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Está na moda bater em Bill Gates, o bilionário dos programas de computador. Com seu jeito de magnata que tenta parecer um ser normal e iniciativas estranhas como divulgar passo a passo a construção de sua mansão high tech à beira de um lago no Estado de Washington, ele angariou uma divertida antipatia mundial. Na Internet, até já existe um site em que a brincadeira é atirar bolos virtuais na testa do homem mais rico do mundo (o endereço é www.uol.com.br/jogos/bill.htm). Em fevereiro, o belga Noel Gondin teve oportunidade de fazê-lo em pessoa, espatifando uma torta de creme no dono da Microsoft quando este entrava num encontro com políticos e empresários em Bruxelas. Para completar, Gates está sofrendo o maior ataque do governo americano desde que começaram a levantar-se contra ele, em 1995, as acusações de que estaria a caminho de ter o monopólio mundial dos programas de computador. Na época, a secretária de Justiça americana, Janet Reno, abriu processo contra a Microsoft, com base na lei americana antitruste, que promete chegar em breve ao seu desfecho. Na última terça-feira, Gates compareceu a uma audiência da Comissão de Justiça do Senado para discutir o assunto. Estavam lá todos os seus desafetos, incluindo seus maiores concorrentes, o presidente da Sun Microsystems, Scott McNealy, e o da Netscape, Jim Barksdale. "A Microsoft impõe suas próprias leis de mercado", acusou o presidente da Sun, entre outras tortas verbais.
O curioso do debate é que todos incluindo os adversários de Gates concordam em uma coisa: ninguém deseja novas leis regulando a indústria da computação. O problema é deter o avanço de Gates sobre o mercado mais promissor do planeta. Hoje existem 45 milhões de pessoas ligadas à rede e estima-se que em 2001 serão 268 milhões. A questão ganha proporções políticas ao se considerar que os programas de computador têm papel estratégico no mundo contemporâneo, da mesma forma que o petróleo o teve na era industrial. O medo é que Gates se torne para o planeta do futuro o mesmo que a Opep se tornou na crise do petróleo, em meados dos anos 70. Por seu lado, o multibilionário defende-se com o princípio do livre mercado e na semana passada ainda se arvorou na sua condição de inventor do progresso. "O controle do governo só irá reduzir nossa capacidade de criação e impedir o surgimento de novas tecnologias", disse ele diante de seus acusadores na comissão do Senado.
Gates está habituado à animosidade de seus competidores. Ele já enfrentou algo parecido quando a Apple, dona dos computadores Macintosh, o acusou de copiar seu sistema ao lançar o Windows. O homem da Microsoft conseguiu vencer o caso com certa facilidade. No ano passado, para angústia dos apaixonados pela Apple, socorreu pessoalmente a empresa, que entrou em dificuldades financeiras, com uma injeção de 150 milhões de dólares. Mais uma vez, pouca gente acreditou no seu espírito benemérito. O mercado entendeu que o motivo real dessa ação com os antigos inimigos era manter vivo, talvez, seu único real concorrente sem a Apple, as acusações de monopólio ganhariam peso ainda maior. Quando o Windows foi lançado, existiam algumas dezenas de sistemas operacionais e atualmente o único de peso que resta entre a concorrência é o que está nos computadores Macintosh. O problema da criação de um novo sistema capaz de concorrer com o Windows é o preço. Ao desenvolvê-lo, a Microsoft já consumiu 5 bilhões de dólares. Para produzir algo diferente, seria preciso desembolsar pelo menos 3 bilhões. A Sun tem a linguagem Java, um meio de facilitar o uso da Internet a partir de outros programas instalados no computador e vice-versa, que poderia ser um empecilho para os planos da Microsoft no seu projeto de aumentar a participação em programas de acesso à rede virtual. A vantagem da linguagem Java é ser universal, podendo ser usada tanto com o Windows quanto com programas como o Unix. O fato, contudo, é que a Java até agora não se popularizou quanto poderia.
