Terrorismo
light
Em sua nova comédia, John Waters,
o "papa
do
lixo", faz guerrilha contra Hollywood
Isabela
Boscov
 |
| Dorff
e Melanie: Cecil Bem Demente e sua estrela prontos
para atacar o sistema |
Em
um de seus filmes, o roteiro exigia um banquete à base
de rato. Pois ele não teve dúvidas: botou um
roedor no forno. "É o pior cheiro do mundo", recorda.
De outra feita, fez seu ator mais querido, o monumental travesti
Divine, comer excrementos caninos de verdade
diante da câmara. Noutra fita, o mesmo Divine encarnou
a primeira-dama Jacqueline no momento do assassinato do presidente
John Kennedy e isso em 1967, poucos anos depois da
tragédia de Dallas. Até um casamento inter-racial
celebrado por um membro da Ku Klux Klan ele já filmou.
Tudo, sempre, em tom de escracho total. Quem faz questão
de bom gosto, portanto, deve manter distância do cinema
do americano John Waters e de seu novo filme, Cecil
Bem Demente (Cecil B. DeMented, Estados Unidos/França,
2000), que estréia nesta quinta-feira em São
Paulo e no Rio. Mas, para quem ainda não conhece o
trabalho do "papa do trash", ou lixo, aí está
uma chance de conferir, em versão mais amena do que
o habitual, o seu inesgotável poder de satirizar tudo
aquilo que a sociedade civilizada tem como mais sagrado.
O título do filme é um trocadilho com o nome
do lendário Cecil B. DeMille, diretor de épicos
gigantescos como Os Dez Mandamentos. DeMille achava
que era Deus, e sua encarnação bagaceira, Cecil
Bem Demente (interpretado por Stephen Dorff), não é
muito diferente. Exceto por um detalhe: ele abomina a mediocridade
de Hollywood. Quer fazer um cinema guerrilheiro. Por isso,
em parceria com seu bando de desajustados sociais, rapta uma
grande estrela, Honey Whitlock (Melanie Griffith, dando bom
uso à sua canastrice), para obrigá-la a protagonizar
sua produção udigrudi. Não demora muito
para que Honey se bandeie para o lado de seus raptores, como
aconteceu com a milionária Patty Hearst, seqüestrada
em 1974 pelos terroristas do Exército Simbionês
de Libertação. Em tempo: Patty é amiga
de Waters. Nessa sua quarta colaboração com
o diretor, ela faz a mãe de um dos seguidores do cineasta
maluco.
Cecil
Bem Demente tem ótimas piadas. Quase todas debocham
das produções descerebradas dos grandes estúdios.
Lá se vai o tempo, contudo, em que Waters chocava a
platéia com suas estripulias. Aos 54 anos e onze longas-metragens,
o diretor foi ultrapassado pelo baixíssimo nível
daquilo que se vê rotineiramente na televisão
ou nos tablóides. Para sua surpresa, tem até
sucessos moderados no currículo, como Mamãe
É de Morte. Ele mesmo declarou que deixou de ser
um transgressor, para se tornar uma "nota de rodapé
incômoda" na história do cinema. O que ainda
o distingue é a inteligência. Um exemplo: indagado
sobre o futuro do modo de vida gay, Waters, que é desde
sempre homossexual assumido, respondeu: "Prevejo que alguém
vai ficar rico removendo tatuagens dos fortões. Quando
você é jovem, elas são lindas. Mas espere
até os 50 anos. Nada mais caído".
|