NOTÍCIAS DIÁRIAS
 
Geral Saúde

Esta semana

Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Oscar Niemeyer, aos 93 anos, toca vinte projetos
Artigo da revista Science diz que gordura não faz mal
O tênis da Adidas criado por projetistas de automóveis
Spa brasileiro está entre os melhores do mundo
O laser substitui a lipo em pequenas cirurgias
Analgésicos à base de ópio viram epidemia nos EUA
O comércio eletrônico na corda bamba
Massagem até no supermercado
Gucci e LVMH expandem negócios
O tucunaré faz a alegria dos pescadores de todo o país
As gigantescas explosões solares
Descobertos mais onze planetas
Revelada fraude com fósseis de dinossauro
McDonald's se mexe para superar a crise da vaca louca
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos


Colunas
Diogo Mainardi
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

Pela primeira vez uma publicação científica
de prestígio abre suas páginas para um artigo
bombástico que afirma que a gordura não faz mal

Gabriela Carelli

Artigos como o publicado na semana passada pela mais prestigiosa revista científica do mundo, a americana Science, são raríssimos. Assinado pelo jornalista Gary Taubes, o artigo faz a demolição ponto por ponto de um dos dogmas mais aceitos da medicina moderna, o de que uma dieta rica em gorduras é prejudicial à saúde da maioria das pessoas. O articulista da Science lista uma seqüência impressionante de dados tirados de pesquisas de centros de excelência, como Harvard, Cambridge e Johns Hopkins. Ele mostra que a demonização da gordura na dieta nasceu sem muita base científica e se firmou na medicina moderna sem contestação, em parte, por absoluta falta de senso crítico dos pesquisadores. O artigo intitulado "A frágil ciência da gordura na dieta" é também um soco no estômago da indústria de alimentos. "Durante os últimos trinta anos, o conceito de comer saudavelmente passou pela eliminação ou redução da gordura nos alimentos. Cerca de 15.000 produtos dietéticos com teor mais baixo de gordura chegaram às prateleiras dos supermercados. Eles geraram bilhões de dólares para a indústria", diz Taubes. A conclusão dele é inevitável. Evidências de que a gordura dos alimentos não pode ser responsabilizada pela obesidade e pelas doenças do coração sempre existiram. Mas não foram aceitas em virtude da enorme influência da indústria alimentícia e de seus lobbies poderosos exercidos sobre as autoridades de saúde americanas.

"Nos Estados Unidos nós não tememos mais a Deus nem os comunistas. Nós só tememos a gordura." A frase acima, dita pelo médico David Kritchevsky, autor em 1958 de um dos primeiros livros sobre dietas pobres em gorduras, é usada por Taubes para mostrar a força que essa noção ganhou no país. "Apesar de tanta convicção, o que se sabe é que a ciência tradicional gastou milhões de dólares dos contribuintes em pesquisas que, na verdade, nunca provaram que as dietas pobres em gordura prolongam a vida das pessoas", escreveu Taubes. Segundo ele, o melhor dos dados compilados para provar a tese da malignidade da gordura chegou à patética conclusão de que deixar de comer carne, ovos ou manteiga ajuda as pessoas a viver "algumas semanas mais" que aquelas que não se privaram desses alimentos.

"Em toda a literatura médica, não há estudo científico que prove que uma dieta sem gordura evita infarto. Existe o contrário", sustenta. E que fim levaram essas pesquisas? Taubes garante que elas foram sistematicamente desprezadas pela ciência tradicional, mesmo quando vinham de fontes cujas credenciais não podiam ser colocadas em dúvida . É o caso de um grande levantamento feito pela Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard. Durante duas décadas, os pesquisadores avaliaram os hábitos de 300.000 profissionais de saúde americanos, na maioria enfermeiros e médicos, pessoas que, por seu conhecimento, técnica e disciplina, são consideradas ideais para esse tipo de investigação. Pois bem, os resultados mostraram que praticamente não havia diferenças de saúde entre os grupos que comiam alimentos gordurosos e os que se privavam deles. O estudo foi levado ao conhecimento das agências governamentais americanas e solenemente ignorado.

