Primeira-dama

A virada de Ruth

Daniela Pinheiro

Fotos: Ricardo Stuckert
Ruth em uma das viagens do Comunidade em Caririaçu, no
Ceará, e no escritório de São Paulo: rotina de doze horas de
trabalho por dia, sem nunca dormir antes da meia-noite

"Ói lá, é a mulé do hômi!", grita um passante apontando para Ruth Cardoso, que visitava a cidade de Caririaçu, a 500 quilômetros de Fortaleza, em viagem pelo programa social do governo que ela dirige, o Comunidade Solidária. Seus assessores, constrangidos, trocam olhares para identificar nela algum sinal de irritação, mas nada. Ela apenas sorri. Três anos atrás, Ruth reclamaria simplesmente ao ouvir a expressão "primeira-dama". O sorriso diante da expressão "mulé do hômi" é uma entre várias mudanças visíveis no comportamento de Ruth. Ela está mais à vontade, menos constrangida pelas obrigações que seu papel impõe, parece mais feliz. Emagreceu 4 quilos e renovou o guarda-roupa. Ruth, que no início do mandato de Fernando Henrique parecia exilada em Brasília contra a vontade, agora transita sem grande fricção pelo mundo do poder.

Pode-se verificar a virada de Ruth nos menores gestos. Em 1994 ela havia dito que o partido tinha "o ACM, mas também o Gustavo Krause e Reinhold Stephanes", numa declaração que obrigou Fernando Henrique a ligar para o senador Antonio Carlos Magalhães pedindo desculpa. No início do ano, durante a posse de seu genro David Zylberstajn na Agência Nacional de Petróleo, ela dividiu sorridente o salão com Antonio Carlos Magalhães e todos os caciques do PFL. Sobre o episódio do passado em que separou o PFL em dois blocos distintos, tem hoje a visão de um observador mais experiente. "Eu falei ingenuamente sobre os quadros partidários. Hoje eu não daria nomes", admite. A amiga Ruth Escobar, empresária teatral e companheira de militância feminista, tem uma explicação para a nova postura da primeira-dama. "No começo do governo ela estava tensa, não sabia com o que teria de lidar. Hoje, sabe onde pode pisar. Está exuberante."


Na USP, com orientandos
do programa de capacitação
e viajando com estudantes:
trinta cidades visitadas
em um ano
Fotos: Ricardo Stuckert  

A própria Ruth reconhece que o começo foi difícil. Ela precisou abdicar de sua vida acadêmica de professora de antropologia na Universidade de São Paulo, USP. Limita-se hoje a orientar cinco teses de doutorado na universidade. Deixou de pesquisar e de publicar. Precisou contentar-se com o papel destacado mas de qualquer maneira secundário em relação ao marido presidente. Isso já seria motivo suficiente para algum aborrecimento no caso de uma mulher de vida profissional sólida e enraizada como Ruth Cardoso. Mas há outros desafios para a mulher de um presidente da República, entre os quais o cerco da corte brasiliense, a exposição pública obrigatória, as cerimônias cansativas e até as câmaras dos fotógrafos sempre atentas. "Quando reclamavam que eu era irascível, eu estava me defendendo. Eu tinha de ser defensiva", conta Ruth Cardoso. Ela havia acabado de assumir um cargo que, para ela, era motivo de constrangimento. Primeira-dama era título associado a um certo cerimonial, alguma atividade assistencialista e muita peruagem tudo de que ela fugia como o diabo da cruz. Em seu lugar, colocadas diante da novidade, as antecessoras no posto apresentaram dois comportamentos padronizados. Ou gostaram imensamente do novo papel, como no caso de Dulce Figueiredo e de Rosane Collor, ou preferiram a discrição absoluta, como Marly Sarney ou Lucy Geisel. Ruth, que odeia comparações com qualquer uma das antecessoras, preferiu um terceiro caminho. Com o Comunidade Solidária, criou seu próprio terreno de atuação. "Fiz uma escolha e não fico triste por isso", garante.

Embora a Ruth 1998 tenha um estilo diferente daquele adotado no início pela Ruth 1995, a atitude geral permanece obviamente a mesma. No escritório do Comunidade em Brasília, por exemplo, ela se recusa a atender prefeitos e deputados. "Eles sabem que não recebo, não recebo mesmo. Eles nem vão mais lá, porque sabem que tenho muito o que fazer", diz. Há duas semanas, quando explodiu em Washington o escândalo do Zipergate de Clinton, ela não poupou críticas a Monica Lewinsky e Paula Jones. "Uma mulher que seis anos depois vem contar uma história dessas... Claro que só quer aparecer. Outra vem e grava aquelas fitas, naquela armação descabida", diz Ruth. Suas mais severas reprimendas são dirigidas à imprensa, que insiste no assunto. "Como a maior potência do mundo pode parar para ficar discutindo com quem dormiu o presidente?" Sua única avaliação positiva no caso é a de Hillary Clinton, que apareceu sorridente ao lado do marido, para defendê-lo. "Que alternativa ela tinha? Ela teve a atitude correta", afirma.

