Oscar
Niemeyer
"A vida é rir, chorar e viver intensamente"
Aos
93 anos, o arquiteto toca vinte projetos,
fuma, come ovos e carne vermelha à vontade.
Preocupa-se com um problema:
um dia terá de morrer
Lauro
Jardim
Fotos Nana Moraes
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| Comunista
há sessenta anos, Niemeyer não cobra ideologia:
"Tenho até amigos reacionários. Eles sempre
pensando que estou errado, e eu achando que quem está
errado são eles" |
Oscar Niemeyer costuma dizer que sua arquitetura é
feita também para causar espanto. Para o bem ou para
o mal, é um objetivo alcançado por ele em 65
anos de vida profissional. Impossível fingir indiferença
aos prédios, palácios, residências e monumentos
que saíram da prancheta de Oscar Niemeyer para se espalhar
por quinze países, tendo em Brasília seu showroom
monumental. Há outro tipo de espanto em relação
a Niemeyer. Aos 93 anos, ele continua no batente. Trabalha,
no momento, em vinte projetos, em cinco países. Desenha,
ao mesmo tempo, um templo para a Igreja Universal do Reino
de Deus, do bispo Edir Macedo, uma igreja batista e uma catedral
e uma capela católicas. No mês passado, foi convidado
pelo banqueiro Joseph Safra para fazer a sinagoga de Brasília.
Mas o ateu Niemeyer faz muito mais que inventar templos para
os outros rezarem. Tem projetos em andamento para obras na
Itália, em Portugal, na França e até
uma residência na Noruega, para um escritor de lá.
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| Com
a maquete da catedral de Niterói: ateu, o arquiteto
trabalha simultaneamente em quatro projetos de templo |
Na
posição do mais respeitado arquiteto da atualidade,
ele poderia aninhar-se no prestígio conquistado ao
longo de seis décadas e mais de 500 projetos. Não
com Niemeyer. Ele continua tentando descobrir em cada esboço
uma curva não experimentada. O começo oficial
deu-se em 1940, quando criou aquela inovadora Igreja da Pampulha,
em Belo Horizonte, que é o principal cartão-postal
da capital mineira. Costuma desenhar de pé, defronte
da prancheta. É raro demorar-se num projeto. Muitas
vezes, o desenho sai de primeira, assim como várias
peças de Mozart. "O Memorial da América Latina,
dono do maior vão livre do mundo, foi, todo ele, definido
num único sábado", recorda o engenheiro José
Carlos Sussekind, calculista de seus projetos há quase
trinta anos e um dos amigos mais chegados. Às vezes,
nem precisa da prancheta. Os primeiros rabiscos do Museu de
Arte Contemporânea, fincado quatro anos atrás
em Niterói, surgiram num almoço. Da mesa do
restaurante, Niemeyer podia avistar o local previsto para
o futuro museu. Pediu um guardanapo ao garçom e desenhou
as linhas gerais do projeto. Não tem paciência
para ler as teses acadêmicas que outros escrevem sobre
seu trabalho. Análises "profundas" sobre sua arquitetura
ganham no máximo as estantes de seu escritório.
Os livros 37 pelas últimas contas permanecem
com as lombadas intactas. "Tenho minha intuição,
que me serve bem", diz ele.
Sérgio Dutti
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CONGRESSO
NACIONAL
Revolução estrutural nos tempos da Novacap: "Quando visito
Brasília, sinto que nosso esforço não foi à toa" |
Outra
característica de Niemeyer: ele desafia toda a lógica
da medicina. Aos 93 anos de idade, fuma e traga meia dúzia
de cigarrilhas Davidoff light por dia. Sempre acompanhadas
de uma xícara de café. Sua alimentação
inclui carne vermelha e costuma ser bem condimentada. Meia
hora antes do almoço servido pontualmente ao
meio-dia e meia em seu escritório pede dois
ovos cozidos para aplacar a fome. Também come ovos
todos os dias no café da manhã e janta quase
sempre em restaurantes. Apesar disso, dorme bem, tem boa saúde
e nenhum dos distúrbios que seriam previsíveis
em alguém com esse comportamento aparentemente desleixado.
Em resumo, colesterol e pressão alta são problemas
para os outros. Seu médico é o irmão,
o neurologista Paulo Niemeyer, de 87 anos, a quem recorre
pouquíssimo com queixas. Chega ao escritório
às 9 da manhã, pontualmente. Quando Amaro Paes
Filho, seu motorista há 44 anos, se atrasa mesmo
que por dez minutos , ele se irrita e pega um táxi.
