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Edição 2099

11 de fevereiro de 2009
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Música
O drama sem solução da ópera

A Metropolitan de Nova York exibe espetáculos ao ar livre
e em telas de cinema do mundo inteiro para atrair novas
plateias. Mas não há como esconder que o caso de amor
entre público e ópera está chegando ao fim


Sérgio Martins

Fotos Sara Krulwich/The New York Times e Jennifer Szymaszek/AP

CANTORIA NA PRAÇA
Encenação de Madame Butterfly em Times Square, idealizada por Peter Gelb (na foto menor), diretor da Metropolitan: a ordem é popularizar

Em setembro de 2006, os turistas que passeavam pela Times Square, em Nova York, depararam com uma cena inusitada: uma pequena multidão assistia a Madame Butterfly, de Giacomo Puccini, em telões espalhados pela praça, numa transmissão ao vivo da prestigiada Metropolitan Opera. A experiência deu tão certo que a Metropolitan a repetiu nos dois anos seguintes. E, em dezembro do mesmo ano, estendeu sua programação às salas de cinema das principais capitais do mundo (na semana passada, o Brasil entrou na lista de agraciados: até o fim de maio serão exibidas aqui obras-primas como Orfeu e Eurídice, Lucia de Lammermoor, Madame Butterfly, La Sonnambula e La Cenerentola). Mais que uma boa estratégia de marketing, a iniciativa da Metropolitan é um sinal de alerta. A ópera está em franca crise, e boas ideias são tão vitais quanto o esmero com os espetáculos. Nesse quesito, a casa de Nova York tem feito sua parte. "A ópera não é para todo tipo de público, mas minha missão é ainda assim levá-la ao maior número possível de pessoas", disse Peter Gelb, diretor-geral da Metropolitan Opera, em entrevista a VEJA.

Pelo menos três fatores contribuem para o declínio das casas de ópera. O primeiro é o alto valor dos ingressos. Nos Estados Unidos, um bom lugar num espetáculo de primeira linha não sai por menos de 150 reais – na Europa, o preço pode até triplicar. Com isso, perde-se a chance de atrair um público jovem, que não tem dinheiro para programas dessa categoria. O segundo fator é a falta de renovação. Por mais primorosas que sejam – e são – as obras de Mozart, Giuseppe Verdi e Richard Wagner, não há quem aguente assistir ao mesmo repertório todos os anos, ainda que algumas encenações tenham sido modernizadas (em Salzburgo, anos atrás, o diretor de cena de As Bodas de Fígaro teve o desplante de colocar Cherubino sorvendo uma lata de refrigerante enquanto cantava sua ária). Não há saída fácil à vista, uma vez que a nova safra de compositores não consegue agradar. Em 2007, a Metropolitan apresentou O Último Imperador, do compositor chinês Tan Dun, e ganhou um massacre do crítico Anthony Tommasini, do New York Times. Por fim, há o que se pode chamar de "o fator Três Tenores". Em 1990, José Carreras, Luciano Pavarotti e Plácido Domingo, mais o regente Zubin Mehta, protagonizaram um espetáculo nas Termas de Caracalla, em Roma. O registro da apresentação vendeu 6 milhões de cópias e ajudou a popularizar o estilo. Ao mesmo tempo, colocou em relevo uma verdade dura para os que se dedicam ao gênero: o drama de uma ópera inteira é extremamente indigesto ao público moderno. Em pequenas porções, como numa reunião em que tenores carismáticos interpretam árias e canções populares, pode agradar ao paladar. Outra agravante: o recurso desde então foi tantas vezes repetido pelo trio e por outros artistas sem talento que virou sinônimo de ópera – e ópera ruim.

Peter Gelb, que assumiu a Metropolitan Opera em 2006, tem sua parcela de culpa. Ele foi o responsável pelo departamento de música clássica da gravadora Sony e ajudou a banalizar o gênero. Entre os malefícios que Gelb causou estão a trilha sonora de Titanic e a cantora Charlotte Church, anun-ciada como a "versão mirim de Maria Callas" (promessa que nunca chegou a se concretizar). Quando assumiu a casa de ópera de Nova York, Gelb encontrou um déficit de 18 milhões de dólares. O executivo tomou, então, medidas emergenciais, como a transmissão da ópera em praças e cinemas, e perdoou a velhos desafetos. O casal Angela Gheorghiu e Roberto Alagna, que saíra corrido da Metropolitan anos antes por mau comportamento, foi reintegrado. "As estrelas têm de ser mantidas a qualquer custo", afirma Gelb, que também tentou incorporar compositores pop ao dia-a-dia da Metropolitan. As mudanças de fato renderam uma sobrevida à casa, que em 2007 teve uma receita de 252 milhões de dólares.

Os prognósticos para 2009, no entanto, são nebulosos. Desta vez, a culpada é a crise financeira mundial. A Metropolitan, que vive principalmente de bilheteria e de patrocinadores, já perdeu parte de seu fa-turamento. Gelb terá de cortar funcionários e implorar aos cantores que aceitem receber cachês menores. Ainda assim, a situação da Metropolitan é até con-fortável se comparada à de outras casas de ópera nos Estados Unidos e ao redor do mundo (veja o quadro abaixo). "Se tudo isso não der certo, pelo menos terei feito a minha parte", diz o diretor. Não é propriamente um grand finale.

 



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