Gente
dopada
Novos
analgésicos à base de ópio
sintético viram epidemia nos EUA
Ana
Santa Cruz
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Uma
vitória da medicina contra a dor está-se deteriorando
numa epidemia de viciados. Pelo menos 4 milhões de
americanos viciaram-se em medicamentos vendidos com receita
médica nas farmácias como sedativos e estimulantes.
O problema se ampliou recentemente com a entrada em cena de
uma nova classe de remédios cujo uso se acreditava
ser mais seguro. São os analgésicos que combinam
drogas testadas e inofensivas como a contida no Tylenol
e a que compõe a aspirina com versões
sintéticas de opiáceos, substâncias que
agem sobre o sistema nervoso central. Pelo costume de discutir
em público seus divórcios, as brigas familiares
e até seus vícios, os artistas de Hollywood
e cantores pop têm sido a vitrine mais evidente desse
problema de abuso de analgésicos. Só nos últimos
seis meses, a atriz Melanie Griffith, mulher do galã
latino Antonio Banderas, e o ator Matthew Perry, do seriado
Friends, exibido no Brasil pelas televisões
a cabo, admitiram ser viciados em remédios. Ambos se
internaram em clínicas de desintoxicação
com o objetivo de se livrarem da dependência de analgésicos.
Fazem companhia a outras estrelas que também sofrem
publicamente desse problema.
No início desta semana, o Instituto Nacional contra
o Abuso de Drogas (Nida) anunciará suas diretrizes
para evitar o abuso de opiáceos. As autoridades vão
tornar o acesso a eles bem mais restrito. Os médicos
poderão ser investigados no caso de receitarem os novos
analgésicos numa quantidade que não combine
com o histórico dos pacientes. "Temos milhões
de pessoas recorrendo indiscriminadamente a remédios.
Isso é um sério problema de saúde pública",
disse Alan Leshner, diretor do Nida, à revista Newsweek.
O mais assustador no caso é o fato de muitos dos atuais
dependentes dos analgésicos que agem sobre o sistema
nervoso central nos Estados Unidos terem se viciado involuntariamente
depois de tomar a droga cumprindo determinação
médica. O uso gerou o abuso. Os médicos começaram
a notar um aumento de dependentes entre pessoas com perfil
bem distante do daquelas tradicionalmente mais propensas a
abusar de substâncias químicas. Donas-de-casa,
executivos e pessoas idosas sem passado policial foram pegos
e acusados de falsificar receitas e roubar números
de identificação de médicos com o objetivo
de obter medicamentos em farmácias e hospitais. O mercado
negro desses remédios floresceu.
Entre
os analgésicos mais receitados para dor crônica
nos Estados Unidos estão o OxyContin e o Vicodin, drogas
novas classificadas como opiáceos sintéticos,
extremamente eficazes no tratamento da dor crônica,
mas potencialmente capazes de gerar dependência nas
primeiras doses. Essas drogas substituíram os opiáceos
tradicionais cujos efeitos danosos são bastante conhecidos.
As novas drogas, como o OxyContin, suprimem a dor mais rapidamente
e seus efeitos duram três vezes mais que os das drogas
antigas. Algumas, como o Vicodin, associam um opiáceo
com acetaminofen para turbinar o efeito e há outras,
como o Darvon, que usam narcótico similar sintético
associado ao ácido acetilsalicílico, o princípio
ativo da Aspirina. O problema é que eles herdaram dos
narcóticos antigos, chamados de "bolinhas" nos anos
60, o subproduto da dependência. Herdaram os efeitos
que tornaram as bolinhas um problema sério de saúde
em todo o mundo, a sensação de prazer que torna
o hábito de tomar a droga quase invencível.
Abandonar um vício desse tipo é um dos maiores
sacrifícios a que uma pessoa pode submeter-se. "A síndrome
de abstinência dessas drogas é uma das mais severas
que se conhece. A pessoa experimenta câimbras, fortes
dores musculares, a pressão arterial vai às
alturas", explica Danilo Baltieri, psiquiatra do Grupo de
Atendimento, Pesquisa e Prevenção aos Dependentes
de Opióides da USP. "É quase impossível
para alguém nesse estado conseguir livrar-se do vício
sem ajuda médica", completa. O problema ainda não
afeta o Brasil. A razão principal é simples.
Os analgésicos compostos que estão criando dependência
nos Estados Unidos não chegaram ainda ao mercado brasileiro.
Os opiáceos simples são receitados no Brasil
com muito maior parcimônia que nos Estados Unidos. O
uso deles é restrito quase apenas aos hospitais, onde
o controle é mais rígido e o risco de abuso,
menor. Além disso, os médicos brasileiros olham
com maior desconfiança do que seus colegas americanos
as combinações de drogas num único comprimido.
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