De seu apartamento de três quartos em Ipanema até
o escritório em Copacabana não demora mais que
cinco minutos. Niemeyer tem um Mercedes-Benz, mas, comunista
que não se deixou converter após a queda do
Muro de Berlim, sente certa vergonha do carrão. Quase
dez anos atrás, mesmo contrariado, aceitou que o neto
comprasse o automóvel. Ele ia seguidamente a Brasília
nunca de avião, porque tem medo de voar ,
e seu Alfa Romeo estava caindo aos pedaços. Começou
a usar o Mercedes nas viagens. Com o tempo perdeu a inibição,
e hoje circula pelo Rio de Janeiro com o carro estrelado.
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HAVRE,
FRANÇA
Na ditadura, exílio
voluntário: "Levei
comigo o
progresso da engenharia
brasileira" |
Gregário,
mantém toda a família a sua volta. Sustenta
a mulher, Annita, com quem está casado há 72
anos, a filha, Anna Maria, os quatro netos, os onze bisnetos
e os três trinetos. Os que ele não provê
diretamente, como no caso dos netos, coloca para trabalhar
com ele. A todos os netos deu um apartamento. "Tenho de fazer
uma ginástica para pagar as contas no fim do mês",
diz o arquiteto. Parece charme, mas não é. Niemeyer,
que desenhou palácios e mansões para milionários,
é dono de modesto patrimônio: apenas um automóvel
e três imóveis nenhum deles luxuoso, sendo
que um foi doado por um amigo. Estima que não cobrou
a metade dos 500 projetos que criou. E não dispõe
de empregada em casa. Nesse caso, não por economia.
Annita, 90 anos, tem uma faxineira uma vez por semana, mas
ela mesma lava e passa as roupas do marido. Na hora do almoço,
Niemeyer manda entregar em sua casa uma quentinha, com a mesma
comida que será servida a ele no trabalho.
Eugenio Sávio
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PAMPULHA
Na Igreja de São Francisco, em Belo Horizonte,
o rompimento definitivo com o ângulo reto: "Penetrei
corajosamente no mundo de curvas e de formas novas que
o concreto oferece" |
Se
fosse medido pelo volume de encomendas, seu escritório
poderia ser gigantesco. Só que Niemeyer prefere trabalhar
sozinho: em seu escritório na Avenida Atlântica,
debruçado sobre o mar de Copacabana, só há
um arquiteto, ele próprio. O lugar onde Niemeyer passa
praticamente o dia inteiro e para onde retorna quase todo
fim de semana para dar retoques nos projetos é uma
cobertura de um prédio residencial dos anos 30. No
salão principal, alguns móveis desenhados por
ele mesmo, um sofá, uma mesa que serve para almoços
e jantares, uma mesinha para a secretária e outra para
um ajudante. O canto em que Niemeyer dá vazão
a sua chama de invenção fica atrás do
salão principal. Ali estão sua prancheta, um
banco e vários croquis espalhados. Ao fundo, uma saleta,
com estantes abarrotadas de livros, alguns CDs de Nelson Gonçalves,
Villa-Lobos e Jacob do Bandolim, que costuma ouvir nos fins
de tarde, um sofá e duas cadeiras. Outro pequeno grupo
de dez arquitetos trabalha a quilômetros de distância
dali, num escritório-satélite. A essa equipe
cabe o detalhamento dos projetos.
O escritório de Niemeyer não é um claustro
de trabalho, com hora para abrir e para fechar. Ali, o arquiteto
recebe os amigos para longas jornadas de bate-papos descompromissados.
Em outros tempos, também fazia farras no escritório.
Em seu livro de memórias, As Curvas do Tempo,
publicado três anos atrás, narrou: "É
lógico que nos divertíamos, que as mulheres
compareciam; que inventávamos todas as brincadeiras
à juventude permitidas... Com que alegria o fechávamos
(o escritório) para, em grupo, brincar um pouco!"
Nos últimos tempos, inventou um jantar semanal, às
quintas-feiras, no qual reúne os amigos mais chegados
e, vez ou outra, convidados especiais. "O que ele mais gosta
é de bater papo", diz Renato Guimarães, dono
da editora Revan, seu amigo há quase quarenta anos
e integrante desse grupo seleto. "Mas é uma conversa
amena, sem a obrigação de ninguém ser
brilhante." Nessas noites, regadas a vinho Châteauneuf-du-Pape,
fala-se pouco de arquitetura. Os problemas do Brasil, as lembranças
e a literatura são assuntos mais freqüentes. No
ano passado, uma vez por semana, o arquiteto convidava um
cientista para falar dos mistérios do cosmo. Talvez
seja uma maneira de o ateu Niemeyer tentar explicar o que
os outros explicam através de Deus. "Ele respeita a
crença alheia e, no fundo, até inveja um pouco",
afirma Guimarães.
