Roberto
Pompeu de Toledo
Uma
estréia que dá
susto
Em
escassas onze
semanas
no
poder, George
W.
Bush já
se meteu em
conflitos demais
"Esse
homem é um perigo." Não é assim que os
americanos dizem? "Esse homem é um perigo", e então
o elegem como inimigo preferencial, e sobre ele recaem o anátema
e as represálias, quando não as bombas: o Milosevic
da Iugoslávia, o Saddam Hussein do Iraque, o Kadafi
da Líbia. Os três citados mostraram-se perigosos
mesmo, mas há casos de aplicação mais
duvidosa do qualificativo. O de Salvador Allende, por exemplo.
O conceito de "homem perigoso" tem largo emprego nas relações
internacionais, e não só da parte dos americanos,
reconheça-se mas sobretudo eles, como mestres
do jogo planetário, o utilizam, nos tempos que correm.
Fidel Castro é um velho homem perigoso. Hugo Chávez,
da Venezuela, desponta como candidato a novo. Mas... E esse
tal de George W. Bush? Aplicando aos próprios Estados
Unidos o mesmo critério, uma pergunta começa
a tomar corpo. George W. Bush não seria um homem perigoso?
É
considerável o número de conflitos em que ele
se envolveu, nas escassas onze semanas decorridas desde a
posse. Logo de início mandou jogar bombas no Iraque.
Mais recentemente, apertou o torniquete contra a Iugoslávia,
forçando-a a prender Milosevic. Pode-se argumentar
que se trata de conflitos herdados, e que os alvos são
indiscutíveis vilões. Mais autoral, no sentido
de que todo seu, e novo era o conflito em que andava metido
na semana passada com a China, depois da aterrissagem forçada
de um avião espião americano em território
chinês. E, passando por cima das desavenças com
a Rússia, também a propósito de espiões,
ainda houve a questão do Protocolo de Kioto. Bush decidiu
que não vai cumprir sua parte no programa de redução
das emissões de gás carbônico acertado
na conferência internacional realizada em Kioto em 1997.
Lembre-se que os Estados Unidos, onde moram 4% dos habitantes
do planeta, produzem 25% dos gases poluidores da Terra. E
daí? Dane-se o resto do mundo. Dane-se o efeito estufa.
"Bush
tem uma típica cabeça de direita", explica uma
autoridade brasileira que conhece o novo presidente americano.
O conceito de "direita" é aqui diferente do de uso
corrente no Brasil. Tem a ver com o capitalismo puritano das
origens americanas. É o que move Bush quando, por exemplo,
critica o FMI. O FMI! E nós, que sempre pensamos que
FMI e Estados Unidos fossem a mesma e única coisa,
ou pelo menos almas gêmeas na defesa dos mesmos e inseparáveis
objetivos! Não que Bush seja contra o pensamento econômico
ortodoxo. Ele se opõe é a emprestar aos países
em dificuldades. Eis o direitismo capitalista em uma de suas
expressões clássicas: nada de ajuda. Cada um
que se vire e conquiste a prosperidade com o suor do rosto.
Não se estaria em presença de um característico
rebento do Partido Republicano? Não. O caso de Bush
é mais agudo, segundo a mesma autoridade brasileira.
"O Estado americano não se apresentava com essa cara
havia muito tempo", diz essa autoridade.
Que é um "homem perigoso"? É um radical, eis
a primeira resposta. Milosevic, Saddam Hussein, Kadafi: cada
um a sua maneira, são todos radicais. Sem querer ofendê-lo,
Bush, com seu fundamentalismo capitalista, candidata-se à
mesma classificação. O "homem perigoso" é
também um impulsivo, e dado a aventuras. Os Estados
Unidos não são a Líbia, o Iraque ou Cuba.
O país assenta-se num quadro institucional complexo,
baseado em pesos e contrapesos, e numa forte opinião
pública. Daí decorre que o presidente dos Estados
Unidos não pode nem sonhar em exercer o cargo à
maneira pessoal de um Kadafi, o que diminui consideravelmente
o potencial perigo do "homem perigoso". Em compensação,
o presidente americano é beneficiário de uma
situação em que as reservas de poder dos Estados
Unidos extravasam a ponto de ameaçar inundar o mundo.
Resulta disso um cacife que redobra o perigo do "homem perigoso".
Não se quer, com essas considerações,
bater na tecla surrada do antiamericanismo. Os Estados Unidos
têm muita coisa boa a oferecer ao mundo. Trata-se de
ter consciência da realidade a realidade de que
o estoque de poder dos Estados Unidos mantém-se alto
como jamais e aplicar sobre ela o perfil de um presidente
que dá sinais de ser menos cauteloso, ou menos respeitoso
com o resto do mundo vide Kioto do que se desejaria.
Antes do encontro com o presidente Fernando Henrique Cardoso,
na semana retrasada, Bush disse que iria encará-lo
olhos nos olhos, para convencê-lo de que a Alca é
bom negócio. Olhos nos olhos pode querer dizer sinceridade,
como ele pretendeu. Mas pode significar também confrontação,
para ver quem pisca primeiro. Essa história de Alca
põe o Brasil diante de opções complicadas
e talvez decisivas. Nas negociações a respeito,
o "olho no olho" da sinceridade pode virar facilmente o "olho
no olho" da confrontação. Já é
árduo negociar com um país que extravasa poder
como os Estados Unidos. Se além disso em seu comando
temos um "homem perigoso"... Por enquanto o "perigoso" vai
entre aspas, aplicado como juízo provisório
sobre alguém que não se conhece bem ainda. A
se confirmar, ai de nós.
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