A BOA VIDA NO INTERIOR

Em busca de tranqüilidade, 41% dos brasileiros querem distância das metrópoles

Eduardo Junqueira

Fotos: Eugenio Savio

Thiago Belfort e a alegria de passear com a família em Poços de Caldas: sem medo de assaltos, como na São Paulo "gentil" em que nasceu

Já se disse que a principal característica da demografia nacional está no fato de os brasileiros se concentrarem na costa — de costas para o vasto interiorzão, o sertão, o coração da pátria. Até pouco tempo atrás, havia bons motivos para isso acontecer. Universidades reputadas, empregos bem remunerados, hospitais equipados, redes de supermercados e shopping centers eram privilégios restritos às grandes capitais brasileiras. Quem não abrisse mão de tais serviços era automaticamente obrigado a conviver com congestionamentos, alto custo de vida, poluição e violência crescentes. Não é mais assim. Recém-concluído, um estudo do IBGE com base no levantamento populacional de 1996 atesta: hoje, o segmento da população que mais cresce no país está em 181 cidades médias pulverizadas pelo interior, com população entre 100.000 e 500.000 habitantes. O número de moradores desses municípios multiplica-se à média de 2,2% ao ano, 60% maior que o índice nacional, que é de 1,38%. É o único grupo de cidades com crescimento demográfico acima da média brasileira, e isso não acontece porque os habitantes dessas cidades sejam entusiasmados adeptos de proles numerosas. Caracteriza, isso sim, uma verdadeira corrida em direção ao interior, que inverte o fluxo migratório firmado ao longo de séculos, sempre apontado para as metrópoles litorâneas do Sul maravilha. As novas mecas são municípios como Poços de Caldas, em Minas Gerais, São José do Rio Preto, em São Paulo, Ilhéus, na Bahia, Maringá, no Paraná, ou Sobral, no Ceará.

"A maioria das pessoas busca no interior as vantagens da vida urbana que acabaram se tornando inacessíveis nas grandes cidades", diz o professor José Guilherme Magnani, coordenador do Núcleo de Antropologia Urbana da USP. Uma pesquisa do Ibope, realizada com exclusividade para VEJA, revelou que 41% dos moradores das capitais e regiões metropolitanas querem trocar a cidade grande pelo interior, motivados pelo idílio de ter uma vida mais tranqüila (73% dos entrevistados) ou se expor menos à violência urbana (43%) (veja quadro abaixo). Ao todo, são 23,5 milhões de pessoas — o mesmo que as populações somadas dos Estados de Minas Gerais, Santa Catarina e Espírito Santo — querendo mudar de endereço. Os entrevistados querem tudo aquilo que o crescimento desordenado usurpou das metrópoles, mas com o emprego e a infra-estrutura urbana bem ao alcance das mãos. Não se trata, por isso, de um frugal sonho campestre. Não é de retorno à vida rural que se está falando. É, antes, o retorno a uma vida que as grandes cidades brasileiras ofereciam antes de ser atopetadas de indigentes, mendigos, criminalidade, tráfico de drogas, congestionamentos, loucura.

Cidade gentil — No depoimento de Thiago Belfort, de 43 anos, está a síntese dessa nova onda migratória: "Eu queria voltar a viver numa cidade gentil como a São Paulo que conheci na infância, quando podia brincar na rua com os amigos e passear à tarde na pracinha com meus pais, sem medo de ser assaltado. Aquela minha São Paulo gentil também era uma metrópole buliçosa, que oferecia a nossa família todas as coisas bacanas de uma cidade grande". Hoje morando em Poços de Caldas, na divisa de Minas Gerais com São Paulo, Belfort encontrou o que procurava. Em São Paulo, sua vida era um pesadelo. Ganhava 6.000 reais como operador do mercado financeiro e a família tinha um bom padrão. Mas o preço era alto demais. Belfort perdia duas horas por dia em congestionamentos e foi assaltado quatro vezes com a mulher, a publicitária Magali. A tensão era tanta que ele, diabético, passou a ter crises freqüentes, motivadas pelo stress. "Estava ficando doente, então resolvi dar um basta antes que fosse tarde demais", diz. No ano passado ele abandonou o emprego e decidiu abrir seu próprio negócio em Poços de Caldas. Com a ajuda da esposa e das filhas adolescentes, comanda uma lanchonete incrementada que vende até 150 sanduíches por dia. A renda da família caiu pela metade, mas o rombo na conta bancária não foi tão grande assim. Seus gastos com educação foram cortados, porque a escola particular das meninas, com nível e equipamentos análogos aos da capital, tem mensalidades 50% menores. Por fim, a família pôde até abrir mão do automóvel, roubado em uma recente viagem para — sempre ela — São Paulo, é claro. "Aqui tudo é pertinho e podemos andar na rua a qualquer hora sem ser molestados por ninguém", diz. Belfort trabalha em média dez horas por dia, mas não reclama da falta de tempo para curtir a vida com a família. "Em um ano fomos mais juntos ao cinema do que em toda a última década vivida em São Paulo", comemora.