Dilmar Cavalher/Strana
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MAC
DE NITERÓI
A leveza da estrutura que lembra
um disco voador pousado: integração total
à paisagem |
O
comunismo é sua crença de mais de sessenta anos,
ainda sólida como uma laje de concreto armado. Admira
o ditador Josef Stalin, um dos três maiores genocidas
da História, junto com Hitler e Mao Tsé-tung.
"Stalin era fantástico, um estadista", afirma Niemeyer.
Alguns de seus amigos de esquerda se desesperam. Recentemente,
o escritor uruguaio Eduardo Galeano ligou para Niemeyer para
parabenizá-lo por uma entrevista que dera ao Jornal
do Brasil. Disse até que queria republicá-la
em algum periódico uruguaio. Mas que seria mais prudente
que os elogios a Stalin fossem suprimidos. "Ele disse que
não pegava bem para mim", lembra Niemeyer, que recusou
a oferta. "Digo o que penso mesmo sabendo que possa estar
errado." Em sua defesa, é preciso dizer que ele não
tenta catequizar ninguém que pense diferente. E aceita
argumentos contrários sem alteração de
humor. "Não cobro posição ideológica
de ninguém. Tenho até amigos reacionários",
afirma Niemeyer. "Eles sempre pensando que eu estou errado,
e eu achando que quem está errado são eles."
Também não deixa que suas simpatias políticas
contaminem a escolha dos projetos que executará. Já
trabalhou para políticos tão distintos ideologicamente
quanto Juscelino Kubitschek (para quem ergueu o Conjunto da
Pampulha e Brasília) e Leonel Brizola (que lhe encomendou
os Cieps e o Sambódromo). Ou Paulo Maluf (para quem
projetou uma complementação para o Parque do
Ibirapuera) e o presidente argelino Houari Boumedienne (que
inundou Argel com obras do arquiteto).
Nana Moraes
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| O
arquiteto em sua prancheta: trabalho solitário
numa cobertura de frente para o mar, onde também
reúne amigos para longas jornadas de bate-papo |
Nos
últimos tempos, cismou em deixar para a posteridade
as trocas de idéias que mantém com seus parceiros.
Para isso, no mês passado iniciou uma troca de correspondências
com o amigo Sussekind. Funcionam como um misto de memórias
e observações cotidianas, sempre pontuadas pela
arquitetura. É algo que Niemeyer sempre lastimou não
ter feito com Joaquim Cardozo, poeta e calculista de Brasília.
"Tínhamos conversas maravilhosas sobre tudo enquanto
pensávamos Brasília", diz. Niemeyer escreve
as cartas a mão. Depois, entrega os originais para
sua secretária datilografar. Detalhista, compara com
o manuscrito, assina e envia. E cobra resposta. "Cadê
a carta?", perguntou quando Sussekind demorou um pouco a responder.
Nas cartas, discorre sobre assuntos variados. "Da minha parte,
vou tentar conter esse pessimismo que me envolve e a idade
agrava. E me fazer mais ameno, certo de que a vida é
rir e chorar, mas também vivê-la intensamente",
propõe, num trecho de sua primeira correspondência.
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| Oscar
e Annita Niemeyer: união de 72 anos, com roupa
lavada por ela |
É
certo que quem nunca se emocionou com seu traço continua
dando de ombros. Também é certo que reclamações
contra o lado funcional de sua arquitetura ainda façam
ruído aqui e ali. Não há, no entanto,
como não perceber que as antigas e persistentes críticas
sobre sua obra perderam o vigor de outros tempos. "Niemeyer
é o mais importante arquiteto do século XX",
afirma o colega paulista Ruy Otahke. Niemeyer começou
a carreira numa época em que duas vertentes revolucionárias
dominavam a arquitetura, no início do século
passado. De um lado, a escola Bauhaus, que pregava a primazia
do funcionalismo e da padronização. Do outro,
havia o franco-suíço Le Corbusier, que privilegiava
a beleza das formas, mas ainda se utilizava de estruturas
mais pesadas, vãos curtos e a linha reta. No meio dessas
duas poderosas forças surgiu Niemeyer, pregando e praticando
a radicalização da beleza das formas como meta.
"Eu crio surpresas", diz. Mais do que isso, ele é um
dos brasileiros que ajudaram a construir a identidade nacional.
Niemeyer deve concordar com isso, mas não é
o caso de perguntar a ele. "Eu me reconheço como um
sujeito que procura ser correto e faz o que gosta", resume,
modesto. E que tem muita fome de viver e criar, poderia acrescentar.
Outro dia, depois de um almoço com o irmão,
Paulo Niemeyer contou ao filho: "O Oscarzinho está
muito chateado, inconformado com um problema". "Qual?", perguntou
o filho. "Um dia ele vai ter de morrer."
Com
reportagem de
Lucila Soares
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