Hora
da verdade na TV paga
Os
canais por assinatura agora têm
a
audiência medida pelo Ibope
Marcelo
Marthe
Desde que o Ibope começou a medir a audiência
da televisão brasileira, na década de 50, seus
índices tornaram-se uma arma vital para emissoras e
anunciantes. Com base neles, decidem-se estratégias
de publicidade e promovem-se mudanças na programação.
Em mais de dez anos de existência no Brasil, a TV por
assinatura nunca dispôs de um termômetro semelhante.
Por isso, aguarda-se com interesse o anúncio dos resultados
do novo serviço do Ibope para a TV paga, no próximo
dia 16. VEJA obteve com exclusividade os números consolidados
de março, o primeiro mês da medição
oficial. Eles revelam muito sobre os hábitos do espectador
e já causam rebuliço entre os profissionais
que trabalham nesse meio.
Para aferir a audiência de setenta canais transmitidos
por cabo ou antena parabólica no Brasil, o Ibope se
concentrou nas classes A e B, que respondem por 81% dos 3,4
milhões de lares com TV por assinatura. Dos 400 domicílios
que compõem o universo pesquisado, 250 encontram-se
na cidade de São Paulo e 150 no Rio de Janeiro, já
que os respectivos Estados detêm cerca de 40% dos assinantes
de canais a cabo do país. Assim como na televisão
tradicional, a audiência é medida em pontos.
Só que, enquanto na TV aberta 1 ponto significa 74.000
domicílios, na paga ele equivale a 10.300 lares. A
escala é completamente diferente, dadas as amplitudes
dos dois universos. Um campeão de audiência da
Rede Globo pode chegar a 50 pontos. Já o canal mais
visto da TV por assinatura, o infantil Cartoon Network, reina
do alto de mero 1,27 ponto. Mas, como o poder de compra dos
assinantes é, na média, muito mais alto que
o da massa de espectadores da TV aberta, qualquer fração
reveste-se de importância comercial. "O mercado publicitário
terá de aprender a pensar em públicos restritos,
mas qualificados", diz Flávio Ferrari, diretor do Ibope.
A pesquisa revela que a maioria das pessoas que possuem cabo
ou parabólica ainda prefere assistir aos canais abertos
(veja quadro).
"Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, onde
a TV por assinatura tem tanta força quanto as grandes
redes, no Brasil ela tem sido uma opção complementar",
constata o publicitário Daniel Barbará, que
participou dos estudos para a criação do novo
serviço. O país ainda engatinha no setor. Hoje,
a TV paga está em cerca de 8% dos lares, contra uma
média de 19% nos vizinhos da América Latina
e 84% nos Estados Unidos. Mas o potencial de crescimento é
imenso, e já se começa a notar mudanças
de hábito causadas por ela. Nas residências onde
há TV paga, o horário nobre se estende. Enquanto
na televisão aberta o maior volume de espectadores
se concentra entre as 8 e as 10 da noite hora do Jornal
Nacional e das novelas , a curva de audiência
da TV por assinatura atinge seu pico mais tarde, entre 21h30
e meia-noite. Nos finais de semana, quando cresce a procura
pelas transmissões esportivas e por filmes, a média
geral de audiência tem um aumento de 30%.
Um dado significativo é a força dos canais infantis.
O segmento responde por um quarto da audiência da TV
paga (veja quadro) e, na semana passada, foi ampliado
com a estréia do Disney Channel Brasil, transmitido
com exclusividade pela TVA e pela DirecTV. A maior parte da
programação do Disney Channel é de desenhos
e educativos, mas ela também contemplará os
adolescentes, no fim da tarde, e os adultos, à noite.
Uma curiosidade: os atuais campeões no segmento infantil,
o Cartoon e a Fox Kids, devem seus índices às
mesmas animações japonesas que duelam pela atenção
da garotada na TV aberta. O primeiro tem os monstrengos do
Pokémon como carro-chefe; o segundo, os Digimon.
A disputa pelo público adulto se espraia por vários
gêneros, com destaque para os canais de filmes e esportes,
que lideram um item importante na pesquisa do Ibope: o ranking
de fidelidade entre as pessoas acima de 18 anos. Esse índice
mostra quais canais têm maior capacidade de prender
o espectador com seus programas. "Como as pessoas zapeiam
mais do que nunca, esse é um diferencial estratégico
na luta pela audiência", diz Ferrari. Em março,
a campeã nesse quesito foi a HBO, seguida pela Sportv.
Os canais cuja programação se baseia em seriados,
por sua vez, ostentam outro trunfo eles são fortíssimos
entre o público na faixa dos 18 aos 34 anos, no horário
das 7 à meia-noite.
A TV paga uma vitrine de primeira para produtos como
carrões e outros itens de luxo vem brigando
por mais publicidade. No ano passado, ela ficou com 170 milhões
de reais, cerca de 3% do bolo publicitário total da
televisão, de 5,7 bilhões de reais. Segundo
estimativas do mercado, cinco canais concentram praticamente
a metade desse total. O principal deles é a Sportv,
que, especula-se, teria angariado mais de 20 milhões
em anúncios no ano passado. "Quando os dados do Ibope
vierem a público, esse dinheiro será redistribuído",
alfineta um concorrente. Ao acirrar a competição
e incrementar a publicidade, a medição de audiência
pode acabar resultando, a longo prazo, em pacotes mais em
conta para o consumidor. Isso porque os altos custos serão
compensados por mais receita proveniente de propaganda, possibilitando
que o preço das assinaturas caia.
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