NOTÍCIAS DIÁRIAS
 
Geral Perfil

Esta semana

Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Oscar Niemeyer, aos 93 anos, toca vinte projetos
Artigo da revista Science diz que gordura não faz mal
O tênis da Adidas criado por projetistas de automóveis
Spa brasileiro está entre os melhores do mundo
O laser substitui a lipo em pequenas cirurgias
Analgésicos à base de ópio viram epidemia nos EUA
O comércio eletrônico na corda bamba
Massagem até no supermercado
Gucci e LVMH expandem negócios
O tucunaré faz a alegria dos pescadores de todo o país
As gigantescas explosões solares
Descobertos mais onze planetas
Revelada fraude com fósseis de dinossauro
McDonald's se mexe para superar a crise da vaca louca
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos


Colunas
Diogo Mainardi
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

Oscar Niemeyer
"A vida é rir, chorar e viver intensamente"

Aos 93 anos, o arquiteto toca vinte projetos,
fuma, come ovos e carne vermelha à vontade.
Preocupa-se com um problema:
um dia terá de morrer

Lauro Jardim

Fotos Nana Moraes
Comunista há sessenta anos, Niemeyer não cobra ideologia: "Tenho até amigos reacionários. Eles sempre pensando que estou errado, e eu achando que quem está errado são eles"


Oscar Niemeyer costuma dizer que sua arquitetura é feita também para causar espanto. Para o bem ou para o mal, é um objetivo alcançado por ele em 65 anos de vida profissional. Impossível fingir indiferença aos prédios, palácios, residências e monumentos que saíram da prancheta de Oscar Niemeyer para se espalhar por quinze países, tendo em Brasília seu showroom monumental. Há outro tipo de espanto em relação a Niemeyer. Aos 93 anos, ele continua no batente. Trabalha, no momento, em vinte projetos, em cinco países. Desenha, ao mesmo tempo, um templo para a Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, uma igreja batista e uma catedral e uma capela católicas. No mês passado, foi convidado pelo banqueiro Joseph Safra para fazer a sinagoga de Brasília. Mas o ateu Niemeyer faz muito mais que inventar templos para os outros rezarem. Tem projetos em andamento para obras na Itália, em Portugal, na França e até uma residência na Noruega, para um escritor de lá.


Com a maquete da catedral de Niterói: ateu, o arquiteto trabalha simultaneamente em quatro projetos de templo

Na posição do mais respeitado arquiteto da atualidade, ele poderia aninhar-se no prestígio conquistado ao longo de seis décadas e mais de 500 projetos. Não com Niemeyer. Ele continua tentando descobrir em cada esboço uma curva não experimentada. O começo oficial deu-se em 1940, quando criou aquela inovadora Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte, que é o principal cartão-postal da capital mineira. Costuma desenhar de pé, defronte da prancheta. É raro demorar-se num projeto. Muitas vezes, o desenho sai de primeira, assim como várias peças de Mozart. "O Memorial da América Latina, dono do maior vão livre do mundo, foi, todo ele, definido num único sábado", recorda o engenheiro José Carlos Sussekind, calculista de seus projetos há quase trinta anos e um dos amigos mais chegados. Às vezes, nem precisa da prancheta. Os primeiros rabiscos do Museu de Arte Contemporânea, fincado quatro anos atrás em Niterói, surgiram num almoço. Da mesa do restaurante, Niemeyer podia avistar o local previsto para o futuro museu. Pediu um guardanapo ao garçom e desenhou as linhas gerais do projeto. Não tem paciência para ler as teses acadêmicas que outros escrevem sobre seu trabalho. Análises "profundas" sobre sua arquitetura ganham no máximo as estantes de seu escritório. Os livros – 37 pelas últimas contas – permanecem com as lombadas intactas. "Tenho minha intuição, que me serve bem", diz ele.

 
Sérgio Dutti
CONGRESSO NACIONAL
Revolução estrutural nos tempos da Novacap: "Quando visito Brasília, sinto que nosso esforço não foi à toa"

Outra característica de Niemeyer: ele desafia toda a lógica da medicina. Aos 93 anos de idade, fuma e traga meia dúzia de cigarrilhas Davidoff light por dia. Sempre acompanhadas de uma xícara de café. Sua alimentação inclui carne vermelha e costuma ser bem condimentada. Meia hora antes do almoço – servido pontualmente ao meio-dia e meia em seu escritório – pede dois ovos cozidos para aplacar a fome. Também come ovos todos os dias no café da manhã e janta quase sempre em restaurantes. Apesar disso, dorme bem, tem boa saúde e nenhum dos distúrbios que seriam previsíveis em alguém com esse comportamento aparentemente desleixado. Em resumo, colesterol e pressão alta são problemas para os outros. Seu médico é o irmão, o neurologista Paulo Niemeyer, de 87 anos, a quem recorre pouquíssimo com queixas. Chega ao escritório às 9 da manhã, pontualmente. Quando Amaro Paes Filho, seu motorista há 44 anos, se atrasa – mesmo que por dez minutos –, ele se irrita e pega um táxi. De seu apartamento de três quartos em Ipanema até o escritório em Copacabana não demora mais que cinco minutos. Niemeyer tem um Mercedes-Benz, mas, comunista que não se deixou converter após a queda do Muro de Berlim, sente certa vergonha do carrão. Quase dez anos atrás, mesmo contrariado, aceitou que o neto comprasse o automóvel. Ele ia seguidamente a Brasília – nunca de avião, porque tem medo de voar –, e seu Alfa Romeo estava caindo aos pedaços. Começou a usar o Mercedes nas viagens. Com o tempo perdeu a inibição, e hoje circula pelo Rio de Janeiro com o carro estrelado.

