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A "menos-valia"

Furúnculos, charutos, piadas sujas... Isso
é
Karl Marx, segundo um jornalista inglês

Carlos Graieb

Marx: ah, sim, há também o romance com a governanta

Atormentado por problemas físicos durante toda a vida, o filósofo alemão Karl Marx enfrentou uma doença particularmente desagradável no começo de 1867: uma grande erupção de furúnculos nas nádegas. Depois de vinte anos de reflexão, ele estava prestes a colocar o ponto final no primeiro volume de O Capital, e por isso resolveu sacrificar-se. Escreveu as últimas páginas em pé, ao lado da escrivaninha. "Espero que a burguesia se lembre de meus carbúnculos até a hora da morte", trovejou ele, dias depois, numa carta ao amigo Friedrich Engels. E completou com uma bizarra dica de interpretação de texto. Segundo o grande teórico do comunismo, as dolorosas feridas haviam deixado marcas não somente em sua pele, mas também nas passagens mais coléricas de seu livro.

Dadas as incontáveis páginas escritas sobre Marx nos últimos 100 anos, chega quase a ser surpresa que ninguém ainda tenha legado à posteridade uma tese sobre, digamos, "materialismo e furúnculos". O jornalista inglês Francis Wheen também não se aventura nesse campo da alta teoria. Para ele, no entanto, anedotas como essa são saborosas demais para não ser narradas. É isso o que ele faz na biografia Karl Marx (tradução de Vera Ribeiro; Record; 403 páginas; 48 reais), agora lançada no Brasil. Segundo Wheen, Marx foi santificado e demonizado ao longo do século XX. "É hora de pôr de lado a mitologia e tentar redescobrir o homem", afirma.

Não se pode negar que Francis Wheen tenha feito um trabalho cuidadoso de investigação das fontes biográficas sobre Marx. Suas histórias não são, a rigor, inéditas, mas a maioria delas é contada com mais detalhes do que em outros livros. Formado na escola satírica de jornalismo inglês, ele tem especial prazer em revelar minúcias do dia-a-dia do filósofo, da infância, quando ele obrigava as irmãs a comer bolinhos de lama, até o funeral em 1883. Os cuidados dispensados por Marx à sua barba hirsuta, suas longas noites de trabalho movidas a cerveja barata e charutos malcheirosos, seus problemas com credores, seu gosto por piadas sujas, seu talento para a invectiva e a polêmica – curiosidades desse tipo recebem bastante atenção de Wheen. Também lhe agrada destacar as contradições no comportamento de Marx. Por exemplo, o fato de ele, um descendente de rabinos, mostrar certa predileção pelos insultos anti-semitas. Ou sua vida familiar, na qual se misturam os papéis de filho insensível, pai exemplar, marido amantíssimo e sedutor da empregada (ele teve um filho, que jamais reconheceu, com sua fiel governanta). Mas será que um retrato coerente de Karl Marx emerge da leitura dessa biografia?

Para que isso acontecesse, Wheen deveria oferecer uma hipótese inteligente sobre como se articulam o cotidiano, a psicologia e a obra de Marx. Ele tenta. "O paradoxo, a ironia e a contradição, espíritos que animavam o trabalho de Marx, também deram formato à sua vida", afirma ele. Para dar base a essa idéia, contudo, seria necessário aprofundar-se muito mais nos textos do filósofo do que o autor se mostra capaz de fazer. Suas análises ou são risíveis, como nos dois parágrafos em que procura destrinchar o conceito hegeliano de dialética, ou implausíveis, como nas páginas que descrevem O Capital como um "romance gótico ou melodrama vitoriano". Faltou a Wheen a envergadura para compor um perfil intelectual. Seu Marx é uma celebridade de tablóide, não um pensador formidável cujas obras continuam a influenciar inúmeras disciplinas, apesar da derrocada socialista. No lado oposto, situa-se a biografia escrita pelo filósofo Isaiah Berlin em 1939 e atualizada em 1977. Berlin identifica numa certa "frieza" o traço comum ao homem e ao pensador. "Marx detestava apelos românticos, emocionais ou humanitários. Diferia dos outros ideólogos de sua geração ao vindicar, a seu modo, a razão e a inteligência prática, denunciando vícios intelectuais e a cegueira", afirma. Eis aí um retrato coerente, para além dos furúnculos.

 

   
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