Enquanto os cientistas viravam o rosto para as evidências de que a gordura dos alimentos parecia não ser a causa da obesidade e da doença cardíaca, a população americana – e por influência dela boa parte dos moradores do mundo ocidental industrializado – continuava sendo vitimada pela epidemia de infartos. Mesmo com a redução da gordura na dieta, a doença cardíaca persistia e aumentava. Só muito recentemente o número de mortes por disfunções cardíacas diminuiu nos Estados Unidos. Também no Brasil, entre 1980 e 2000, houve um declínio de 10% no número de mortes por doenças do coração. "Isso é incontestável, mas com certeza não tem relação alguma com o fato de comer vegetais", diz um dos mais atualizados cardiologistas brasileiros, Whady Hueb, do Instituto do Coração, em São Paulo. "A diminuição está muito mais ligada aos avanços médicos e farmacológicos que à quantidade de verduras ingeridas. Os esquimós comem só gordura e alguns deles chegam a viver 120 anos", diz Hueb.

Um jornalista, obviamente, não tem autoridade para ditar regras sobre nutrição. O trabalho de Taubes só foi levado a sério porque é o primeiro a citar num mesmo artigo quase todas as fontes científicas dignas de crédito que pesquisaram o assunto. Entre elas, a mais respeitada é o epidemiologista americano Walter Willet, de Harvard. Ele considera "escandaloso" o fato de o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, o famoso NIH, ter ignorado – e continuar ignorando – os resultados das pesquisas com enfermeiros e médicos que absolviam a gordura do crime de estar matando os americanos do coração. "Eles dizem que precisamos ainda de evidências mais sólidas para mudar as recomendações nutricionais tradicionalmente aceitas. Não deixa de ser irônico, porque eles próprios nunca tiveram evidências sólidas para fazer as recomendações." Willet põe o dedo na ferida. Ele explica que o desastre maior não foi deixar de comer gordura, mas substituí-la por um inimigo alimentar muito mais sutil e destruidor quando ingerido em grandes quantidades, os carboidratos. "As pessoas ficaram assustadas com as gorduras, mas deitaram e rolaram no açúcar, nos pães e nas massas", escreve Taubes. Resultado: enquanto a ingestão média de gordura caía para 34% do total de calorias da alimentação do americano médio, as artérias continuaram se entupindo.

Campeão da luta contra a ingestão de carboidratos, o médico americano Robert Atkins foi intelectualmente massacrado nos anos 70 quando reavivou a tese de que as gorduras sozinhas não eram as vilãs da saúde. "Quem advogava contra o dogma era tachado de irresponsável", disse Atkins a VEJA. Sua dieta, baseada na ingestão de 20 gramas de carboidratos por dia e na liberação da carne, dos ovos e cremes, foi dinamitada. Estava-se então no auge da ojeriza à gordura no prato. Mas, como nada de muito auspicioso ocorria na balança, ou seja, os americanos continuavam engordando, Atkins teve uma nova chance. O livro com os fundamentos de sua dieta foi reeditado recentemente e vendeu milhões de exemplares. Os compradores? Bem, os frustrados pacientes das mais variadas dietas.

O Centro Nacional de Estatísticas de Saúde do Centro de Controle e Prevenção de Doenças indica que o número de adultos obesos nos Estados Unidos aumentou 32% entre 1980 e 1991 e 57% de 1991 até hoje. Para essas pessoas, a chamada "pirâmide alimentar", a que prescreve uma dieta equilibrada com quantidades de carboidratos que Atkins abominaria, de nada adiantou. A pirâmide aconselha que se coma de 55% a 60% de carboidratos. "A literatura científica mostra que dietas de alto consumo de carboidratos não são melhores – e podem ser piores – que as de alto consumo de gorduras", diz Taubes.

