Ciência faz moda

Tecidos inteligentes chegam às passarelas em
roupas leves, macias e confortáveis

Karina Pastore

Foto: Luis Gomes
Efeito balão de festa: tecido com 100% de Lycra adere às curvas do corpo, com flexibilidade total

Modelos lindas, histeria nos bastidores e, em matéria de tendências, nada muito diferente do que já foi visto nas coleções européias e americanas. Tudo previsível. A novidade que se vai firmar nesta semana nas passarelas do Morumbi Fashion, o maior acontecimento do mundo da moda brasileira, sai mais dos laboratórios de pesquisa do que da criatividade dos estilistas: os tecidos sintéticos. Até tempos atrás um sinônimo de roupa desconfortável, calorenta, de segunda linha (se comparados à nobreza do linho ou da seda), os tecidos artificiais invadem com força total o território glamouroso das passarelas. Nunca, como agora, nomes de fibras sintéticas tão improváveis quanto acetato ou liocel estiveram tão associados ao que de mais bonito a moda pode produzir. "A grande revolução da moda é o aperfeiçoamento da tecnologia têxtil", diz Paulo Borges, diretor artístico do Morumbi Fashion. "Todas as golas, mangas, calças, saias já foram inventadas e o que moderniza essas imagens são os avanços tecnológicos." O equilíbrio entre os fios naturais e os de laboratório, preciso e delicado, só foi possível graças a pesquisas milionárias, como as mantidas pela gigante do setor, a DuPont, que investe por ano a bagatela de 1 bilhão de dólares. Em vez de "desconfortáveis", os sintéticos agora são chamados de "tecidos inteligentes". Respiram e transpiram. Esquentam e esfriam, adaptando-se à temperatura ambiente. São gelados no calor. Quentes no frio. Leves e maleáveis. Misturam-se aos naturais sem que se perceba sua presença.

Na obtenção desses resultados, movimentam-se engrenagens bem menos charmosas do que se supõe ao ver as modelos. São engenheiros, químicos e biólogos, mecânicos e geneticistas que se esfalfam para atender aos pedidos das griffes de moda. A pedido de Renato Kherlakian, dono da Zoomp, por exemplo, a DuPont do Brasil desenvolveu pela primeira vez na história da indústria têxtil um tecido 100% Lycra. O resultado é impressionante. Pura tecnologia. Os tops, vestidos e saias sensualíssimos porque se ajustam perfeitamente ao corpo parecem feitos de restos de balão de aniversário de criança. Com a vantagem de que o tecido não aperta nem esquenta.

Leveza: a mistura de fios cada vez mais finos cria variantes híbridas, como a capa de tecido holográfico (à esq).
Tecidos líquidos: puro poliéster com aparência de água por causa de fibras multifacetadas que aumentam a refração
da luz (à dir).
Fotos: Luis Gomes    

Pernas de náilon Associada aos primórdios da Revolução Industrial, com a introdução de máquinas e linhas de produção, a indústria têxtil deu o primeiro grande salto no terreno das fibras sintéticas durante a II Guerra Mundial. A partir de resíduos de petróleo, o pesquisador americano Wallace Carothers inventou a poliamida, a fibra de náilon. No início, os propósitos eram apenas bélicos. Substituir a seda (caríssima) na fabricação de pára-quedas. Terminada a guerra, o fio de laboratório foi parar no armário dos civis. Particularmente nas pernas das civis, sob a forma das revolucionárias, para a época, meias de náilon. As roupas baratearam. Ganharam durabilidade. Não amassavam. Podiam ser jogadas na máquina de lavar e estavam prontas para o uso. Popularizado nos Estados Unidos, o tecido sintético viveu um apogeu seguido de rápida decadência. As roupas feitas de náilon eram ásperas e pesadas demais. O suor do corpo empapava e empesteava as fibras artificiais, que viraram sinônimo de artigo barato, cafona.

Na mistura de fibras de algodão com náilon, o conjunto de calça e jaqueta ganha estrutura sem perder a maciez. O vestido luminoso (à dir.), levíssimo, mantém a transparência sem esquentar demais
Fotos: Luis Gomes  

No início dos anos 80, a redenção começou a se esboçar com o aperfeiçoamento das microfibras. A indústria caminhava em direção a sua segunda grande transformação, com base em duas descobertas e uma invenção. As descobertas: quanto mais finos os fios, maior a facilidade com que o ar quente do corpo circula para o meio externo. "Impede-se, assim, que a transpiração se acumule no tecido", explica Maria José Orione, engenheira têxtil da confeção Zoomp. Também se constatou que quanto mais fino o fio, maior a maciez do pano. Restava apenas inventar máquinas capazes de produzir a fibra.