 
HAVRE, FRANÇA
Na ditadura,
exílio voluntário: "Levei comigo o progresso da engenharia brasileira"

Gregário, mantém toda a família a sua volta. Sustenta a mulher, Annita, com quem está casado há 72 anos, a filha, Anna Maria, os quatro netos, os onze bisnetos e os três trinetos. Os que ele não provê diretamente, como no caso dos netos, coloca para trabalhar com ele. A todos os netos deu um apartamento. "Tenho de fazer uma ginástica para pagar as contas no fim do mês", diz o arquiteto. Parece charme, mas não é. Niemeyer, que desenhou palácios e mansões para milionários, é dono de modesto patrimônio: apenas um automóvel e três imóveis – nenhum deles luxuoso, sendo que um foi doado por um amigo. Estima que não cobrou a metade dos 500 projetos que criou. E não dispõe de empregada em casa. Nesse caso, não por economia. Annita, 90 anos, tem uma faxineira uma vez por semana, mas ela mesma lava e passa as roupas do marido. Na hora do almoço, Niemeyer manda entregar em sua casa uma quentinha, com a mesma comida que será servida a ele no trabalho.

 
Eugenio Sávio
PAMPULHA
Na Igreja de São Francisco, em Belo Horizonte, o rompimento definitivo com o ângulo reto: "Penetrei corajosamente no mundo de curvas e de formas novas que o concreto oferece"

Se fosse medido pelo volume de encomendas, seu escritório poderia ser gigantesco. Só que Niemeyer prefere trabalhar sozinho: em seu escritório na Avenida Atlântica, debruçado sobre o mar de Copacabana, só há um arquiteto, ele próprio. O lugar onde Niemeyer passa praticamente o dia inteiro e para onde retorna quase todo fim de semana para dar retoques nos projetos é uma cobertura de um prédio residencial dos anos 30. No salão principal, alguns móveis desenhados por ele mesmo, um sofá, uma mesa que serve para almoços e jantares, uma mesinha para a secretária e outra para um ajudante. O canto em que Niemeyer dá vazão a sua chama de invenção fica atrás do salão principal. Ali estão sua prancheta, um banco e vários croquis espalhados. Ao fundo, uma saleta, com estantes abarrotadas de livros, alguns CDs de Nelson Gonçalves, Villa-Lobos e Jacob do Bandolim, que costuma ouvir nos fins de tarde, um sofá e duas cadeiras. Outro pequeno grupo de dez arquitetos trabalha a quilômetros de distância dali, num escritório-satélite. A essa equipe cabe o detalhamento dos projetos.

O escritório de Niemeyer não é um claustro de trabalho, com hora para abrir e para fechar. Ali, o arquiteto recebe os amigos para longas jornadas de bate-papos descompromissados. Em outros tempos, também fazia farras no escritório. Em seu livro de memórias, As Curvas do Tempo, publicado três anos atrás, narrou: "É lógico que nos divertíamos, que as mulheres compareciam; que inventávamos todas as brincadeiras à juventude permitidas... Com que alegria o fechávamos (o escritório) para, em grupo, brincar um pouco!" Nos últimos tempos, inventou um jantar semanal, às quintas-feiras, no qual reúne os amigos mais chegados e, vez ou outra, convidados especiais. "O que ele mais gosta é de bater papo", diz Renato Guimarães, dono da editora Revan, seu amigo há quase quarenta anos e integrante desse grupo seleto. "Mas é uma conversa amena, sem a obrigação de ninguém ser brilhante." Nessas noites, regadas a vinho Châteauneuf-du-Pape, fala-se pouco de arquitetura. Os problemas do Brasil, as lembranças e a literatura são assuntos mais freqüentes. No ano passado, uma vez por semana, o arquiteto convidava um cientista para falar dos mistérios do cosmo. Talvez seja uma maneira de o ateu Niemeyer tentar explicar o que os outros explicam através de Deus. "Ele respeita a crença alheia e, no fundo, até inveja um pouco", afirma Guimarães.

