Cordel
albanês
O que há de comum entre os montanheses
de Ismail
Kadaré e os cangaceiros brasileiros
Diogo
Mainardi
O
novo filme de Walter Salles, com estréia prevista para
o segundo semestre, é baseado no romance Abril
Despedaçado (tradução de Bernardo
Joffily; Companhia das Letras; 201 páginas; 23,50 reais),
do albanês Ismail Kadaré. O livro é ambientado
nas montanhas do norte da Albânia, na fronteira com
o Kosovo. Walter Salles achou melhor adaptá-lo para
o Nordeste brasileiro. A escolha não tem nada de insensata.
Há muito em comum entre os montanheses da Albânia
e os nossos sertanejos. São o produto de sociedades
arcaicas, brutais, miseráveis, reacionárias,
atreladas a seus mitos. O romance gira em torno do rigoroso
código de leis que rege a vida dos montanheses. O código
de leis, conhecido como "Kanun", determina desde os ritos
matrimoniais até a demarcação de terras
entre duas aldeias. Ainda mais importantes são as normas
que regulamentam as vinganças. Em observância
a essas normas, o personagem Gjorg vê-se obrigado a
assassinar o membro de uma família rival, vingando
a morte de seu irmão, que, por sua vez, vingara um
parente assassinado, numa cadeia de retaliações
que conta 22 mortos de cada lado, no arco de setenta anos.
Parece literatura de cordel. Parece conto de autor nordestino.
Mas Abril Despedaçado não fica só
nisso. Depois de mostrar a vingança de Gjorg, Kadaré
se concentra na viagem dos recém-casados Bessian e
Diana. Bessian é um escritor de Tirana que, tomado
por um fascínio romântico pelo "Kanun", resolve
passar a lua-de-mel entre os montanheses. É como se
um escritor de Maceió decidisse passar a lua-de-mel
entre os cangaceiros. As duas histórias relatadas por
Kadaré não têm a menor relação
entre si, exceto por um brevíssimo encontro numa estalagem,
quando os olhos de Gjorg cruzam com os de Diana, deixando-a
profundamente perturbada. O terceiro núcleo do romance
é constituído por Mark Ukaçjerra, a autoridade
feudal que recebe um tributo de sangue cada vez que ocorre
um crime de vingança nas montanhas. Entre Mark Ukaçjerra
e os protagonistas das outras duas histórias também
não há muita relação, a não
ser por um olhar de Diana, que deixa Mark Ukaçjerra
profundamente perturbado. Esse negócio de olhares perturbadores
é um manjado expediente literário. Sabe-se lá
como Walter Salles pretende transferi-los para a tela. No
cinema e na vida real, olhares comunicam bem menos do que
em ficção.
Outro expediente literário batido é ambientar
romances às vésperas de eventos históricos
importantes. Em Abril Despedaçado, o evento
é a II Guerra Mundial. Não que o conflito esteja
presente na obra. Na verdade, não haveria a mínima
diferença se a ação se passasse em 1739
ou 1839. Situando-a entre março e abril de 1939, porém,
Kadaré emprestou ao romance um significado que, por
si só, ele jamais teria. As circunstâncias históricas
também ajudaram Kadaré em tempos recentes. Todos
os resenhistas que escreverem a respeito de Abril Despedaçado,
publicado originalmente em 1978, se sentirão no dever
de descrevê-lo como uma profecia das atrocidades cometidas
pelos sérvios durante a guerra do Kosovo, atribuindo-lhe,
mais uma vez, um significado que ele não tem. Sorte
de Kadaré. Seus expedientes funcionam.
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