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"CONSEGUI
FALAR COM O BENIVALDO"
No
diálogo abaixo, capturado pela escuta da Polícia
Federal, mostra-se que um dos maiores fraudadores da Sudam,
o empresário Geraldo Pinto da Silva, cujo escritório
arrancou mais de 44 milhões de reais da autarquia nos
últimos quatro anos, tem contatos em altas esferas
em Brasília. Na conversa, fica claro que Pinto da Silva
fala com freqüência com Benivaldo Alves de Azevedo,
que vem a ser o secretário executivo do Ministério
da Integração Nacional. Este diálogo
foi captado por uma escuta que começou a ser feita
pela Polícia Federal em 29 de novembro do ano passado.
Aqui, Geraldo Pinto da Silva fala com o empresário
José Soares. Soares é um dos irmãos Soares,
aliados políticos do senador Jader Barbalho no Pará,
que têm doze empresas financiadas pela Sudam. Na conversa,
percebe-se que a apuração sobre os contratos
da Sudam, ordenada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso,
pode resultar em problema para Pinto da Silva e Soares. Logo
no início, porém, fica claro que Pinto da Silva
tem acesso direto ao secretário executivo do Ministério
da Integração Nacional, Benivaldo Alves de Azevedo.
O secretário executivo chega ao ponto de contar para
Pinto da Silva sobre as instruções do presidente
Fernando Henrique quanto às investigações
na Sudam. Eis o trecho transcrito pela Polícia Federal:
Soares
Parou tudo lá?
Pinto
da Silva Não. Ontem eu falei em Brasília.
Estava meio agitado lá, mas eu consegui falar com o
Benivaldo, que é secretário do ministro. Ele
me disse que a orientação do presidente da República
é para apurar aquelas empresas que o ACM tem em mãos
(o senador Antonio Carlos Magalhães acabara de denunciar
irregularidades em várias empresas com negócios
na Sudam). A possibilidade de CPI é zero. Agora
ele quer que apure aquelas empresas e que puna aquelas empresas
e que não vai parar, e quem é empresário
sério e não tem envolvimento com falcatrua os
projetos vão continuar normalmente. Agora hoje eu vou
ter em mãos a relação das 35 empresas
que ele acusa.
Soares
Eu acho que a nossa não tem nada no meio,
né?
Pinto
da Silva Tem não. Noventa por cento da
relação é projeto velho, projeto de vinte
anos. Agora, tem alguma empresa sua com a Auxiliadora?
(Refere-se aos projetos intermediados por Maria Auxiliadora
Barra Martins, que trabalhou quinze anos na Sudam e hoje é
dona de um escritório que apresenta projetos para pegar
recursos da Sudam.)
Soares
Tem a Frango Modelo e a Beira da Mata.
Pinto
da Silva Então as duas vão ser
investigadas.
Soares
Você acha?
Pinto
da Silva Acho, não. Já foi determinação
lá na Sudam.
Soares
Então vai pegar quase todo mundo...
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"PRECISANDO
FALAR COM O MINISTRO"
Nesta
fita, que começou a captar conversas em 19 de fevereiro
passado, ouve-se um diálogo de Geraldo Pinto da Silva
com um interlocutor não identificado. Na conversa,
Pinto da Silva conta que precisa resolver pendências
de quatro empresas, entre elas a Indústria de Biscoitos
Ouro Branco, de Macapá, que pertence à família
Soares, aliada política do senador Jader Barbalho no
Pará. No início do diálogo, Pinto da
Silva diz a seu interlocutor que, para resolver o problema,
precisa falar diretamente com o ministro Fernando Bezerra,
da Integração Nacional. Ao final da conversa,
Pinto da Silva sugere que, em vez disso, poderia falar com
o secretário do ministro que se encarregaria
de tratar do assunto com Bezerra. No inquérito, o agente
da Polícia Federal não fez a transcrição
literal dos diálogos. Limitou-se a narrar o que se
ouve na fita em ordem indireta, identificando o interlocutor
de Pinto da Silva pela sigla HNI, de "homem não identificado":
"Geraldo
(Pinto da Silva) diz que precisa falar com o ministro
hoje, quinta-feira, para saber qual é o tratamento
que será dado a esta situação. Geraldo
diz que tem quatro empresas que vão ter que resolver
o problema delas, inclusive a Ouro Branco. Geraldo diz que
o problema da Ouro Branco é que não está
comprovado na contabilidade que o recurso próprio está
feito. Geraldo afirma que depositaram o dinheiro, depois adiantaram
o dinheiro para comprar equipamentos, mas o equipamento ainda
não veio. Então, precisam achar uma solução
para isso.
