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Em setembro do ano passado, um grupo de agentes da Polícia Federal começou, discretamente, a instalar escuta em dezoito linhas telefônicas. O grampo, autorizado pela Justiça, espalhou-se por quatro Estados. Todos os telefones tinham um dado em comum: eram usados por pessoas que trabalhavam ou mantinham negócios na Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia, a Sudam. As escutas telefônicas estão em atividade desde então e até a semana passada já haviam captado 369 diálogos de cerca de trinta interlocutores. As conversas estão reunidas num inquérito de 5.000 páginas, ao qual VEJA teve acesso. Trata-se de um material monumental, tanto pelo volume quanto pelo conteúdo. A leitura é uma viagem, sempre repugnante mas às vezes até cômica, pelo coração de um portentoso esquema de corrupção que já sangrou os cofres públicos em pelo menos 360 milhões de reais e estava planejado para, com o passar do tempo, alcançar a assombrosa cifra de 1,5 bilhão de reais algo tão robusto que só encontra paralelo, em termos de dinheiro, em grandes golpes da História. A investigação começou há dois anos a partir de uma suspeita miúda. Em Paraíso do Tocantins, cidadezinha a 76 quilômetros de Palmas, capital do Estado, um ilustre desconhecido abriu três empresas que, mais tarde, iriam arrancar 14,2 milhões de reais da Sudam. Mas um dado chamou a atenção do Ministério Público: o desconhecido usava documentos falsos, abrira as três empresas num único dia e seus "donos" eram humildes balconistas de uma distribuidora de bebidas. Aos poucos, o trabalho de investigação foi crescendo como fermento, incluindo novos personagens e novas suspeitas, desvendando grandes e pequenos trambiques. Reuniram-se tantos indícios de fraudes que a Justiça autorizou a gigantesca operação de escuta em dezoito telefones, a qual produziu um retrato espantoso dos desvios milionários na Sudam. As transcrições das 369 conversas exibem todo o arsenal da corrupção: suborno, propina, saques. E, junto a esse emaranhado de falcatruas, emergem as silhuetas de um ministro, um secretário, um senador e um deputado. Uns, com a mão na massa. Outros, perigosamente próximos de quem só se preocupa em saquear os cofres da Sudam.
O fio que liga as autoridades ao escândalo da Sudam é
um único personagem. Chama-se Geraldo Pinto da Silva, 46
anos, casado, três filhos. Rico, dono de imóveis em
Belém, Goiânia e no Rio de Janeiro, Pinto da Silva
tem uma empresa, a GPS & Companhia Ltda., com sede em Belém
onde fica, também, a sede da Sudam. Sua firma é
especializada em abrir empresas, forjar projetos para a superintendência
e conseguir dinheiro da autarquia, aproveitando-se do fato de que
a Sudam tem como missão financiar projetos empresariais que
ajudem a desenvolver a economia do Norte do Brasil. Nos últimos
quatro anos, Pinto da Silva criou dezoito empresas para apresentar
projetos à Sudam que, juntos, somam 209 milhões de
reais. Até agora, conseguiu liberar 44,6 milhões de
reais. O grampo da PF monitorou vários telefones do fraudador
da casa, do escritório. Monitorou até seu celular
pré-pago, que Pinto da Silva, segundo confessa numa conversa,
imaginava imune à escuta. Com isso, a PF descobriu que Pinto
da Silva suborna funcionários da Sudam, preocupa-se com o
avanço de investigações, tranqüiliza comparsas
dizendo que "tudo vai voltar a ser como era antes" e compra notas
frias para justificar investimentos inexistentes.
