Castelo no
ar
As
opiniões a favor e contra a Alca se diluem
diante da constatação de que existem 800
dúvidas nas 900 páginas que alinhavam as
bases do acordo comercial
Denise
Ramiro
AFP
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| O
secretário americano Evans: finalmente veio o reconhecimento
de que falar em prazos agora pode ser um atropelo inútil |
A União
Européia começou vinte anos atrás liberando
o comércio entre os países do continente. Evoluiu
para uma comunidade formada entre iguais com um Parlamento europeu
e cidad&atildajam, se mudam, arrumam empregos e se aposentam
livremente no país que escolherem dentro do Mercado Comum
Europeu. Há dois anos os europeus do continente estreitaram
ainda mais suas relações com a criação
do euro, moeda única. Na semana passada, diplomatas de 34
países das três Américas reuniram-se em Buenos
Aires para mais uma sessão preparatória da Área
de Livre Comércio das Américas (Alca), que pretende
ser um bloco semelhante ao europeu. Ninguém espera que a
Alca seja uma associação idêntica à européia.
O acordo, se bem-sucedido, se limitará a eliminar as tarifas
que os países cobram no comércio de produtos entre
eles. Os objetivos da Alca são menos ambiciosos, claro. A
idéia de um continente americano sem fronteiras leva a um
cenário caótico de milhões de deserdados latino-americanos
tomando o rumo norte, em direção à riqueza
e às oportunidades do império ianque. A União
Européia pôde liberar não apenas o trânsito
livre de mercadorias, mas também o de pessoas, porque juntou
países muito parecidos entre si. Em termos de renda, cultura,
mentalidade e burocracia, eram todos mais ou menos equiparados.
O acordo das Américas enfrenta uma realidade oposta. Terá
de harmonizar países tão díspares como El Salvador
e o Suriname, Canadá e Paraguai ou Estados Unidos e Jamaica.
A
caminhada está difícil. O documento oficial sobre
a criação da Alca tem 900 páginas e 800 pontos
sobre os quais nenhum dos países envolvidos está de
acordo. O acordo demanda um monumental esforço diplomático.
O caminho rumo à Alca tem quase uma pedra por página
do tratado original. "Estranho muito quando vejo pessoas se posicionando
contra ou a favor da Alca ou discutindo a data de sua entrada em
funcionamento, pois não há o menor consenso sobre
o que ela será", diz Sylvia Ostry, estudiosa do Centro de
Estudos Internacionais da Universidade de Toronto, no Canadá,
uma das maiores conhecedoras dos escaninhos mais recônditos
do acordo que anda sendo cozido em banho-maria, muito por falta
de empenho do Brasil. Fora os Estados Unidos, que sabem bem o que
querem, os demais países das três Américas vivem
atolados em dúvidas sobre os benefícios do acordo.
Em
linhas gerais, a Alca é uma ampliação do Nafta,
o bloco de comércio que une Estados Unidos, Canadá
e México, mas tudo está ainda para ser feito. Os Estados
Unidos começaram a se movimentar em 1994, quando se aliaram
ao Canadá e ao México. A experiência foi muito
bem-sucedida, especialmente para os sócios menores. Graças
ao acesso ao mercado americano, o México saltou de uma posição
inexpressiva para o oitavo posto entre as grandes economias exportadoras
do mundo. O Canadá também virou tigre. Seis anos depois
de entrar para o Nafta, 46% do PIB canadense vem de suas exportações.
Oito de cada 10 dólares originários de suas vendas
externas chegam dos Estados Unidos. Os americanos propagam nas Américas
a idéia de que a Alca seria um grande Nafta. É aí
que moram as dúvidas. Outros países não têm
tão claras as vantagens ou desvantagens do acordo.
Há
muito para discutir. Em primeiro lugar, Brasil, Argentina, Uruguai
e Paraguai precisam se entender sobre o que querem de seu acordo
local, o Mercosul. Com as agruras atuais da economia argentina,
o acordo do Cone Sul nunca esteve tão ameaçado. Na
reunião da semana passada, em Buenos Aires, economistas e
altos funcionários argentinos sondavam a hipótese
de cada país integrante do Mercosul discutir em separado
com os Estados Unidos. Talvez seja essa a saída. A legislação
comercial americana é cheia de sutilezas. Com um déficit
comercial que caminha para os 400 bilhões de dólares
neste ano, os Estados Unidos são a economia mais aberta do
planeta. Quando se comparam as tarifas médias de importação
os americanos são a expressão mais acabada do livre
comércio. Os produtos importados pagam em média 4%
para entrar no mercado americano. Mas, quando se examina especificamente
a pauta brasileira de produtos comprados pelos Estados Unidos, a
tarifa salta para 45%. E incidem sobre eles as famosas barreiras
não tarifárias. Segundo a Confederação
Nacional da Indústria (CNI), seis em cada dez produtos brasileiros
vendidos nos Estados Unidos sofrem esse tipo de discriminação,
que os torna mais caros e, portanto, menos competitivos.
Para
que a Alca funcione, os americanos admitem baixar ainda mais os
impostos de importação, mas não querem discutir
a eliminação das centenas de barreiras não
tarifárias que impõem a seus parceiros comerciais.
"Os americanos terão de ser mais maleáveis, aceitar
a idéia de viver em uma sociedade continental. Os latino-americanos
não poderão ser seus súditos na Alca", diz
Luiz Olavo Baptista, especialista em direito internacional da Faculdade
de Direito da Universidade de São Paulo. Talvez a idéia
de negociar separadamente, proposta por Domingo Cavallo, ministro
da Economia da Argentina (veja
a entrevista), seja mesmo boa. Para os países
menores, uma pequena concessão dos Estados Unidos pode representar
um ganho imenso na balança comercial. Os maiores, como Brasil
e Argentina, precisam de muito mais. "O que interessa aos americanos
é o mercado brasileiro. O país precisa tomar consciência
de seu poder no jogo das Américas", diz Gilberto Dupas, coordenador
da área de assuntos internacionais do Instituto de Estudos
Avançados da Universidade de São Paulo. Na semana
passada, na reunião de Buenos Aires, pela primeira vez os
americanos deram sinais de que começam a entender a complexidade
do edifício da Alca, como reconheceu o secretário
de Comércio dos Estados Unidos, Donald Evans: "A tarefa talvez
se estenda além de todos os prazos previstos".
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