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Edição 2099

11 de fevereiro de 2009
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Livros
Bem ao norte da terra prometida

Um divertido policial situado em um esdrúxulo Alasca judaico


Jerônimo Teixeira

Marcio Jose Sanchez/AP
HISTÓRIA ALTERNATIVA
Michael Chabon: gangues de judeus ortodoxos e um possível Messias viciado em heroína

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O estado de Israel não foi criado em 1948 – esse ano fatal marca, ao contrário, a derrota definitiva dos sionistas, expulsos da Palestina por tiranos árabes. Para grande parte dos que conseguiram fugir ou sobreviver ao holocausto nazista na Europa, a terra prometida foi o Alasca, cujo distrito de Sitka fora convertido em enclave judaico – e assim se manteve por sessenta anos, até os Estados Unidos reverterem a decisão, com consequên-cias incertas para os judeus. Essa história alternativa configura o cenário de Associação Judaica de Polícia (tradução de Luiz A. de Araújo; Com-panhia das Letras; 472 páginas; 58 reais), romance policial de cunho satírico do americano Michael Chabon, de 44 anos. Embora tenha lá sua inspiração histórica – Harold Ickes, secretário do Interior do governo Roosevelt, propôs que o Alasca fosse aberto à imigração de judeus perseguidos, mas o projeto nunca foi adiante –, o universo paralelo conjurado por Chabon é um ostensivo absurdo: uma terra fria e suja, dominada por gangues hassídicas e assombrada pela esperança na vinda do Messias. O talento ficcional de Chabon revela-se no modo como ele torna esse mundo plausível e palpável.

Chabon é celebrado por suas incursões na cultura pop. Seu romance As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay prestava homenagem aos quadrinhos. Associação Judaica de Polícia paga tributo ao policial noir. No modelo dos detetives criados por Dashiell Hammett e Raymond Chandler, o policial Meyer Landsman, herói do livro, é um tipo desencantado e durão. Também é um obstinado: mesmo desautorizado pelos superiores, insiste em investigar o assassinato do filho de um influente rabino ortodoxo. Como alegoria política, Associação Judaica de Polícia não chega perto da sutileza crítica de Complô contra a América, de Philip Roth, outra especulação ficcional sobre uma versão alternativa da história americana. Mas o vira-página de Chabon guarda considerações curiosas sobre o que já foi chamado de "condição judaica". Seus personagens vivem permanentemente deslocados, sem lar, e nutrem esperanças em um redentor que nunca vem (ou, pior, que talvez venha como um viciado em heroína que morrerá baleado em um hotel sórdido). É uma situação melancólica – da qual Michael Chabon, muito judaicamente, tira grande proveito cômico.

Sinais dos tempos

"Quinhentas testemunhas de todo o distrito juraram ter visto na luz difusa da aurora boreal o contorno de um rosto humano de barba e peót. Seguiram-se violentas discussões sobre a identidade do sábio barbudo no céu. Na semana passada, em meio ao pânico e às penas de um matadouro koscher, uma galinha virou para o shochet, que estava erguendo a faca ritual, e anunciou em aramaico o iminente advento do Messias. A transcedental penosa ainda fez diversas previsões, embora tenha se eximido de mencionar a sopa de que iria participar quando voltasse a se calar como o Próprio Deus."

Trecho de Associação Judaica de Polícia

 



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