Nas fitas da PF, não se captou um único diálogo com as vozes do ministro Fernando Bezerra, do secretário Benivaldo de Azevedo, do senador Jader Barbalho ou do deputado José Priante. Seus nomes aparecem, sempre, na boca de fraudadores da Sudam, em especial na de Pinto da Silva. Pode-se argüir que um fraudador precisa mostrar poder e influência e, para isso, lança mão de nomes de autoridades que talvez nem conheça pessoalmente. É uma hipótese, mas não parece a mais provável. Segundo pessoas que estiveram envolvidas com a investigação da máfia, o contexto em que Pinto da Silva fala das autoridades não dá a impressão de uma bravata. Ele não se vangloria de ter acesso a elas. Apenas narra providências objetivas, resultados concretos, menciona fatos ocorridos. Além disso, em muitas conversas, avisa seu interlocutor de que não pode dar detalhes por telefone. Isso talvez explique a ausência de conversas ainda mais explícitas. Mostra, também, que o fraudador temia um grampo. Consultado por VEJA na semana passada, o secretário Benivaldo de Azevedo admitiu que conhece Pinto da Silva. Na segunda-feira passada, almoçaram juntos numa churrascaria em Brasília. Trocaram idéias por uma hora e meia. "Ele queria dar uma colaboração para aprimorar e agilizar o desempenho da Sudam", conta Benivaldo. É admissível que o secretário do ministério responsável pela Sudam receba um empresário que tem negócios na autarquia, desde que não conheça seu currículo pesado. O almoço da semana passada foi agendado por um velho amigo comum, o empresário Sérgio Dib, que atua no ramo de fast food em São Paulo. Dib conhece os rolos de Pinto da Silva, como prova uma conversa registrada numa fita da Polícia Federal de 19 de março passado. É possível que Dib tenha usado sua ascendência sobre o secretário para levá-lo à mesa com Pinto da Silva. Nesse caso, o pecado do secretário terá sido o da ingenuidade. Mas se trata de uma característica rara em quem, como o secretário, tem tanta experiência em negócios públicos. Benivaldo Alves de Azevedo, 60 anos, começou na vida pública com 18 anos. Era chefe de gabinete do prefeito de Natal. Aos 24, foi secretário de Planejamento do Rio Grande do Norte. Aos 26, secretário de Finanças da prefeitura de Natal. De lá para cá, criou uma estatal de fomento, que virou o Banco de Desenvolvimento do Rio Grande do Norte, foi durante anos consultor na iniciativa privada, voltou a ser secretário de Estado, foi diretor de estatal no Rio de Janeiro e já se ocupou como assessor especial de um governador de Estado no caso, Geraldo Melo, o usineiro que comandou o Rio Grande do Norte de 1987 a 1991 , período em que, embora empregado no Estado, prestava consultoria para as empresas do amigo e hoje ministro Fernando Bezerra. Sua relação com o ministro é de décadas. Jovens, já pulavam juntos o Carnaval em Natal. Há dez anos trabalham lado a lado. Primeiro, na Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte, e, depois, na Confederação Nacional da Indústria, da qual Bezerra foi presidente. Agora, no ministério. Procurado por VEJA, o ministro Fernando Bezerra disse que jamais conheceu o fraudador Pinto da Silva e lamentou: "Meu Deus, esse ministério está virando o Ministério de Pepinos Nacionais. Essa Sudam é uma podridão. Escapa muito pouca coisa". Bezerra conta que, depois de tentar dois secretários executivos que não deram certo, resolveu optar por um velho amigo Benivaldo de Azevedo, que assumiu a função em dezembro do ano passado. "Ele é meu amigo, mas, se tiver feito alguma coisa errada, deve pagar por isso", disse o ministro, na sexta-feira passada. Mesmo na dúvida, tomou a dianteira: demitiu seu secretário no dia anterior, quinta-feira, depois de saber que VEJA falara com Benivaldo de Azevedo sobre as suspeitas que pesam contra ele. "Na verdade, eu ia demiti-lo nesta segunda, mas, já que vocês estão com essa reportagem, por que não antecipar?", explica o ministro. O senador Jader Barbalho, também consultado por VEJA, mandou dizer que não sabe de nada e não conhece nenhum dos envolvidos. Seu primo, o deputado José Priante, garantiu, por sua vez, que não conhece nem nunca ouviu falar de Pinto da Silva e seus negócios com a Sudam. "Mas, como sou político, posso ter falado com ele alguma vez e não estar lembrado disso", diz Priante.
Irmãos Barra As evidências reunidas pela
Polícia Federal sobre as fraudes na Sudam são de tal
magnitude que não seria surpreendente que uma parte da máfia
comece a receber visitas de policiais. A investigação
pretende estourar de vez o esquema de corrupção na
Sudam, pelo menos esse que orbita em torno de Pinto da Silva e aliados.
Tanto no grampo como em investigações de outra natureza,
descobriu-se a gama de recursos que os fraudadores usam. Uma das
empresas, a Café Dunosso Agroindustrial, tendo de justificar
os 2,7 milhões de reais que recebeu da Sudam, chegou a informar
que contratara uma mercearia para a construção de
10 quilômetros de estrada, dois poços artesianos e
uma caixa-d'água. Isso mesmo: mercearia. Outra empresa do
Pará, Diana Agroindustrial, que dizia pretender cultivar
e industrializar polpas de cupuaçu e açaí,
teve o descaramento de apresentar uma nota fiscal registrando o
pagamento de apenas 37.000 reais pela construção de
70 quilômetros de estradas. A desfaçatez é tanta
que, no grampo da PF, um funcionário dos escritórios
de intermediação explica a seu cliente que as notas
"têm de ter uma coerência, não podem abusar do
preço e também não podem ser metade do valor
(de mercado)".
O escritório de Maria Auxiliadora é uma usina de fraudes. Dos seus 68 projetos, 24 foram investigados pelo Ministério da Integração Nacional cujo relatório, lembre-se, foi parcialmente contaminado devido ao pagamento de propina a fiscais. Ainda assim, só dois projetos do AME foram considerados regulares. Os demais eram um tal festival de fraudes que a auditoria decidiu até pedir o descredenciamento da empresa de Auxiliadora na Sudam. O que resolveu fazer Maria Auxiliadora? Trocou o nome do AME para Amazon Consultoria. Também mudou de endereço. Desde o início do ano, seu escritório está funcionando na Travessa Curuzu, número 1941, em Belém do Pará. Por uma tremenda coincidência, esse prédio pertencia, até três anos atrás, ao senador Jader Barbalho.
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