Fotos: Frederic Jean  
Hoje: Depois que se mudou para São José do Rio Preto há um ano, o diretor comercial João Settani gasta apenas dois minutos para chegar ao trabalho. Antes de sair de casa toma banho de piscina. Antes: Settani morava em um bairro afastado de São Paulo e gastava pelo menos uma hora e meia para chegar ao trabalho. Tinha crises de stress. Para fugir dos congestionamentos, dirigia pelo acostamento, o que é proibido por lei.
Hoje: Ele chega ao escritório, onde comanda, pela Internet, uma rede de revendas Mercedes-Benz. Com menos gente de olho no seu cargo, o trabalho é menos estressante. Os colegas tornaram-se seus amigos.
Antes: Settani trabalhava freneticamente e costumava ficar no escritório depois do expediente para colocar a agenda em dia.
Hoje: Como tem tempo de sobra, Settani almoça em casa.
Antes: Ele mal tinha tempo de engolir um sanduíche porque o telefone celular não parava de tocar. Passava dias sem ver os filhos.
Hoje: Settani volta para casa antes das seis da tarde. Seu programa predileto é caminhar com a esposa, Irene, em uma praça arborizada do bairro onde mora.
Antes: O expediente só terminava por volta das oito da noite porque Settani perdia muito tempo no trânsito quando precisava visitar um cliente. Meio-diaSeis horas da tardeOito horas da noite
Hoje: O executivo tem sempre cervejas e picanhas no freezer para preparar churrascos para os amigos que gostam de visitá-lo em sua casa de 980 metros quadrados.
Antes: Settani chegava em casa às 9 horas da noite. Cansado, não tinha disposição para ir ao cinema ou encontrar os amigos. Dormia cedo.

Menor e melhor — Essa nova onda migratória só se tornou possível porque o coreto e as pombas da praça central, o céu aberto, o horizonte largo e o ar despoluído ficaram mais perto do mundão. Estão cabeados por TVs pagas, antenados a satélites, plugados na Internet, e o aeroporto é logo ali. Um dos sinais mais marcantes dessa mudança está nos aviões que cruzam os céus do interior. Nos últimos dez anos, o número de vôos regionais saltou de 118.000 para 273.000 por ano. Representam hoje 55% da movimentação aérea do país. Somados, os pousos e decolagens no aeroporto de Ribeirão Preto, um desses novos edens em São Paulo, saltaram de 7.800 para 30.000 operações por ano, 10.000 a mais do que o movimento do aeroporto internacional de Belo Horizonte. Também não é mais necessário usar camisa xadrez e botas de bico fino, andar em camionete e ser fanático por rodeios ou por Xitãozinho e Chororó para encontrar seu nicho cultural pelas boas cidades do interior brasileiro. O consumo de marcas se sofisticou. A Forum, griffe de roupas jovens moderninhas, tem 40% de suas vendas no interior, embora apenas um terço de suas lojas esteja fora das capitais. Os cinemas exibem as estréias de filmes simultaneamente ao cronograma das metrópoles.

A descentralização brasileira tem precedentes internacionais. Um movimento semelhante começou na década de 40 e intensificou-se nos anos 70 partindo de grandes metrópoles mundiais, como Londres, Paris ou Nova York, no fenômeno que os especialistas apelidaram de "reversão de polarização". Na época, um trabalhador dessas cidades ganhava mais do que o dobro de um profissional similar do interior do país. Entupidas de gente (e olhe lá!, porque São Paulo tem hoje 2,4 vezes mais gente do que Londres e quase duas vezes mais do que Paris), os aluguéis tinham subido muito e o trânsito vivia saturado. As grandes indústrias perceberam que era hora de buscar as boas condições de produção do interior, em cidades menores. Nos Estados Unidos, partiram para a Califórnia, Tennessee, Flórida e Alabama. "Um conjunto de prósperas cidades médias emergiu no interior dos Estados Unidos alavancadas pela atividade industrial", diz o professor Clélio Campolina Diniz, do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais. O movimento ainda não terminou e hoje há forte migração para o Texas e o Novo México, onde cidades de 100.000 habitantes surgem do nada em menos de dez anos.