Quem vê uma elegante saia de microfibra não imagina que, no começo, aquilo foi uma pasta informe de derivados de petróleo. Dissolvida e filtrada, a maçaroca é empurrada sob pressão por aberturas semelhantes às de um chuveiro, cada fiozinho e hoje se produzem fios de 4 centésimos de milésimo de milímetro! saindo por um orifício desses. A nova tecnologia deu tão certo que tecidos com a durabilidade dos sintéticos e o conforto e caimento da seda nobre invadiram as araras das lojas de roupas.

A maravilha do momento são os tecidos brilhantes. Há menos de um ano, a M.Officer lançou pela primeira vez no Brasil os chamados tecidos líquidos, com uma flexibilidade e um brilho que emulam os dos fluidos. Com décadas de pesquisa sobre a refração da luz nos panos, os cientistas descobriram que o formato dos fios, por si só, é capaz de alterar a luminosidade de uma roupa. Quanto mais facetado, maior o brilho (veja quadro). Os "chuveiros" dos quais saem os fios foram adaptados para produzir finíssimos filamentos com seção hexagonal ou trilobal, com um resultado espetacular, se comparado ao brilho tradicionalmente obtido a partir de bordados em paetês ou da aplicação de vernizes no tecido, ambos ruins para a maleabilidade da roupa.

Vestido de água Com tantas variedades de fios, as grandes tecelagens agora se dedicam a misturar tudo em panos híbridos. No Morumbi Fashion, a confecção M.Officer apresenta o tecido holográfico, composto de poliéster, náilon e viscose. Fino como papel, translúcido como água e maleável como seda, o tecido está em capas e casacos para o inverno. Apesar da aparência leve, as peças são extremamente quentes. Também graças à possibilidade de combinação de fios, a Zoomp conseguiu dar ao brim de algodão rigidez e brilho, sem perder a flexiblidade, misturando-o ao náilon. Combinados ao elastano, algodão, seda, veludo e lã preservam suas características e ganham as vantagens da fibra sintética. "Com apenas 3% de elastano é possível dar flexibilidade aos modelos", diz Denise Sakuma, coordenadora de moda da DuPont.

As possibilidades são tantas que a indústria já pode surfar na onda ecológica e fabricar tecidos em processos não poluentes. A empresa inglesa Courtaulds criou o liocel, um fio feito a partir da polpa da madeira, que consumiu dezesseis anos de estudos e cerca de 500 milhões de dólares. Composto 100% de celulose, o liocel é tão confortável quanto o algodão. Com uma vantagem: é tenaz e flexível ao mesmo tempo. O selo verde é dado por causa dos solventes usados no processo de fabricação, todos biodegradáveis. É a terceira onda dos tecidos sintéticos.

Solução para velho dilema

Acordar de manhã cedinho, fazer a barba, vestir um terno e escolher uma gravata. O ritual que costuma estressar executivos em busca da combinação perfeita está dando um tempo. A moda agora é a monocromia. Gravata lisa e, de preferência, camisa da mesma cor. Com a nova tendência, acabam-se as dúvidas que atormentavam advogados, banqueiros e políticos em frente do espelho. Gravata estampada combina com camisa listrada? Camisa xadrez fica bem com gravata florida? Adotada há algum tempo por estilistas como Gucci, Giorgio Armani e, no Brasil, Ricardo Almeida, a monocromia estourou nas passarelas, foi abraçada com entusiasmo no mundo do show business e promete conquistar consumidores comuns.

"A combinação pode ser feita com camisa e gravata em tons iguais ou aproximados", explica Almeida. Para quem tem medo de errar, o melhor é começar com um conjunto preto, aconselha o estilista. Aparentemente pesada, a combinação imortalizada pelos velhos mafiosos pode produzir um resultado muito elegante. "Fica bem em homens de qualquer idade", garante o especialista em moda Fernando de Barros, da revista Playboy. Além da cor única, a nova tendência pede gravata de 9,5 centímetros de largura e camisa com gola mais comprida. Costume com paletó de três botões garante à composição o toque final de modernidade.




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