Entre os Muros
da Escola (Entre
les Murs, França, 2008), que estreia nesta sexta-feira
no país, é uma daquelas obras fabulosas que
demonstram de quanta convicção o cinema ainda
pode ser capaz. O filme do diretor Laurent Cantet, ganhador
do último Festival de Cannes, acompanha um ano letivo
em uma escola multirracial da periferia de Paris, observando
a interação entre um professor e sua classe
de alunos entre 13 e 15 anos. O que emerge daí é
bem mais que um retrato da adolescência. É um
instantâneo riquíssimo da França atual,
de uma Europa desconfortável com sua herança
pós-colonial e das tribulações vividas
em qualquer ponto do mundo onde afluência e exclusão
se chocam como o Brasil. Como é quase regra
nos casos em que se atinge esse grau de universalidade, sua
força advém de se fixar no que há de
mais específico: a experiência pessoal do professor
François Bégaudeau, que interpreta a si mesmo,
na missão de tirar seus estudantes (também interpretando
a si mesmos) da apatia ou da resistência e tentar fazer
com que eles entendam quem são e que lugar podem ocupar
no mundo.
Entre os Muros da Escola
é uma dramatização do livro homônimo
(publicado aqui pela Martins Fontes) que Bégaudeau lançou
em 2006, narrando nove meses de aula quase de batalha
campal, na verdade com uma classe de malineses, caribenhos,
marroquinos, argelinos, chineses e, surpresa, até alguns
franceses. Na direção tensa e sem entreatos de
Cantet, Bégaudeau os provoca, seduz e briga com eles,
ajudando-os a encontrar sua própria voz; e tem necessariamente
de suportar que essa voz se levante contra ele, em confrontos
que não raro ficam a um passo da guerra declarada. Num
episódio infeliz, essa linha é cruzada: vencido
pela irritação, o professor diz a duas alunas
que elas estão agindo como vagabundas e provoca uma rebelião.
A beleza desses enfrentamentos é que esses jovens, que
na maioria nasceram na França mas com boa razão
não se sentem franceses, têm a oportunidade de
se testar contra uma figura de autoridade que representa tudo
aquilo que eles não são e que parece vetado a
eles. E o extraordinário em Bégaudeau, um homem
de seus 38 anos, bonito e de voz grave, é que ele se
ofende, se cansa, desanima e erra, mas é visceralmente
incapaz de entregar os pontos. Como os professores idealizados
pelo cinema americano, ele é alguém que acredita
que uma missão essencial lhe foi confiada; mas, ao contrário
deles, tem de viver no mundo real, onde os sucessos são
pequenos e infrequentes e o único passe de mágica
possível mas que mágica é
não se refugiar na indiferença e continuar tentando.