Até a década de 70, São Paulo e Rio de Janeiro preenchiam os requisitos das indústrias como nenhuma outra cidade do país. Atraíram bilhões de investimentos, milhões de imigrantes e problemas a perder de vista. O preço dos terrenos disparou, os sindicatos forçaram a elevação dos salários e a violência crescente expulsou as famílias dos executivos. No final da década de 80, um estudo apontou que os custos com assistência médica na região metropolitana de São Paulo eram 52% mais altos do que no interior do Estado. Outra pesquisa mostrou que os salários da capital eram até 30% mais altos do que a média nacional. Tudo isso tirou a competitividade de muitas empresas, que puseram o pé na estrada, espraiando-se para uma área compreendida entre Belo Horizonte, Uberlândia, Maringá e Londrina, Porto Alegre, Florianópolis e São José dos Campos. "Essa região ampliou sua participação na produção industrial do país de 33% para 51% entre 1970 e 1990", diz o especialista da UFMG.

Dá para fazer isso sem traumas graças às facilidades tecnológicas já disponíveis no interior. Há um ano, João Settani, diretor comercial de uma rede de revendas Mercedes-Benz, mudou-se de São Paulo para São José do Rio Preto, na região noroeste do Estado. Só volta à sua cidade natal para tratar de grandes negócios. A tecnologia é a melhor aliada. Mantém contato com a rede de filiais da empresa espalhada pelo país através da Internet e faz reuniões pelo sistema de videoconferência. O telefone celular é o companheiro de todas as horas. Tudo isso era impensável dez anos atrás. O trabalho fica mais fácil e a qualidade de vida não deixa dúvidas quanto às vantagens da mudança de endereço. Ele e a família moram em uma casa de 980 metros quadrados. A mulher, Irene, joga tênis com as amigas e os filhos freqüentam as colunas sociais locais. Settani tenta esquecer a experiência frustrada que passou há onze anos, quando se mudou da Zona Norte da capital paulista para um condomínio luxuoso na região metropolitana. Não deu certo porque, como ele, milhares de endinheirados tiveram a mesma idéia. A conseqüência foi que a outrora calma Rodovia Castello Branco tornou-se um funil congestionado. Durante algum tempo, Settani pegou carona no helicóptero de um amigo para chegar ao trabalho, mas não deu certo porque à noite ficava sem carro para voltar para casa. Um inferno. Ele teve uma doença de pele de fundo emocional e o relacionamento com a mulher enfrentou dificuldades. A mudança para São José veio a calhar. "Até a minha vida sexual melhorou", diz. "Antes vivia tão estressado que não tinha muita disposição para essas coisas."

Avião de mangas — Considerado a vanguarda do atraso até bem pouco, o Nordeste brasileiro passa por um fenômeno semelhante, mas mais intenso. Numa sobreposição de várias frentes de desenvolvimento, uma eficiente agricultura voltada para a exportação ganha terreno simultaneamente ao surgimento de pólos industriais espalhados em torno de cidades médias. Petrolina, às margens do Rio São Francisco na divisa de Pernambuco com a Bahia, é exemplo dessa explosão. O crescimento do pólo de fruticultura irrigada criou fenômenos inusitados, como o movimento de grandes aviões no aeroporto local para o transporte de toneladas de mangas rumo à Europa e aos Estados Unidos. Os sinais dos bons lucros dos empresários locais estão por toda parte. Na orla do rio são construídos edifícios de apartamentos com quatro suítes e três vagas na garagem. A pujança econômica fez a população triplicar desde a década de 70 e a prefeitura estima que 65% dos moradores da cidade tenham vindo de fora. As organizações Carrefour e Paes Mendonça, das redes de supermercados, produzem frutas na região. A Parmalat acaba de comprar uma fábrica por lá. Lentamente, a região tem-se transformado em um pólo produtor de vinho para concorrer com a tradicional hegemonia do Rio Grande do Sul no setor. Graças à alta taxa de insolação e à irrigação, os agricultores colhem até três safras anuais de algumas frutas, como a uva, suprindo a falta do produto no mercado internacional em certas épocas do ano.

