Os falsários
que enganam
a ciência
Fraude
com fóssil mostra como cientistas
sérios podem ser induzidos a erros grosseiros
Ana
Santa Cruz
Fotos AP
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Xing Xu e Steven Czerkas com o fóssil do Archaeoraptor
(reconstituído à direita): pressa na
origem de um vexame colossal |
O
maior vexame para um cientista é reconhecer ter sido
engabelado por uma fraude. Estão nessa situação
os paleontólogos Xing Xu, do Instituto de Pal
Vertebrada e Paleoantropologia de Pequim, e Philip Currie,
do Museu de Paleontologia de Alberta, no Canadá. Há
duas semanas, a prestigiada revista científica inglesa
Nature demonstrou de modo categórico que ambos
fizeram papel de bobo. Xing e Currie são autores da
descrição de um dos fósseis mais sensacionais
já descobertos, o Archaeoraptor liaoningensis. Os
ossos comprovariam nada menos que os pássaros atuais
realmente descendem dos dinossauros. A Nature demonstrou
que, longe de ser o avô dos passarinhos, o objeto de
estudo é apenas uma peça forjada por vigaristas
vulgares. A revelação não só carbonizou
a reputação dos dois paleontólogos como
também chamuscou outra sólida instituição
do mundo da ciência, a revista americana National
Geographic, da centenária National Geographic Society,
cuja versão em português é produzida pela
Editora Abril. Há pouco mais de um ano, a National
Geographic colocou na capa uma recriação
artística do animal e deu-lhe crédito como o
elo perdido entre répteis e aves.
AFP/Corbis
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| Múmia
persa: cadáver de 2 anos |
A fraude do Archaeoraptor é exemplar de como
cientistas sérios e publicações respeitáveis
podem ser enganados por espertalhões no competitivo
universo da paleontologia. O autor do estudo publicado na
Nature, o especialista Timothy Rowe, da Universidade
do Texas, submeteu o fóssil a uma tomografia computadorizada
e provou que a teoria do elo perdido dinossauro-ave não
passa de um quebra-cabeça de 88 peças montado
por agricultores chineses com pedaços de fósseis
variados. "Partes de pelo menos duas espécies novas
foram combinadas para aumentar o valor comercial da fraude",
escreveu Rowe. Da China, o fóssil forjado foi levado
por contrabandistas para os Estados Unidos. Lá, foi
comprado pelo paleontólogo amador Steven Czerkas por
80.000 dólares numa tradicional
feira de fósseis em Tucson, no sudoeste do país.
Intrigado com o material, ele o mostrou ao canadense Currie.
A primeira providência do cientista foi avisar a National
Geographic, da qual é consultor. A segunda foi
convocar um especialista do governo chinês, Xing Xu,
pois temia que o fóssil fosse contrabandeado. Ambos
dedicaram apenas dois dias ao estudo do material e saíram
alardeando a nova descoberta.
O achado parecia sensacional demais para ser ignorado. Um
ser emplumado que viveu na China 125 milhões de anos
atrás, com aparência entre uma galinha e o velociráptor,
aquele dinossauro perverso do filme Jurassic Park.
A mentira foi pega pelo rabo, literalmente, um mês depois
da publicação. Em pesquisas mais cuidadosas
feitas na China, Xu descobriu que a cauda do Archaeoraptor
era na verdade de outro bicho, um dromeossauro. Alertada,
a National Geographic mandou investigar a história
e, em outubro, publicou um extenso artigo mostrando como pôde
ser enganada. Fraudes existem em todos os ramos da ciência,
mas a arqueologia e a paleontologia são presas especialmente
fáceis para os espertalhões. Isso ocorre, em
parte, por razões mercadológicas. Há
enorme demanda alimentada por amadores milionários,
cientistas e museus, mas faltam peças autenticadas.
O fóssil e as peças arqueológicas de
valor científico são extraídos de sítios
arqueológicos supervisionados. Mas existe fartura de
fósseis extraídos sem rigor. Desprovidos de
origem comprovada, eles precisam do aval de algum cientista
para ter o valor aumentado. "Em geral, os pesquisadores se
encantam com as peças e não se preocupam com
mais nada", disse a VEJA Oscar Muscarella, pesquisador do
Metropolitan Museum of Art de Nova York e autor de um livro
sobre falsificação de objetos arqueológicos.
Ele calcula que coleções respeitáveis
de negociantes de arte e casas de leilões internacionais
tenham no mínimo 1.000 objetos
forjados ou suspeitos apenas em sua área de atuação,
a arqueologia no Oriente Médio.
Os cientistas também são movidos pela ansiedade
de mostrar serviço. O trabalho na paleontologia e na
arqueologia é, por sua natureza, de resultados lentos
e depende bastante do acaso. Quando tem algo promissor, o
estudioso é tentado a atropelar as regras básicas
da pesquisa científica para divulgar sua descoberta.
O suposto fóssil do Archaeoraptor enganou os
pesquisadores por ser composto de peças originais,
de antiguidade incontestável. Esse é um artifício
usual entre os falsificadores de peças antigas. Uma
múmia trajada de roupas douradas, confiscada pela polícia
paquistanesa de um contrabandista, está agora depositada
no Museu Nacional de Karachi, no Paquistão. O arqueólogo
Ahmed Hasan Dani, da Universidade de Islamabad, apressou-se
em dizer que a múmia com vestes de estilo egípcio
e repousando em caixão de madeira com entalhes em escrita
cuneiforme era a de uma princesa que viveu 600 anos
antes de Cristo. Dois meses antes de aparecer no Paquistão,
a múmia tinha sido oferecida a um colecionador americano
por 11 milhões de dólares. Exames revelaram
que se tratava do corpo de uma mulher mumificada há
apenas dois anos e já em estado de decomposição.
O esquife que dava ar de autenticidade à múmia
era realmente antigo, tinha 250 anos. A arte da falsificação
histórica está na habilidade em misturar peças
velhas e novas. Em ambos os casos, o embuste foi desfeito
com a utilização de tomografia e de análises
químicas mais precisas, que só recentemente
entraram para o arsenal dos pesquisadores. Nem sempre a descoberta
da fraude leva à imediata desmoralização
das peças e das teorias elaboradas em torno delas.
Vinte anos atrás, pesquisadores de vários países
usaram dois pratos de lápis-lazúli atribuídos
aos sumérios para traçar teorias acerca da cultura,
da topografia e das táticas bélicas na Mesopotâmia
cerca de 3.000 anos a.C. As peças
tiveram posteriormente a autenticidade contestada, mas nem
por isso perderam o lugar de honra numa coleção
particular de Nova York e no Museu da Bíblia, em Jerusalém.
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O
embuste original
John Olso
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| Crânio
de Piltdown: parte homem, parte orangotango |
O homem de Piltdown é o mais famoso dos embustes
científicos. Trata-se um crânio aclamado
por décadas pela comunidade científica
como a comprovação da teoria evolucionista
de Charles Darwin. Apresentado em 1912 por um geólogo
amador chamado Charles Dawson, chegou a ser exposto
no Museu Britânico de História Natural.
Em 1953, um exame mais detalhado mostrou que era apenas
uma mistura de crânio humano com mandíbula
de orangotango. Outra fraude histórica foi descoberta,
em dezembro do ano passado, no Museu Nacional do País
de Gales, em Cardiff. O fóssil de um ictiossauro,
um dinossauro aparentado dos peixes, de 1 metro e meio,
era na realidade uma mistura mal-ajambrada de ossos
e gesso que ficou em exposição por mais
de 100 anos. Agora passou a ser exposta como um monumento
aos enganos da paleontologia.
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