
da obra de 5 milhões de palavras escritas e ditadas
em latim que legou à posteridade. No final de sua
vida, deu-se ao trabalho de compilar um cuidadoso catálogo
anotado de seus livros. Ao fim e ao cabo, sua síntese
da filosofia de Platão, da cultura romana e do cristianismo
incipiente de seu tempo forja o arcabouço intelectual
que sustentará a doutrina cristã até
a época moderna.
Na Argélia de hoje, ensangüentada pelo fanatismo
islamita, o colóquio internacional sobre a vida de
Santo Agostinho, realizado na semana passada, tem um significado
especial. O evento, intitulado Africanidade e Universalidade,
teve lugar em Argel, na sede do Alto Conselho Islâmico,
dirigido pelos muçulmanos liberais. Especialistas
argelinos e de catorze outros países afirmaram os
valores universais de Confissões, de Cidade
de Deus, lançando uma mensagem de esperança
aos sofridos compatriotas de Agostinho. Do outro lado do
Mediterrâneo, na edição de La Pléiade,
o aparelho crítico dos comentadores reconcilia
o grande escritor africano com a tradição
laica e humanista francesa que, às vezes, discriminava
a obra agostiniana por pura birra anticlerical.
Surge, para todo mundo, uma nova interpretação
de Agostinho. Crente, o leitor de seus livros encontrará
a confirmação que esperava sobre a insustentável
leveza do ser diante da graça divina. Se for incréu,
a leitura de Confissões lhe proporcionará
o gozo da literatura mais vibrante, o prazer do texto que
transcende o latim de nascença para se encarnar nas
nuances das línguas atuais, na interioridade humana,
na nossa contemporaneidade. No final, não é
certo que todos os leitores de Agostinho passarão
os portais do céu. Mas é seguro que eles entrarão
no paraíso da literatura.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador (lfa@workmail.com)