 
Dilmar Cavalher/Strana
MAC DE NITERÓI
A leveza da estrutura que
lembra um disco voador pousado: integração total à paisagem

O comunismo é sua crença de mais de sessenta anos, ainda sólida como uma laje de concreto armado. Admira o ditador Josef Stalin, um dos três maiores genocidas da História, junto com Hitler e Mao Tsé-tung. "Stalin era fantástico, um estadista", afirma Niemeyer. Alguns de seus amigos de esquerda se desesperam. Recentemente, o escritor uruguaio Eduardo Galeano ligou para Niemeyer para parabenizá-lo por uma entrevista que dera ao Jornal do Brasil. Disse até que queria republicá-la em algum periódico uruguaio. Mas que seria mais prudente que os elogios a Stalin fossem suprimidos. "Ele disse que não pegava bem para mim", lembra Niemeyer, que recusou a oferta. "Digo o que penso mesmo sabendo que possa estar errado." Em sua defesa, é preciso dizer que ele não tenta catequizar ninguém que pense diferente. E aceita argumentos contrários sem alteração de humor. "Não cobro posição ideológica de ninguém. Tenho até amigos reacionários", afirma Niemeyer. "Eles sempre pensando que eu estou errado, e eu achando que quem está errado são eles." Também não deixa que suas simpatias políticas contaminem a escolha dos projetos que executará. Já trabalhou para políticos tão distintos ideologicamente quanto Juscelino Kubitschek (para quem ergueu o Conjunto da Pampulha e Brasília) e Leonel Brizola (que lhe encomendou os Cieps e o Sambódromo). Ou Paulo Maluf (para quem projetou uma complementação para o Parque do Ibirapuera) e o presidente argelino Houari Boumedienne (que inundou Argel com obras do arquiteto).

 
Nana Moraes
O arquiteto em sua prancheta: trabalho solitário numa cobertura de frente para o mar, onde também reúne amigos para longas jornadas de bate-papo

Nos últimos tempos, cismou em deixar para a posteridade as trocas de idéias que mantém com seus parceiros. Para isso, no mês passado iniciou uma troca de correspondências com o amigo Sussekind. Funcionam como um misto de memórias e observações cotidianas, sempre pontuadas pela arquitetura. É algo que Niemeyer sempre lastimou não ter feito com Joaquim Cardozo, poeta e calculista de Brasília. "Tínhamos conversas maravilhosas sobre tudo enquanto pensávamos Brasília", diz. Niemeyer escreve as cartas a mão. Depois, entrega os originais para sua secretária datilografar. Detalhista, compara com o manuscrito, assina e envia. E cobra resposta. "Cadê a carta?", perguntou quando Sussekind demorou um pouco a responder. Nas cartas, discorre sobre assuntos variados. "Da minha parte, vou tentar conter esse pessimismo que me envolve e a idade agrava. E me fazer mais ameno, certo de que a vida é rir e chorar, mas também vivê-la intensamente", propõe, num trecho de sua primeira correspondência.


Oscar e Annita Niemeyer: união de 72 anos, com roupa lavada por ela

É certo que quem nunca se emocionou com seu traço continua dando de ombros. Também é certo que reclamações contra o lado funcional de sua arquitetura ainda façam ruído aqui e ali. Não há, no entanto, como não perceber que as antigas e persistentes críticas sobre sua obra perderam o vigor de outros tempos. "Niemeyer é o mais importante arquiteto do século XX", afirma o colega paulista Ruy Otahke. Niemeyer começou a carreira numa época em que duas vertentes revolucionárias dominavam a arquitetura, no início do século passado. De um lado, a escola Bauhaus, que pregava a primazia do funcionalismo e da padronização. Do outro, havia o franco-suíço Le Corbusier, que privilegiava a beleza das formas, mas ainda se utilizava de estruturas mais pesadas, vãos curtos e a linha reta. No meio dessas duas poderosas forças surgiu Niemeyer, pregando e praticando a radicalização da beleza das formas como meta. "Eu crio surpresas", diz. Mais do que isso, ele é um dos brasileiros que ajudaram a construir a identidade nacional. Niemeyer deve concordar com isso, mas não é o caso de perguntar a ele. "Eu me reconheço como um sujeito que procura ser correto e faz o que gosta", resume, modesto. E que tem muita fome de viver e criar, poderia acrescentar. Outro dia, depois de um almoço com o irmão, Paulo Niemeyer contou ao filho: "O Oscarzinho está muito chateado, inconformado com um problema". "Qual?", perguntou o filho. "Um dia ele vai ter de morrer."

 

Com reportagem de Lucila Soares

 

   
NOTÍCIAS DIÁRIAS
Copyright 2001
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Curitiba
Veja BH | Veja Fortaleza | Veja Porto Alegre | Veja Recife
Edições especiais | Especiais on-line | Estação Veja
Arquivos | Próxima VEJA | Fale conosco

ndTemplate -->