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Com cheiro de guerra fria

China e Estados Unidos se estranham depois
de acidente com um avião espião americano

Cristiano Dias

 
AP
AFP
O EP-3E, em foto de satélite (à esq.) e com sinais de avaria no bico (à dir.)

Não há nenhuma possibilidade de uma guerra total entre Estados Unidos e China. O exército mais numeroso do planeta seria esfarinhado pelo poderio nuclear e tecnológico americano em questão de dias. Mas a trombada de um caça chinês com um avião espião americano, na semana passada, trouxe de volta um clima de Guerra Fria que não se via desde o desmoronamento da União Soviética, há uma década. O episódio teve lá sua tensão porque, afinal, foi um confronto entre o país mais poderoso do mundo e a nação que tem o potencial para, algum dia, suceder o império americano. Um avião EP-3E, jóia tecnológica da espionagem americana, foi abalroado no ar por caças chineses quando monitorava comunicações e atividades de radar numa região que muitos países do mundo consideram águas internacionais mas que é reivindicada pela China como área sob sua soberania. Um dos caças chineses caiu no mar e o piloto está desaparecido. A aeronave americana avariada fez um pouso forçado na pista de uma base militar chinesa na Ilha de Hainan e seus 24 tripulantes se tornaram hóspedes forçados da maior nação comunista do planeta.


AP
Bush: ordem para destruir todas as informações do avião


Estava armada a confusão. O avião mal desligou os motores e o presidente americano, George W. Bush, e o chinês, Jiang Zemin, trocaram exigências que nenhum dos dois parecia disposto a cumprir. Além do tradicional jogo de empurra sobre quem foi o culpado pelo acidente, Zemin exigiu um pedido de desculpa, e Bush pediu a devolução imediata do EP-3E e da tripulação. Washington alertou os chineses para ficarem longe do avião e respeitarem sua imunidade, como se o aparelho fosse uma embaixada. A China não deu bola para o alerta. "Não existe imunidade. Se eles sustentam que a aeronave é parte de seu território soberano, que expliquem como a fizeram chegar à China", disse Zhu Bangzao, o porta-voz do governo chinês. Como é comum nesses casos, os chineses passaram os últimos dias desmontando e estudando partes do avião. A Casa Branca sustenta que antes do pouso a tripulação teve tempo de destruir os principais equipamentos. Ninguém sabe o tamanho do dano para a inteligência dos Estados Unidos, já que diplomatas americanos mal conseguiram falar com os tripulantes detidos na ilha.

Desde o bombardeio por engano da sede da embaixada chinesa em Belgrado, em 1999, durante a intervenção militar americana na Iugoslávia, as relações entre Washington e Pequim nunca estiveram tão frágeis.

 

Recentemente, os chineses, chamados "parceiros estratégicos" por Bill Clinton, foram reclassificados de "competidores estratégicos" nos discursos de George W. Bush. O bombardeio da embaixada, embora tenha levantando mais a temperatura da opinião pública chinesa, foi rapidamente esquecido. Agora, ao contrário, a China quer explorar o incidente do avião espião com o objetivo de exigir contrapartidas dos americanos em outras questões. Os líderes chineses querem usar o episódio para impedir que os americanos vendam armas modernas, em especial sistemas de radares e de mísseis, para Taiwan, a ilha rebelde que a China quer trazer de volta para sua bandeira. A espionagem anda solta na região, como não se via desde os tempos em que os russos, sob o regime soviético, ofereciam real oposição armada ao poderio americano em pontos distantes do planeta. Os Estados Unidos intensificaram suas missões de espionagem nas áreas vizinhas ao território chinês, sinal entendido de que a Rússia não é mais a única preocupação militar americana. Em resposta, os chineses intensificaram o patrulhamento das águas de sua região costeira. O jogo é parecido com o travado por americanos e soviéticos durante a Guerra Fria. Mas os Estados Unidos, que não suportariam manobras chinesas nem russas perto de seu território, encaram essas missões de espionagem na casa dos outros como rotina.

Os dois países têm muito a perder com a atual crise diplomática. Na sexta-feira passada, amenizaram-se os discursos. Bush quer libertar logo os tripulantes para evitar um desgaste maior de sua administração, que enfrenta a primeira crise grave diplomática. Para os chineses, bater de frente com a nação mais rica do planeta pode ter conseqüências piores. A China quer abortar o projeto de escudo antimíssil americano, que, se for estendido a aliados como o Japão e a Coréia do Sul, causaria desequilíbrio militar na região. Ao mesmo tempo, deseja barrar as vendas de armas americanas para Taiwan, o que será votado no fim do mês pelo Congresso americano. Os americanos se recusam a discutir o incidente do avião e a questão das armas na mesma rodada de negociações. No final, o episódio do avião EP-3E vai acabar sendo lembrado apenas como uma encenação rápida dos tensos e prolongados confrontos da defunta Guerra Fria.

 

   
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