Coração remendado

Cirurgião utiliza cola para fechar orifício em
órgão infartado e salva vida de paciente

A funcionária pública aposentada Joana Messas Woitas, de 69 anos, se prepara para comemorar, na próxima semana, mais um ano de vida. Embora não seja o dia de seu aniversário, Joana faz questão de celebrar o 21 de março porque foi nesse dia que ela nasceu de novo. No ano passado, poucos dias depois de ser submetida a uma revascularização do miocárdio, Joana precisou voltar à mesa de cirurgia. Vítima de um infarto durante o pós-operatório, ela sofreu uma ruptura no coração e esteve à beira da morte. Foi salva por um gesto de ousadia do cirurgião cardíaco Francisco Gregori Jr., do Hospital Evangélico de Londrina, no interior do Paraná. Sem conseguir suturar um orifício de cerca de 1 centímetro de diâmetro, antes de desligar os aparelhos que a mantinham viva artificialmente, ele decidiu usar Super Bonder, essa cola de alta potência que as pessoas utilizam em casa para rejuntar peças de cerâmica quebradas, consertar bijuterias, brinquedos ou qualquer coisa que precise ser colada. Com a Super Bonder, o médico de Londrina não só estancou a hemorragia como garantiu a sobrevida da paciente.

A idéia de usar o adesivo instantâneo surgiu em meio ao desespero daquele 21 de março. Gregori Jr. é autor de técnicas inéditas em cirurgias de válvulas cardíacas, mas ele e sua equipe não conseguiam fechar a ruptura, localizada no meio de uma área necrosada, com os métodos convencionais de sutura, que incluem o uso de fios cirúrgicos e cola biológica. Esgarçado, o tecido muscular se rompia a cada novo ponto, obrigando o cirurgião a repetir o procedimento inúmeras vezes. Depois de ordenar a compra do produto em um posto de gasolina próximo ao hospital, Gregori Jr. decidiu usar a cola como um último recurso. Deu certo. "Aproximei as bordas do orifício e, utilizando três pequenas placas de celulose com Super Bonder, consegui fechá-lo", recorda o médico, que ainda esperou dez minutos para encher novamente de sangue o coração. "Foi sorte. Não posso explicar de outra maneira", diz.

Medida salvadora — Sorte ou não, o fato é que cada vez com mais freqüência essa cola vem sendo usada — ainda que extra-oficialmente — na área de saúde. Na Guerra do Vietnã e na das Malvinas, o adesivo instantâneo teria sido adotado para facilitar a cicatrização de ferimentos superficiais. No Brasil, existem relatos de outras cirurgias em que se usou Super Bonder. Ao contrário da Europa, por aqui ainda não está à venda o Indermil, uma espécie de versão esterilizada da cola, destinada à área médica. De qualquer forma, os fabricantes são categóricos ao alertar: embora não seja tóxico, o produto não deve ser usado no corpo humano. "Seu uso não é indicado porque Super Bonder não é estéril", explica o engenheiro químico Guilherme Andrade, gerente técnico da Loctite, fabricante do produto. "Dessa forma, há risco de contrair doenças."

Visto com cautela por alguns, o procedimento de Gregori Jr. recebeu o apoio do Conselho Regional de Medicina do Paraná. José Wanderley Neto, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, também aprovou a alternativa improvisada pelo cirurgião. "Foi uma medida salvadora", diz o médico, que conserva em seu centro cirúrgico em Maceió uma bisnaga da cola. "Embora não recomende o uso rotineiro de Super Bonder, em uma situação emergencial, em que os métodos convencionais não funcionam, eu faria o mesmo." Atenta ao debate que seu caso gerou, a aposentada Joana segue levando uma vida normal na pacata Bela Vista do Paraíso, distante cerca de 40 quilômetros de Londrina. "Estou muito bem. Estou viva, né?", diz. Saúde, Joana!

Glenda Mezarobba




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