Foi difícil para Ruth se adaptar ao mundo de Brasília, do poder sem privacidade. Acostumou-se às recepções que considerava enjoadas e à bajulação do cargo. Mas o cerco da imprensa a exaspera. Para não se irritar com o que sai nos jornais desenvolveu uma técnica: não lê jornais, quando falam dela ou da família. Quando o namoro do filho Paulo Henrique com Thereza Collor foi estampado com fotos nos principais jornais brasileiros, Ruth recusou-se a ler as notícias sobre esse assunto. Se aprova ou não o namoro, não diz. "É a vida dele", argumenta. Essa situação de exposição lhe dá saudade de São Paulo, onde sente que não é vigiada. Na capital paulista pode freqüentar o restaurante de que gosta, em frente do escritório do Comunidade Solidária, sem que ninguém a incomode. Em Brasília, chegou a desistir do hábito de ir ao cinema. Na última tentativa, ela e Fernando Henrique foram seguidos por um grupo de repórteres que os perseguiram até dentro da sala de exibição, fazendo perguntas sobre o aumento do salário mínimo. A conseqüência vem sendo um jejum de filmes de arte. No Palácio da Alvorada há um cinema, mas a programação não é para ela. "Só mandam filme do tipo Stallone, não dá para ver. Meu filho Paulo Henrique é que gosta. Vai para lá e assiste a todos", conta.

A tranqüilidade de Ruth pode ser medida fisicamente. Há um ano ela passou a fazer caminhadas diárias pelos jardins do Alvorada, quando está em Brasília, e uma hora de esteira, quando está em São Paulo. Perdeu os seus 4 quilos e conseguiu controlar os problemas de colesterol. Mas o que chama mesmo a atenção na primeira-dama é a sua pele. Embora nunca tenha feito plástica (acha um absurdo sujeitar-se às fragilidades e riscos de uma cirurgia em nome da vaidade), ela rejuvenesceu com um tratamento à base de ácido retinóico, importado dos Estados Unidos, misturado a uma fórmula natural, encomendada em farmácia homeopática. Seu guarda-roupa também mudou. A antropóloga que usava calças de elástico na cintura e colares artesanais de madeira hoje tem um armário de tailleurs, combinados com jóias de designers como Antônio Bernardo e Carla Amorim. O anel de ouro que usa no anular da mão direita foi presente de Lenir Lampréia, mulher do ministro Luiz Felipe Lampréia.

"Eu não tinha essas roupas. Não precisava", diz. Ao contrário dos tempos de professora da USP, quando a filha Luciana lhe comprava as peças ou algumas amigas enchiam uma sacola com roupas que não queriam mais e ela incorporava alguns desses refugos ao seu guarda-roupa, Ruth é hoje cliente de butiques. Chega depois de a loja fechar e passa até duas horas escolhendo os modelos. Embora ainda consulte a amiga e estilista Marjorie Gueller, de São Paulo, quando tem uma viagem importante é mesmo Ruth quem decide o que usar. Foi ela quem procurou o estilista Lino Villaventura (conhecido por suas roupas extravagantes e transparências) para encomendar o vestido que usaria no banquete no Palácio de Buckingham, em companhia da rainha da Inglaterra. "Ele me cobrou mais barato, mas eu faço questão de pagar tudo. Não aceito que me dêem nada de graça", diz.

Os dias de trabalho de Ruth, que duram em média doze horas, começam sempre às 9. Ela dorme tarde, sempre depois da meia-noite, e se diz "burra de manhã". No último mês, decidiu ver como estavam indo os programas do Comunidade e visitou vários municípios. Beijou crianças, falou com a população, mas não fez promessas. Ruth acha que as viagens são fundamentais para conversar com os estudantes, os professores envolvidos no Comunidade, e ouvir críticas. Mas tudo com rigor metodológico. No interior do Ceará, ao perceber que os moradores de uma cidade prolongavam as homenagens além do limite do relógio, achou que deveriam encerrar as apresentações. "Não sou a Rosane Collor, que pode deixar um avião da FAB esperando", diz.

Em Exu, no interior de Pernambuco: luta constante contra o assédio dos fotógrafos
Foto: Ricardo Stuckert  

Em Brasília, esse rigor com os horários atinge um pouco a rotina de Fernando Henrique em casa. Quando ela está na cidade, o presidente faz com que os jantares no Alvorada terminem mais cedo, geralmente por volta das 11 da noite. Sem ela, as conversas com políticos, economistas e empresários vão até 1 e meia da manhã. Aos domingos, quando Ruth está em Brasília, Fernando Henrique não recebe políticos, com exceção do grupo mais próximo, que vai de Sérgio Motta, por amizade antiga, a Pedro Malan, pela importância do posto. O próprio Fernando Henrique teve de se adaptar à posição de primeira-dama de Ruth. Em 1995, o casal viajou à China. Durante um jantar na embaixada, o presidente levantou um brinde "a todo o mulherio". O embaixador na China, João Augusto de Médicis, emendou imediatamente, brindando à sua própria mulher. Ruth continuou: "Em nome do mulherio, vamos saudar essa maravilha que é um homem brindar à própria mulher". No final do ano passado, em Londres, Fernando Henrique já anunciava a chegada da primeira-dama a cada ambiente pedindo licença para a entrada de "milady".

Apesar de tanta familiaridade, Ruth desconversa quando o assunto é a perspectiva de passar mais quatro anos morando no Palácio da Alvorada, com a provável reeleição de Fernando Henrique. Pelo estatuto do Comunidade Solidária, a presidente do conselho não pode ser reeleita, o que significa que Ruth Cardoso teria de sair do cargo no próximo ano. Ela acha que alterar o estatuto pode parecer casuísmo, e poderia também parecer confiança exagerada na continuação de seu projeto. "Eu acho que ele (FHC) pode não ser reeleito. Ele não estava praticamente eleito para a prefeitura de São Paulo e não perdeu?", avalia.




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