Receita
para desconcentrar
a renda
André Valentim
 |
| Investir
em educação proporciona os melhores resultados |
Entre
todas as distorções da sociedade brasileira,
a mais resistente no tempo e no espaço é a
concentração da riqueza nas mãos de
poucas pessoas. Um estudo do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE), divulgado na semana passada,
reafirma essa noção. O trabalho mostra que
de 1992 a 1999 a expectativa de vida, a escolaridade, a
mortalidade infantil e quase todos os outros indicadores
sociais do país melhoraram, com exceção
da distribuição de renda. Nesse particular,
o país ficou um pouco pior. Os 10% mais ricos, que
detinham 45,8% da renda nacional, passaram a possuir 47,4%.
É um dos piores desempenhos internacionais do Brasil.
Nesse quesito perdemos até para os vizinhos mais
pobres da América Latina.
A concentração de renda é um mal resistente,
daqueles que misturam razões culturais, geográficas,
étnicas e políticas. Suas raízes são
profundas e remontam às iniqüidades do Brasil
colonial, à escravidão, à falta de
planejamento e ao mau funcionamento dos serviços
públicos, que deixaram suas marcas na História
brasileira. A constatação do novo estudo do
IBGE mostra quanto essa distorção é
resistente. Ela não se alterou nem com o crescimento
da renda dos pobres, pois os ricos se distanciaram ainda
mais. Não se alterou com os efeitos distributivos
da estabilização da moeda e o fim da inflação
trazido pelo Plano Real, que reconhecidamente foi um dos
processos mais desconcentradores de renda do capitalismo.
O Brasil ficou moderno demais para conviver com a injustiça.
A melhora geral do país nos outros quesitos mostra
que a questão da concentração de renda
chegou a um ponto em que, pela primeira vez na História
do Brasil, pode ser atacada com chance de sucesso. Os especialistas
dizem que uma das saídas é justamente progredir
no campo social. Entre as outras saídas que funcionaram
em nações como a Coréia do Sul, o Japão
e a Itália, o investimento maciço em educação
é a que dá resultados mais duradouros, mesmo
que a longo prazo. Essencial também é cobrar
menos impostos e gastar melhor. Os países mais bem-sucedidos
na distribuição de renda foram também
aqueles que diminuíram o tamanho do Estado, estabilizaram
seus gastos e puderam dessa forma induzir um crescimento
mais sadio e justo da economia. A receita está aí.
É hora de usá-la. Veja
reportagem.