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A vaca louca atropela o Big Mac

Executivos da rede mudam o cardápio e
discutem como enfrentar a queda
de
vendas provocada pela epidemia

Lia Abbud

Efeitos da crise: piadas nos jornais ingleses e o "misto-quente" europeu

O capitalismo produziu milhões de empresas, mas poucas se tornaram símbolos mundiais. O McDonald's, que tem 28.000 lanchonetes espalhadas em 120 países, é uma delas. Quando criou na década de 50 uma linha de produção de lanches rápidos, quentes e com o mesmo sabor em qualquer lugar do planeta, a empresa virou o modelo mais bem-acabado da indústria de fast food. A expansão da rede surgida nos Estados Unidos foi tão marcante que transformou em índice econômico internacional o preço do Big Mac, carro-chefe de sua cozinha. O sucesso e a padronização dos cardápios ao gosto americano provocaram também alguns efeitos colaterais. Italianos e franceses acusaram a companhia de arrasar a cultura gastronômica. Ativistas radicais deixaram um pouco de lado a Nike e a Coca-Cola para eleger o palhaço Ronald McDonald o símbolo maior do capitalismo selvagem. Apesar do barulho provocado por essas manifestações, nenhuma delas conseguiu manchar os arcos dourados em forma de M que adornam a porta das lanchonetes. Nos últimos tempos, o McDonald's sofreu um golpe mais sério quando o nome da companhia passou a ser associado à epidemia da vaca louca. A grande interrogação agora é: qual o futuro de um negócio que vive da venda de hambúrgueres num mundo onde se dissemina com velocidade impressionante o medo de comer carne bovina?

Os problemas começaram nas lojas da Inglaterra. Mais recentemente, nas lanchonetes McDonald's da Alemanha, Espanha e Itália, as vendas chegaram a despencar 50%. A catástrofe também afetou os valores das ações da rede em Wall Street e reduziu os ganhos previstos pelos investidores. Até hoje, é necessário registrar, não houve sequer um caso de consumidor que se tenha contaminado depois de morder um Big Mac. Nem mesmo uma suspeita. Mas o pesadelo da vaca louca vem rondando a cadeia do hambúrguer com uma proximidade cada vez maior. A rede agiu rápido. Na Inglaterra, proibiu as lojas de serem abastecidas com o gado local. Mas o medo de governos e consumidores começou a pular a cerca das fronteiras nacionais. Em janeiro, foi a vez de as autoridades sanitárias italianas colocarem sob suspeita de contaminação um animal pertencente ao rebanho do principal fornecedor da rede McDonald's naquele país. Nada se comprovou, mas o estrago já estava feito. A preocupação chegou aos Estados Unidos, onde a cadeia realiza no momento uma auditoria nos fornecedores para checar se todos estão adotando as devidas medidas preventivas contra a doença.

Mudança de cardápio – Além de reforçar a inspeção sobre a qualidade de sua matéria-prima, o McDonald's sentiu-se obrigado a alterar o cardápio. Nesse caso, está-se fazendo algo muito diferente do que o lançamento de sanduíches sazonais, política que a companhia sempre adotou. Desde o mês passado, os consumidores brasileiros têm à disposição o McMilla, o McDuplo e o McChicken Parmigiana. Essas promoções não têm nada a ver com a epidemia da vaca louca. Na Europa, as mudanças foram mais profundas – e de outra natureza. Em alguns países, a companhia retirou os hambúrgueres do topo das promoções. No lugar, deu destaque a sanduíches à base de carne de porco e frango. E lançou no cardápio europeu o McToast, uma espécie de misto-quente. Nos últimos dias, num lance de ousadia para tentar restabelecer a confiança dos clientes franceses, colocou à venda no país um megahambúrguer, com o dobro do tamanho do Big Mac. No anúncio, a rede pergunta, provocando os consumidores: "Você dá conta?"

A crise da vaca louca pegou o McDonald's justamente numa fase em que a rede está redefinindo sua estratégia de atuação. O grupo mantém uma política de expansão agressiva. A cada seis horas surge um restaurante da cadeia em algum ponto do mundo. A maioria das novas unidades está sendo construída fora dos Estados Unidos. O território americano abriga quase a metade das lojas da cadeia. Essa formidável quantidade de pontos já existentes e a feroz concorrência limitam a multiplicação dos M dourados em solo americano. Por isso, a empresa se voltou para o resto do mundo, especialmente na direção das ex-repúblicas comunistas e socialistas, onde o terreno ainda é vasto para o avanço dos Big Macs. Desde sua inauguração, em 1990, a loja de Moscou é a campeã de movimento da rede.