Sobral, no interior do Ceará, vive uma explosão econômica semelhante, mas nesse caso impulsionada pelo motor da Grendene, que passou a produzir sapatos na cidade desde 1993 e hoje emprega 6.500 funcionários. Além das quatro fábricas em funcionamento, tem outras duas em construção que irão gerar mais 2.500 empregos. A instalação da indústria atraiu gente de todo o país. De olho nas novas oportunidades de emprego, em 1994 o engenheiro mecânico Tarcísio Benedito Filho, de 29 anos, trocou Fortaleza pela tranqüilidade de Sobral. Seu trabalho de controle de qualidade não é muito diferente do que é realizado em São Paulo ou Belo Horizonte, mas o ganho que teve em matéria de vida com a família é incomparável. Depois que chega do trabalho, Tarcísio coloca a cadeira na calçada e fica conversando com os vizinhos até anoitecer. "Tenho a certeza de que o paraíso real é aqui", diz.

Tácito Targa (à frente)
com familiares em um
de seus motéis: fortuna
feita de sexo
Foto: Frederic Jean  

A injeção de capital na economia da região tem fermentado uma inédita rede de serviços, como grandes shopping centers, em terras outrora áridas. Há dois anos e meio, o empresário José Geraldo do Nascimento trocou o Recife por Petrolina para comandar uma loja de produtos e equipamentos para fotografia e cativou a clientela oferecendo uma linha mais completa e diversificada de produtos do que as concorrentes locais. "Não é porque moram no interior que as pessoas são menos exigentes", diz ele. "Elas querem qualidade e às vezes pagam mais por isso do que muita gente imagina."

Com tantos milhões de reais a mais, é natural esperar que esses oásis de tranqüilidade sejam contaminados por vícios típicos de megalópoles. Cidades como Londrina, no norte do Paraná, Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, ou Petrolina, na divisa de Pernambuco com a Bahia, já sofrem com o aparecimento de traficantes de drogas e o aumento generalizado da criminalidade. Petrolina, por exemplo, registrou 143 homicídios em apenas um ano. De outro lado, cidades antes ingênuas, em que o máximo de transgressão imaginada era uma escapada rumo ao prostíbulo de luzes vermelhas, num bairro ermo e de má fama, passam a conviver com uma liberalização dos costumes de há muito vista na TV, mas ainda restrita às grandes cidades. Em Sorocaba, há até fortunas geradas por esses novos prazeres. Quando chegou à cidade, em 1982, Tácito Euclides Targa Fernandes tinha dinheiro apenas para comprar 30% de uma sociedade em um pequeno motel afastado. Quatro anos depois dobrou o número de suítes e em 1988 comprou a parte dos sócios. Em sete anos ergueu sua rede de onze motéis. Hoje tem cinco carros na garagem e mora em um luxuoso condomínio fechado onde os amigos se encontram no final de semana para saborear churrascos regados a uísque de primeira. Os oito filhos já viajaram cinco vezes para a Disney. Além do patrimônio construído nas imediações de Sorocaba, ele tem uma fazenda avaliada em 3 milhões de reais no Paraná. São 1.200 hectares com 1.300 cabeças de gado de corte. O novo milionário importou toda a família de São Paulo para ajudar a tocar o negócio. O último a chegar foi o irmão mais novo, o empresário Celso Luís Targa, de 43 anos, que deixou um emprego de gerente de marketing em uma multinacional e um salário mensal de 5.000 reais para tornar-se sócio do irmão nos motéis. A festa no interior está apenas começando.

Com sucursais

A melhor direção

De norte a sul do país, dez cidades com até 500.000 habitantes são a expressão do que o interior brasileiro tem de melhor. Elas são tranqüilas, oferecem boa qualidade de vida aos moradores e têm expressiva rede de serviços e negócios que jogam por terra a imagem de que a vida moderna se restringe às capitais

Tarcísio, que trabalha
na Grendene, e a família
em Sobral: "Tenho a
certeza de que o paraíso
real é aqui"
Foto: Tibico Brasil  

São José do Rio Preto ­ SP

População
326.000 habitantes

 

Preço de um apartamento novo*
130 000 reais

Por que a cidade deu certo
Nas últimas décadas, a próspera atividade agropecuária da região, onde predominam pequenas e médias propriedades, alavancou a qualidade de vida local