HNI
diz que não existe a contrapartida da Ouro Branco.
Geraldo
fala que a financeira existe. Não existe a física,
porque o dinheiro foi pago para a empresa que está
industrializando o equipamento, e a empresa pediu seis meses
de prazo para poder entregar.
Geraldo
fala que o recurso próprio foi aplicado em equipamento.
Aí, para resolver o problema, Geraldo pede que HNI
fale com o secretário à noite.
HNI
diz: 'Posso estar com ele a hora que precisar'.
Geraldo
diz que HNI deve se encontrar com o secretário e, de
lá, ligar para ele, Geraldo, que explicaria para o
secretário para que ele ligasse para o ministro."
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"JADER
COMANDA OS SEUS E O MINISTRO, OS DELE"
Joedson Alves/AE
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JADER
BARBALHO
No grampo da PF, em nenhum momento a voz do senador foi
captada. Mas os fraudadores dizem que sua eleição para
presidir o Senado "foi boa" para eles |
A
conversa a seguir foi captada por uma fita que começou
a rodar em 27 de novembro do ano passado. Aqui, Geraldo Pinto
da Silva, um dos maiores fraudadores da Sudam, conversa com
Paulo Roberto da Costa Nery, um dos diretores do órgão
em Belém. Paulo Nery é apontado no inquérito
da PF como um dos funcionários mais envolvidos com
a máfia da corrupção na autarquia. No
início, eles falam sobre liberação de
recursos na Sudam e, em seguida, comentam sobre como ficou
a autarquia com as mudanças na superintendência,
enfatizando que, a partir de então, o ministro Fernando
Bezerra controla seus indicados e o senador Jader Barbalho
controla os seus: "Então hoje vai ficar dividido assim:
o Jader vai comandar os seus e o ministro vai comandar os
dele", diz Pinto da Silva.
Pinto
da Silva Você começou a fazer aquele
levantamento?
Paulo
Nery Comecei.
Pinto
da Silva Você me mandou aquela outra liberação,
mas eu estou em dúvida se foi 30 000 ou 35 000...
Paulo
Nery Foi 35 000 em junho.
Pinto
da Silva Depois você me mandou mais 20
000, depois 1 200, que usei para pagar o negócio do
Ibama lá em Mato Grosso.
A
partir deste ponto, o agente da Polícia Federal deixa
de fazer a transcrição do diálogo e passa
a narrar o que se ouve na fita. Eis o que o policial redigiu:
Geraldo
(Pinto da Silva) comenta que estão ocorrendo
mudanças e que o caminho que ele, Geraldo, tem não
é o pessoal de Belém. É o pessoal de
Brasília e é "pessoal forte".
Diz
Geraldo: "Só que eles comandam, né? Não
são ligados ao pessoal do ministro. Só que eles
comandam. Sabem a hora de atacar e a hora que não devem
atacar. E eles, desde quando o ministro Fernando Bezerra entrou,
que ele, Jader Barbalho, está tentando fazer modificações
na Sudam. Primeiro, o Tourinho travou (José Artur
Guedes Tourinho, superintendente da Sudam de 1996 a 1999,
por indicação de Jader Barbalho. Foi afastado
do cargo por suspeitas de corrupção), depois
entrou o que saiu (Maurício Benedito Vasconcelos,
que ficou no cargo menos de um ano), mas não teve
tempo e agora entrou um superintendente que é dele
(Hugo de Almeida, afastado do comando da Sudam há
um mês). A indicação é do Fernando
Bezerra, apoiado pelo Jader, porque ele não vai indicar
uma pessoa que o Jader não queira. Então hoje
vai ficar dividido assim: o Jader vai comandar os seus e o
ministro vai comandar os dele. Só que com aquele pessoal
que tinha lá por baixo era impossível. Por exemplo,
o doutor Honorato era uma pessoa que tinha mania de conduta
e que não volta atrás. Inclusive vai ser substituído
pelo doutor Camilo. Então, a partir do primeiro dia,
as coisas mudam e volta a ser tudo como era antes..."
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"UMA
PARTE DO DINHEIRO É PARA CAMPANHA"
Nesta
fita, reproduz-se um diálogo entre Romildo Soares,
um dos irmãos Soares, aliados políticos do senador
Jader Barbalho no Pará, e Benjamim Bispo da Costa,
encarregado de administrar os três projetos que Romildo
Soares mantém em Paraíso do Tocantins, a 76
quilômetros da capital, Palmas. Os projetos de Romildo
Soares são, todos, financiados pela Sudam. A conversa
sugere que parte do dinheiro desviado da Sudam acaba azeitando
o caixa das campanhas no Pará. Romildo Soares, assim
como seus irmãos e o próprio senador Jader Barbalho,
apoiou abertamente a candidatura vitoriosa de Domingos Juvenil
à prefeitura de Altamira na última eleição
municipal. A transcrição da PF:
Benjamim
O senhor tem alguma idéia aí de quando,
mais ou menos, ou não? Tem nada, né?