O pavor à gordura nasceu de uma descoberta real. A primeira luz vermelha se acendeu durante a Guerra da Coréia, nos anos 50. Os soldados americanos mortos no conflito foram as primeiras vítimas de guerra sistematicamente submetidas a autópsia. Os médicos militares descobriram que muitos dos jovens abatidos pelos coreanos e seus aliados chineses tinham obstruções nas artérias que alimentam o coração. A análise dessas obstruções mostrou que eram feitas de substâncias gordurosas, entre elas o colesterol. Como um tigre sobre a presa, os médicos saltaram para a conclusão de que a gordura era a causa principal dos ataques cardíacos. Foram necessárias décadas de estudos para acreditar que talvez a história não seja tão simples. "O enredo ficou mais complexo", diz Taubes. Os pesquisadores citados por ele lembram que as dietas vegetarianas conseguem reduzir no máximo de 10% a 15% das gorduras no sangue, o que para eles é prova suficiente de que a relação entre nutrição e saúde é mais complicada do que parece. O raciocínio é reforçado pela constatação de que ainda é misterioso o processo pelo qual as estatinas, drogas mais eficientes e modernas usadas com o objetivo de baixar as gorduras no sangue, especialmente o colesterol, protegem o coração. Suspeita-se que parte significativa do efeito protetor das estatinas esteja em seu poder antiinflamatório, e não apenas no de diminuir a gordura circulante.

Os dados cuidadosamente garimpados por Taubes a pedido da revista Science e reproduzidos nesta reportagem não encerram a questão do papel das gorduras na dieta. Não devem ser tomados, obviamente, como um convite à indisciplina à mesa. "Dizer que gordura não faz mal é um risco à saúde de milhares de pessoas", diz Francisco Fonseca, coordenador do setor de lípides, aterosclerose e biologia vascular da Universidade Federal de São Paulo. Gary Taubes enfatiza que nenhum de seus entrevistados aconselha as pessoas com doenças cardíacas ou propensão a tê-las a comer gorduras. Eles apenas não acham razoável que essa restrição feita aos doentes possa ser tomada como uma regra de saúde pública. O artigo do americano teve enorme repercussão não por querer ditar novas regras de alimentação saudável, mas por abrir a discussão sobre uma questão tratada há décadas como um dogma.

 

"Durante trinta anos, o conceito de comida saudável foi sinônimo de pouca gordura. Apesar de décadas de pesquisas, ainda não está devidamente comprovado que o consumo de gordura abrevie a vida de pessoas saudáveis."

"Uma pesquisa sobre dieta e saúde conduzida durante vinte anos pela Universidade Harvard concluiu que o total de gordura consumida não tem relação com doenças cardíacas. A gordura não saturada, como o azeite de oliva, não faz mal. A gordura saturada, das frituras, é um pouco pior, se tanto, que as massas e outros carboidratos."

  Gary Taubes, revista Science

 

"O movimento antigordura está baseado na noção puritana de que alguma coisa ruim tem de ter uma causa maligna. Se você sofreu um ataque cardíaco, é porque fez alguma coisa errada. O ataque cardíaco seria decorrente do fato de você ter comido uma quantidade enorme de coisas ruins, e não uma quantidade muito pequena de coisas boas."

John Powles, da Universidade de Cambridge

 
Saiba mais
Rádio VEJA
  Entrevista com o cardiologista Whady Hueb sobre a polêmica
Dos arquivos de VEJA
  Comer e emagrecer
  Reportagem de capa de 28/02/2001 sobre dietas que ensinam o corpo a perder gordura

 

   
NOTÍCIAS DIÁRIAS
Copyright 2001
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Curitiba
Veja BH | Veja Fortaleza | Veja Porto Alegre | Veja Recife
Edições especiais | Especiais on-line | Estação Veja
Arquivos | Próxima VEJA | Fale conosco