Pontos fortes — Há hospitais de primeira linha, com equipes que realizam transplante de medula óssea e fígado. As doze revendas de carro importado e as lojas de conveniência 24 horas revelam o potencial de consumo da região. Bares oferecem acesso gratuito à Internet e há um bom campo de golfe. Os jovens têm à disposição 42 cursos universitários

Pontos fracos — A cidade não tem tradição industrial, o que limita o mercado de trabalho. Como a demanda é grande, a mensalidade de algumas boas escolas é mais alta do que similares em São Paulo. É ponto de receptação de drogas vindas do Paraguai e da Bolívia

 

Petrolina ­ PE

População
191.000 habitantes

 

Preço de um apartamento novo*
95.000 reais

Por que a cidade deu certo
A irrigação com as águas do Rio São Francisco, iniciada em 1968, pontilhou de verde a aridez do sertão pernambucano. Hoje, os agricultores exportam frutas de primeira e movimentam 90 milhões de reais por ano. Foram investidos 800 milhões de reais na agricultura

Pontos fortes — Há oportunidades para abertura de novos restaurantes, lavanderias, clínicas de estética e outros serviços. Um hectare de terra irrigada custa em média 11.000 reais. Há ilhas com praias para banhos refrescantes no Rio São Francisco

Pontos fracos — O número de homicídios é alto. Foram 143 em 1996. A região é a maior produtora de maconha do país. Quando a polícia destrói as plantações, os lavradores assaltam nas estradas. No verão a temperatura chega a 40ºC

 

Sorocaba ­ SP

População
432.000 habitantes

 

Preço de um apartamento novo *
150.000 reais

Por que a cidade deu certo
É um pólo econômico de autopeças, químico e metalúrgico. Novas empresas estão chegando à região, com investimentos avaliados em 1,29 bilhão de reais para os próximos dezoito meses

Pontos fortes — Sorocaba tem vôos diários para a capital paulista por 40 reais. O gasoduto Brasil—Bolívia vai passar pela cidade até agosto de 1999, reduzindo custos e poluição. O acesso ao porto fluvial permitirá o escoamento da produção industrial para o Mercosul. É o maior pólo de criação de cavalos de raça do Estado, com 33 haras

Pontos fracos — Apesar do alto número de executivos, há somente cinco hotéis, sempre lotados. Há 175.000 automóveis em circulação, o que provoca congestionamentos

 

Caxias do Sul ­ RS

População
326.000 habitantes

 

Preço de um apartamento novo *
75.000 reais

Por que a cidade deu certo
O sucesso das indústrias locais, que empregam 40.000 trabalhadores, despertou a vocação empreendedora da população. Há pelo menos 5.000 pequenas e médias empresas na cidade, principalmente no setor têxtil. É a terceira maior fabricante de vinho do Brasil

Pontos fortes — O custo de vida é mais baixo do que nas capitais. Os clubes têm sedes campestres cercadas de natureza, com cachoeiras caudalosas

Pontos fracos — O lazer é limitado. Serviços 24 horas são raros. O pequeno aeroporto fecha constantemente por causa do mau tempo. A temperatura média anual não passa de 13ºC

 

Sobral ­ CE

População
138.000 habitantes

 

Preço de um apartamento novo *
50.000 reais

Por que a cidade deu certo
A indústria de calçados Grendene instalou-se por lá em 1993, trazendo progresso e empregos. Atualmente a empresa tem 6.500 funcionários e planos de abrir 2.500 novas vagas

Pontos fortes — O custo de vida é baixo, a população é muito receptiva, as escolas públicas são de qualidade e há um shopping center em construção

Pontos fracos — Seu hospital oferece apenas serviços básicos. Ainda não há cinema

 

Ilhéus ­ BA

População
242.000 habitantes

 

Preço de um apartamento novo *
100.00 reais

Por que a cidade deu certo
O turismo já criou 20.000 empregos, e incentivos fiscais para a montagem do pólo de informática atraíram sete empresas do ramo

Pontos fortes — Ilhéus tem 93 quilômetros de praia e o trânsito é tranqüilo, sem engarrafamentos

 

Pontos fracos — A crise do cacau deixou 250.000 trabalhadores rurais desempregados no sul do Estado. Boa parte deles incha a periferia de Ilhéus, elevando a taxa de subemprego

 

Juiz de Fora ­ MG

População
424.000 habitantes

 

Preço de um apartamento novo *
110.000 reais

Por que a cidade deu certo
Juiz de Fora tem taxa de crescimento do PIB superior à do Estado de Minas Gerais, graças à indústria, responsável por 33% da arrecadação municipal