Truque sujo Ainda medidos em bilhões, os negócios que giram em torno da Internet deverão multiplicar-se para a casa do trilhão até o ano 2006, pelas estimativas mais modestas. Bill Gates declara que nem sequer tem certeza de que sua empresa estará viva até lá. "Não estamos na situação de outras indústrias bem-sucedidas que sabem que continuarão bem-sucedidas", disse à revista americana Newsweek. "Nosso futuro é muito incerto." No entanto, falando-se de futuro, tudo parece indicar que Gates estará lá e bem na frente de todos os outros. Em apenas vinte anos, ele construiu uma companhia avaliada nas bolsas americanas em 200 bilhões de dólares. Sua própria fortuna pessoal é estimada em 40 bilhões. Já seria muito, se não houvesse espaço para crescer mais. A ponta de lança da Microsoft nessa cruzada é ligar definitivamente o programa Windows ao Explorer, facilitando a passagem do usuário do Windows para a Internet e vice-versa. "Nossa batalha obsessiva hoje é pela simplificação", diz Gates. Seria uma contribuição ao avanço dos programas, mas, do ponto de vista dos adversários nos negócios, é também um truque sujo, como ele já aplicou na praça em outras oportunidades.
Em 1995, a Microsoft e o Departamento de Justiça haviam feito um acordo pelo qual Gates não poderia usar sua vantagem com o Windows, então já hegemônico, para forçar os fabricantes de computador a instalar o Explorer em suas máquinas. O empresário jurou que nada faria nesse sentido, mas mudou de opinião quando percebeu que não conseguiria facilmente convencer os internautas a trocar de navegador. Na época, o programa líder de mercado era o Netscape Navigator. Sua estratégia de pressão foi a mais direta possível. Gates começou a distribuir o Explorer gratuitamente e mandou um recado aos fabricantes de computador: só iria licenciar o Windows para quem levasse seu navegador junto. Em dois anos o Explorer saiu do nada e ganhou 50% do mercado. O Netscape, que estava em 70% dos computadores ligados à Internet, teve sua participação reduzida a 43% (veja quadro). Agora Gates está quebrando pela segunda vez sua palavra. A integração completa do sistema operacional com o navegador está prevista para o Windows 98, que deve ser lançado ainda no primeiro semestre deste ano. Assim como o Windows 95 trazia embutido um editor de texto a versão 98 já deve ter o Explorer acoplado. "Bill Gates pode ter o mesmo papel para o mundo da informática que a besta do Apocalipse tem no Novo Testamento: será o fim", exagera o presidente da Sociedade Brasileira de Computação, Silvio Meira.
Às vésperas de ver seu melhor produto saindo do forno, Gates tem de enfrentar a ação antimonopólio do Departamento de Justiça, que gostaria de ver reduzida a importância da Microsoft no mercado de informática. O debate faz lembrar um exemplo recente da Lei Antitruste americana, promulgada no início do século para promover a competição na economia mais aberta do planeta. Em 1983, também sob a acusação de monopólio, a companhia telefônica Bell System foi obrigada a vender partes da empresa, que resultaram no surgimento de outras sete companhias. O maior problema do governo americano é que todo o setor de informática tem perfil monopolista em cada uma de suas diferentes áreas, existem empresas que dominam pelo menos 80% do mercado. É o caso da Intel (fabricante de chips, os cérebros microscópicos dos computadores), da Cisco (que produz equipamentos de controle de tráfego da Internet) e da IBM (montadora de computadores). Todas assistem com atenção à disputa travada nos tribunais, já que, depois de encerrada a briga com Gates, a polêmica poderá voltar-se contra elas. A decisão da Justiça americana sobre a ação contra a Microsoft deve sair em maio até lá, pelo menos, o homem mais rico do mundo terá de ficar muito atento às tortas voadoras.
Copyright © 1998, Abril
S.A. |