Só
faltam as rodas
Criado
por projetistas de automóveis, tênis
da Adidas é cópia de um carrão, o Audi
TT
Divulgação
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| O
tênis Kobe segue a linha da silhueta do Audi, simula
seus faróis e lanternas e brilha como ele: molde
de argila, como na indústria automobilística |
O
tênis é um dos raros produtos industriais que
precisam ser reinventados sem parar. Isso decorre da acirrada
competição entre as dez grandes marcas que dominam
o mercado global, um negócio anual de 800 milhões
de pares. Como esse tipo de calçado esportivo já
voa alto em termos de tecnologia e conforto, leva vantagem
quem inova no design. A Adidas, um dos maiores fabricantes
de artigos esportivos, fez uma aposta ousada, reunindo duas
paixões mundiais esporte e carros de luxo. A
fábrica alemã das três listras delegou
ao estúdio de design da Audi, em Simi Valley, na Califórnia,
a tarefa de projetar o tênis de basquete Kobe, que leva
o nome do jogador Kobe Bryant, craque do Los Angeles Lakers.
O desafio dos designers não era apenas fazer um calçado
bonito, mas criar uma réplica para os pés do
Audi TT, um carro esportivo que faz sucesso desde que foi
lançado, em 1998. O resultado é um tênis
com uma aparência insólita, sem emendas nem costuras,
como se de fato se tratasse de uma carroceria de automóvel.
A frente lembra bastante a grade do veículo, e o refletor
de luz próximo ao calcanhar reproduz a cor âmbar
da lanterna do TT. "Como o carro, o tênis é um
objeto direcional, associado a velocidade e conforto", teoriza
Derek Jenkins, diretor do estúdio californiano. "É
por isso que os mesmos princípios dinâmicos e
proporções de um veículo podem ser aplicados
a um calçado."
A associação entre automóveis e velocidade
é quase natural. Como os carros, os tênis vendem
sobretudo pela imagem de esportividade que os envolve. Isso
apesar de apenas uma minoria de consumidores usá-los
realmente para praticar esportes. Outras marcas já
pegaram emprestado um ou outro elemento visual de carrões.
O Air Jordan, projetado pelo designer Tinker Hatfield para
a Nike em meados da década de 80, apresentava elementos
copiados dos pára-choques e estofamentos da Ferrari
um mito de quatro rodas. Como o Kobe, o tênis
pegou carona no sucesso de um jogador de basquete, Michael
Jordan. O Air Raid, do mesmo fabricante, tem tiras para prendê-lo
aos pés que lembram cintos de segurança. Na
sala de designers da Nike, em Beaverton, nos Estados Unidos,
há murais com fotos de carros, móveis e eletroeletrônicos
que servem de inspiração. Um outro modelo da
empresa, o Shox, lançado no ano passado, tem linhas
e cores sugeridas pelo pôster de um Porsche prateado
com estofamento vermelho. Há duas semanas, a Olympikus
colocou nas lojas o Gravitor, comparando a tecnologia usada
na sola do produto com uma suspensão inteligente. A
Coverse, fabricante do All Star, chegou a anunciar, no passado,
que seus tênis eram "limusines para os pés".
A Fila já encomendou um modelo ao estúdio Pininfarina,
o mesmo que projeta as Ferrari.
Mas ninguém foi tão longe como o Kobe. Carro
e tênis mantêm uma relação de plágio
consentido. Para preparar o modelo da Adidas, os designers
americanos fizeram protótipos de argila, uma técnica
usual na indústria automobilística, mas inusitada
em se tratando de calçados. Os tênis são
geralmente projetados apenas com o auxílio de programas
de computador. Na pesquisa do formato, que durou cerca de
um ano e meio, foram desembolsados 12 milhões de dólares.
Um custo alto para tão curto período de desenvolvimento.
O Kobe é confeccionado em couro sintético que,
apesar das cores opacas, apresenta um brilho metalizado discreto
que lembra a pintura dos automóveis. O tênis
pode ser comprado no Brasil por 290 reais, o que o coloca
no patamar dos preços mais salgados. É o que
custa andar com um Audi TT legítimo nos pés.
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