Outra estratégia que começa a se disseminar na companhia é investir em nichos diferentes de negócios. Em novembro do ano passado, a empresa lançou um hotel na Suíça. Adquiriu também outras redes de alimentação, como as americanas Donatos Pizza, o Chipotle Mexican Grill e o Boston Market. Fora do território americano, comprou na Inglaterra o Aroma Cafe e o Pret a Manger, cadeia especializada em fazer sanduíches com temperos de sabor exótico. Todas essas aquisições mantêm seus nomes originais – ou seja, nenhuma passou a utilizar a marca do McDonald's. No momento, elas são responsáveis por apenas 1% do faturamento de 40 bilhões de dólares anuais da rede. Em dez anos, a expectativa da empresa é que essa fatia represente 20% dos negócios do grupo. Para prospectar outras oportunidades, a cadeia de lojas promove periodicamente encontros de executivos de várias partes do mundo. Desde a semana passada, quarenta deles estão reunidos em Chicago discutindo futuros investimentos. O difícil é imaginar até onde a companhia pode chegar adotando essa estratégia. "Quando eu digo 'querida, vamos sair para comer uma salada', não estou pensando em McDonald's", afirma o analista Allan Hickok, da U.S. Bancorp Piper Jaffray. "Uma alteração profunda exigiria investimentos para mudar uma mentalidade sustentada há quarenta anos na cabeça dos consumidores", completa.

Hambúrguer a sério - E qual foi justamente uma das principais razões do sucesso da rede? Ray Kroc, o fundador do McDonald's, repetia esta máxima: "Nunca ninguém jamais levou tão a sério como nós o negócio de hambúrgueres". Kroc descobriu essa mina de ouro numa visita a um drive-in na Califórnia. Na lanchonete do local, dois irmãos, Dick e Mac McDonald, deixaram a cozinha artesanal de lado e montaram uma espécie de linha de produção capaz de fabricar ao mesmo tempo oito milk-shakes e uma porção de sanduíches. Impressionado com a façanha, Kroc propôs aos irmãos no dia seguinte que abrissem outras unidades iguais. Em 1955, ele mesmo inauguraria a primeira franquia do McDonald's, na cidade de Des Plaines, em Illinois. Seis anos depois, comprou a rede por menos de 3 milhões de dólares. À frente dos negócios, transformou a companhia numa das dez marcas mais valiosas do mundo. De acordo com muitos especialistas, Kroc representa para o mercado de restaurantes o mesmo que Henry Ford simboliza para a indústria de automóveis.

Dono de um estilo direto e rude, o empreendedor deu as diretrizes que transformaram o pequeno negócio de sanduíches numa gigantesca multinacional. É de Kroc uma das frases que se tornaram símbolo do capitalismo. "O que se deve fazer quando um concorrente está se afogando? Pegar uma mangueira e jogar água em sua boca", afirmou, certa vez. Além de apostar numa agressiva política de expansão, Kroc transformou em sinônimo de McDonald's alguns processos – cardápio enxuto, hambúrguer barato, produção em série, ambiente limpo, rapidez no atendimento e mão-de-obra de baixo custo. Inspiradas no sucesso da cadeia surgiram inúmeras outras redes, como a Subway, a Taco Bell, a Wendy's e a Domino's.

Nos países onde o sistema de fast food é uma novidade, a chegada do McDonald's revolucionou alguns hábitos. Um dos principais motivos de sucesso da rede em Hong Kong, por exemplo, foram os padrões de higiene, tanto da comida quanto das dependências das lojas. "Antes, a única opção barata de alimentação disponível para a população local eram barracas de comida nas ruas", afirma James Watson, professor de antropologia da Universidade Harvard e autor de um livro sobre a expansão da empresa na Ásia. "Além de ser mais limpo, o McDonald's oferece comida quente." Para a rede, esse foi o lado bom do processo de globalização, da qual acabou tornando-se um dos símbolos. A face ruim ela começou a conhecer a partir do momento em que grupos contrários à expansão das empresas em âmbito mundial passaram a escolher as lanchonetes McDonald's como símbolo pernicioso da globalização por eles tão detestada. A última porretada veio com uma doença regional, surgida no rebanho da Inglaterra. E essa foi a maior ameaça já experimentada pela companhia. O desafio, agora, não está lá fora da loja, na cabeça de militantes reacionários. Está dentro dos sanduíches, na alma da rede McDonald's.

 

 


Fotos Milena/Marcelo Kura/Fabio Mangabei

 

   
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