Romildo
O quê?
Benjamim
Da liberação (refere-se à
liberação de parcelas de recursos da Sudam).
Romildo
Não. O negócio é o seguinte.
Esse dinheiro tem que sair antes da campanha porque uma parte
dele eu arrumei para a campanha, entendeu? Um pouquinho eu
arrumei para a campanha. Então, é certeza de
que, se chegar esse documento (propina) lá hoje,
é certeza que até terça-feira nós
libera...
Obs.:
É na própria transcrição, feita
pela Polícia Federal, que a palavra propina aparece
entre parênteses depois da palavra documento. Segundo
agentes da PF que ouviram as fitas, três indícios
levaram a essa conclusão: a palavra documento aparece
normalmente associada a valores; numa das conversas se pede
que o documento seja enviado por DOC, um tipo de operação
bancária; e quase sempre os interlocutores mudam a
entonação da voz quando pronunciam a palavra
documento, como que para frisar ao ouvinte o significado oculto
da expressão.
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UM
CRIME SEM CULPADO...
A experiência brasileira mostra que não é
incomum acobertar processos ou investigações
que envolvam altas autoridades. Na semana passada, essa situação
se repetiu. O promotor de Justiça José Vicente
Miranda, do Ministério Público do Estado do
Pará, decidiu arquivar os nove volumes de um processo
que chegou a suas mãos há duas semanas. O processo
foi enviado pelo Banco Central e descreve como o hoje presidente
do Congresso, senador Jader Barbalho, desviou cerca de 10
milhões de reais das contas do Banco do Pará,
o Banpará, para sua conta pessoal e de seus familiares,
nos meses finais de 1984, quando era governador do Estado.
Os argumentos que o promotor usou para justificar sua atitude
são um espanto jurídico. Primeiro, disse que
o relatório do Banco Central descrevia o crime, mas
não trazia prova suficiente para incriminar o culpado
ou seja, Jader Barbalho. Depois, alegou que, mesmo
que o culpado fosse expressamente identificado, o crime (no
caso, apropriação indébita e peculato)
já prescrevera. Em outras palavras, o promotor escreveu:
há crime, mas não há culpado, e, se culpado
não há, não há como puni-lo.
Para chegar a essa conclusão, o promotor fez questão
de inverter as funções. Em seu despacho, queria
que o Banco Central tivesse reunido provas suficientes para
incriminar o culpado. Mas o Banco Central não é
polícia. Em suas apurações, sempre que
encontra um indício de crime, cabe ao Banco Central
comunicar ao Ministério Público e é
ao Ministério Público que cabe aprofundar as
investigações. Aliás, o processo do Banco
Central fazia essa recomendação ao Ministério
Público: aprofundar as investigações.
Estranhamente, enquanto esperava a papelada do BC, Vicente
Miranda mostrou-se ansioso para arregaçar as mangas
e trabalhar. "Precisamos recuperar os documentos para apurar
as responsabilidades", chegou a dizer numa entrevista, no
início de março, enquanto aguardava a chegada
do processo. Por alguma razão, mudou de humores no
meio do caminho e acabou abrindo mão de uma prerrogativa.
O outro aspecto é que, de fato, os crimes prescreveram
mas isso não dispensa uma apuração.
"O correto no caso é abrir investigação,
sim", diz o procurador Artur Gueiros, do Rio de Janeiro. Isso
porque, mesmo com a prescrição do crime, os
culpados podem ser acionados para ressarcir os cofres públicos,
pois o ressarcimento, segundo alguns especialistas, nunca
prescreve e, segundo outros, só o faz em vinte
anos. O promotor Vicente Miranda também ignorou isso.
Por quê? Ele não quis dar explicações
de sua decisão de mandar arquivar tudo. Em Belém,
entregou seu despacho aos jornalistas e nada falou. No dia
seguinte, para fugir do assédio da imprensa, nem foi
trabalhar. O promotor deixou uma curiosidade final no ar.
O relatório que o BC lhe mandou se foi remetido
na íntegra, como o BC garante ter feito continha
uma peça escrita pelo inspetor Abrahão Patruni
Junior. Nesse parecer, Patruni aponta, sim, os beneficiários
dos desvios de 10 milhões de reais. E eles são
Jader Barbalho e familiares.
Ana
d'Angelo, de Brasília
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