
Na obtenção
desses resultados, movimentam-se engrenagens bem menos
charmosas do que se supõe ao ver as modelos. São
engenheiros, químicos e biólogos, mecânicos e
geneticistas que se esfalfam para atender aos pedidos das
griffes de moda. A pedido de Renato Kherlakian, dono da
Zoomp, por exemplo, a DuPont do Brasil desenvolveu pela
primeira vez na história da indústria têxtil um tecido
100% Lycra. O resultado é impressionante. Pura
tecnologia. Os tops, vestidos e saias
sensualíssimos porque se ajustam perfeitamente ao corpo
parecem feitos de restos de balão de aniversário de
criança. Com a vantagem de que o tecido não aperta nem
esquenta.
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Leveza: a mistura de
fios cada vez mais finos cria variantes
híbridas, como a capa de tecido holográfico (à esq).
Tecidos líquidos: puro
poliéster com aparência de água por causa de
fibras multifacetadas que aumentam a refração
da luz (à dir). |
| Fotos:
Luis Gomes |
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Pernas
de náilon
Associada aos primórdios da
Revolução Industrial, com a introdução de máquinas e
linhas de produção, a indústria têxtil deu o primeiro
grande salto no terreno das fibras sintéticas durante a
II Guerra Mundial. A partir de resíduos de petróleo, o
pesquisador americano Wallace Carothers inventou a
poliamida, a fibra de náilon. No início, os propósitos
eram apenas bélicos. Substituir a seda (caríssima) na
fabricação de pára-quedas. Terminada a guerra, o fio
de laboratório foi parar no armário dos civis.
Particularmente nas pernas das civis, sob a forma das
revolucionárias, para a época, meias de náilon. As
roupas baratearam. Ganharam durabilidade. Não amassavam.
Podiam ser jogadas na máquina de lavar e estavam prontas
para o uso. Popularizado nos Estados Unidos, o tecido
sintético viveu um apogeu seguido de rápida
decadência. As roupas feitas de náilon eram ásperas e
pesadas demais. O suor do corpo empapava e empesteava as
fibras artificiais, que viraram sinônimo de artigo
barato, cafona.
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Na mistura de
fibras de algodão com náilon, o conjunto de
calça e jaqueta ganha estrutura sem perder a
maciez. O vestido luminoso (à
dir.), levíssimo, mantém a
transparência sem esquentar demais |
| Fotos:
Luis Gomes |
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No
início dos anos 80, a redenção começou a se esboçar
com o aperfeiçoamento das microfibras. A indústria
caminhava em direção a sua segunda grande
transformação, com base em duas descobertas e uma
invenção. As descobertas: quanto mais finos os fios,
maior a facilidade com que o ar quente do corpo circula
para o meio externo. "Impede-se, assim, que a
transpiração se acumule no tecido", explica Maria
José Orione, engenheira têxtil da confeção Zoomp.
Também se constatou que quanto mais fino o fio, maior a
maciez do pano. Restava apenas inventar máquinas capazes
de produzir a fibra.
Quem vê uma
elegante saia de microfibra não imagina que, no começo,
aquilo foi uma pasta informe de derivados de petróleo.
Dissolvida e filtrada, a maçaroca é empurrada sob
pressão por aberturas semelhantes às de um chuveiro,
cada fiozinho
e hoje se produzem fios
de 4 centésimos de milésimo de milímetro!
saindo por um orifício desses. A nova tecnologia deu
tão certo que tecidos com a durabilidade dos sintéticos
e o conforto e caimento da seda nobre invadiram as araras
das lojas de roupas.
A maravilha do
momento são os tecidos brilhantes. Há menos de um ano,
a M.Officer lançou pela primeira vez no Brasil os
chamados tecidos líquidos, com uma flexibilidade e um
brilho que emulam os dos fluidos. Com décadas de
pesquisa sobre a refração da luz nos panos, os
cientistas descobriram que o formato dos fios, por si
só, é capaz de alterar a luminosidade de uma roupa.
Quanto mais facetado, maior o brilho (veja quadro). Os "chuveiros" dos
quais saem os fios foram adaptados para produzir
finíssimos filamentos com seção hexagonal ou trilobal,
com um resultado espetacular, se comparado ao brilho
tradicionalmente obtido a partir de bordados em paetês
ou da aplicação de vernizes no tecido, ambos ruins para
a maleabilidade da roupa.
Vestido de
água
Com tantas variedades de fios, as grandes tecelagens
agora se dedicam a misturar tudo em panos híbridos. No
Morumbi Fashion, a confecção M.Officer apresenta o
tecido holográfico, composto de poliéster, náilon e
viscose. Fino como papel, translúcido como água e
maleável como seda, o tecido está em capas e casacos
para o inverno. Apesar da aparência leve, as peças são
extremamente quentes. Também graças à possibilidade de
combinação de fios, a Zoomp conseguiu dar ao brim de
algodão rigidez e brilho, sem perder a flexiblidade,
misturando-o ao náilon. Combinados ao elastano,
algodão, seda, veludo e lã preservam suas
características e ganham as vantagens da fibra
sintética. "Com apenas 3% de elastano é possível
dar flexibilidade aos modelos", diz Denise Sakuma,
coordenadora de moda da DuPont.
As possibilidades
são tantas que a indústria já pode surfar na onda
ecológica e fabricar tecidos em processos não
poluentes. A empresa inglesa Courtaulds criou o liocel,
um fio feito a partir da polpa da madeira, que consumiu
dezesseis anos de estudos e cerca de 500 milhões de
dólares. Composto 100% de celulose, o liocel é tão
confortável quanto o algodão. Com uma vantagem: é
tenaz e flexível ao mesmo tempo. O selo verde é dado
por causa dos solventes usados no processo de
fabricação, todos biodegradáveis. É a terceira onda
dos tecidos sintéticos.