Pontos fortes — É um pólo regional e está bem localizada entre os Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro. Sua mão-de-obra é qualificada, com um dos melhores índices de pessoas com nível superior do país. A fábrica da Mercedes-Benz começa a produzir em dezembro

Pontos fracos — A expansão provocou o estrangulamento do sistema viário e a cidade tem apenas 2% de área verde. O Rio Paraibuna, que corta Juiz de Fora, está poluído

 

Joinville ­ SC

População
398.000 pessoas

 

Preço de um apartamento novo *
60.000 reais

Por que a cidade deu certo
As indústrias estão se modernizando e elevando a produção de riquezas. São responsáveis por 56% do PIB municipal, contra apenas 1% proveniente da agricultura

Pontos fortes — Limpeza é uma característica da cidade — 99% da população é atendida pela coleta domiciliar de lixo. Os médicos da prefeitura moram nos bairros em que trabalham e atendem a um número determinado de famílias. Belas praias do litoral catarinense estão a apenas 50 quilômetros da cidade.

Pontos fracos — Os operários, pouco qualificados, estão perdendo o emprego com a crescente automatização dos meios de produção

 

Maringá ­ PR

População
268.000 habitantes

 

Preço de um apartamento novo *
85.000 reais

Por que a cidade deu certo
Maringá sobreviveu e cresceu depois das geadas que destruíram a cultura do café nos anos 70. Tornou-se pólo de uma região com pecuária intensa e forte produção de soja.

Pontos fortes — A Universidade Estadual de Maringá já recebeu nota máxima no provão para os cursos de administração e engenharia civil. A média de área verde por habitante é de 25,65 metros quadrados, uma das mais altas do país, quase o dobro da de Curitiba

Pontos fracos — A economia é cíclica, vinculada à época de safra e ao preço da soja no mercado internacional

 

 

Poços de Caldas

População
122.000 habitantes

 

Preço de um apartamento novo *
90.000 reais

Por que a cidade deu certo
Com a proibição do jogo em 1946, a cidade-balneário teve seus cassinos fechados e perdeu muito de seu glamour. Turistas mais abastados sumiram. Nas décadas de 60 e 70, Poços entrou em um novo ciclo de desenvolvimento, desta vez com base na industrialização, sem perder a vocação turística

Pontos fortes — Cerca de 90% das ruas da cidade são pavimentadas, todas as casas têm energia elétrica e 98% são servidas por água e esgoto. A PUC-MG oferece cursos de engenharia civil, direito, odontologia e administração. O sistema de telefonia é dotado de fibra ótica

Pontos fracos — As estradas que levam à cidade estão malconservadas. O consumo de drogas por jovens é alto e já começa a preocupar as autoridades

* de três quartos no melhor bairro


O destino ficou mais próximo

O mapa da população brasileira está ganhando contornos inéditos, fruto de um novo padrão migratório. "Ao contrário das últimas duas décadas, quando predominavam as migrações de longa distância, agora os movimentos de curta distância passam a prevalecer", diz a professora Rosana Baeninger, que prepara uma tese de doutorado sobre o tema na Unicamp. Não se deve pensar que a histórica migração de nordestinos para São Paulo tenha sido interrompida. A diferença é que ela já não é tão forte como nos anos 70, quando a capital paulista recebeu 3,5 milhões de migrantes. Na década de 80, a saturação do mercado de trabalho em São Paulo passou a desencorajar as levas de nordestinos rumo ao Sudeste e motivou um número cada vez maior de pessoas a voltar a suas origens (veja mapas abaixo). Entre 1980 e 1990, São Paulo recebeu 1 milhão de migrantes a menos do que nos anos 70, metade vinda do Nordeste. "Na mesma época, 1,5 milhão de pessoas deixou São Paulo, grande parte com destino ao interior dos Estados nordestinos", diz Rosana. Em vez de afluir para o Sudeste, a maioria dos migrantes do Nordeste se movimenta dentro dos próprios Estados da região.

No Sul, ao contrário do que ocorria no passado, Santa Catarina passou a receber gaúchos e paranaenses. E o Espírito Santo é alvo dos migrantes de Minas Gerais e Rio de Janeiro. "As regiões metropolitanas não são mais o destino final da migração, como ocorria na década de 70", explica Rosana. Nos primeiros cinco anos desta década, 5 milhões de brasileiros trocaram de município, mas apenas 6% rumaram para as grandes cidades.




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