Por
que roubamos tanto?
Ilustração Pepe Casals
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Durante os treinos para a corrida de Fórmula 1 em Interlagos,
integrantes das escuderias Minardi e Williams foram assaltados
por homens armados. Antes disso, já haviam sido roubados
os computadores do box da Jaguar e oito rodas da mesma Minardi.
Difícil saber o que os ladrões pretendem fazer
com oito rodas de Fórmula 1. Não podem ser instaladas
numa Brasília de 1974. Eu tinha um tio que roubava
peças da loja de geladeiras em que trabalhava. As peças
não serviam para nada. Ele roubava por roubar. O piloto
brasileiro Luciano Burti, contrariado com o roubo em Interlagos,
declarou: "Tudo isso me deixa com muita vergonha. É
essa a imagem que as pessoas vão levar daqui". O presidente
Fernando Henrique Cardoso certamente concordaria. Sempre que
ocorre uma rebelião num presídio e morre um
montão de gente, sua primeira preocupação
é com a imagem do Brasil no exterior. Que imagem é
essa? De um país de bandidos? E não é
a mais pura verdade?
Eu gostaria que alguém me explicasse por que roubamos
tanto. Você aí, que não tem o que fazer,
escreva para mim. Diga-me de onde vem essa nossa cleptomania.
Não vale dizer que no Brasil há injustiça
social, porque o mundo inteiro é injusto e ninguém
rouba como nós. Também é fácil
demais jogar toda a culpa em políticos, juízes
ou delegados de polícia, dizendo que o exemplo vem
de cima. Tem razão: eles roubam. Mas já roubavam
antes de se tornar políticos, juízes ou delegados
de polícia. Nosso problema é mais profundo.
Ignoramos completamente o conceito de propriedade privada.
A coisa não entra na nossa cabeça. Nesse aspecto,
o Brasil está pronto para implementar um regime socialista
e virar uma gigantesca Coréia do Norte, com desapropriações
em massa. A única pena é que, no exato instante
em que eu fazia essas considerações revolucionárias,
Lula traiu-me duas vezes seguidas, renunciando ao socialismo
e reclamando, como qualquer motorista de táxi, da
falta de segurança em nossas cidades.
Não sei ao certo, mas suspeito que a desenvoltura
com que nos apossamos de bens alheios tem raízes
históricas e antropológicas. Os primeiros
portugueses que Pedro Álvares Cabral mandou desembarcar
no Brasil tinham pendências com a Justiça,
uma espécie de prenúncio do que aconteceria
nos cinco séculos sucessivos. Por outro lado, os
negros que vieram para cá foram marcados pela violência
da escravidão. Se um ser humano podia ser arrancado
de sua aldeia africana e vendido no Brasil por uma ninharia,
o que dizer de um simples toca-fitas? Quanto aos índios,
sabemos perfeitamente que eles nunca tiveram a menor idéia
do que fosse propriedade privada. Quando precisavam de algo,
iam lá e pegavam. Esse negócio de extrativismo
teve uma série de implicações no nosso
dia-a-dia. Um trombadinha da Praça da Sé bate
uma carteira exatamente como um índio catava uma
pitanga no mato. Dizem que, em compensação,
os índios ensinaram aos portugueses a higiene pessoal.
Nem isso me convence, porém. Os índios não
tomavam banho por higiene, mas apenas para espantar o calor
e os mosquitos. Se os índios fossem mesmo maníacos
por higiene, teriam inventado o cotonete e o fio dental.
Mas resta a pergunta: por que roubamos tanto?