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Edição 2099

11 de fevereiro de 2009
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Especial
Onde Darwin é só mais uma teoria

Nas escolas evangélicas, os alunos aprendem
que o evolucionismo existe, mas que a razão
está com a Bíblia


Carolina Romanini

Lailson Santos

Questão de prioridade
Alunos do Colégio Adventista Unasp com seus livros de ciências: o darwinismo é apresentado em segundo plano


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Origens da Origem
Da internet
Site da Universidade de Cambridge, com a obra completa de Charles Darwin, desde seu trabalho sobre a teoria da evolução das espécies, cartas, manuscritos, diários até ilustrações originais

As escolas brasileiras ligadas a instituições religiosas sempre ensinaram o criacionismo. Seja nas aulas de religião, seja nos cultos, os alunos aprendem que Deus criou o mundo e todos os seres que o habitam. A triste novidade é que, na maioria das escolas mantidas por confissões evangélicas, o criacionismo passou a ser ensinado também nas aulas de ciências e de biologia, dividindo território com o evolucionismo de Charles Darwin. No fim do ano passado, o Colégio Presbiteriano Mackenzie, de São Paulo, trocou os livros convencionais de ciências do ensino fundamental I por apostilas traduzidas da Associação Internacional das Escolas Cristãs nos Estados Unidos. Com o novo material didático, até a 4ª série os alunos da instituição aprendem apenas a versão criacionista do mundo e da vida. Da 5ª série em diante, Darwin entra em cena. O evolucionismo passa a fazer parte das aulas de biologia, mas informa-se aos alunos que, entre as duas teorias, a escola prefere aquela amparada na Bíblia. "Não viramos criacionistas do dia para a noite. Nossa escola tem 138 anos, e durante todo esse tempo fomos criacionistas", diz a professora Débora Muniz, diretora do Colégio Presbiteriano Mackenzie.

Os adventistas, que mantêm a maior rede de escolas evangélicas do país, com 130 000 alunos, optaram por outro caminho para ensinar o criacionismo em sala de aula. Há cinco anos, empreenderam uma total reformulação nos livros didáticos de ciências produzidos por uma das 56 editoras mantidas pela igreja. Agora, os livros contrapõem a teoria bíblica à ciência em diversos capítulos, deixando claro que consideram que a segunda nem sempre é verdadeira. No capítulo das origens do universo e da vida, Darwin é impiedosamente surrado. Diz o texto a certa altura, tropeçando no português: "Muitos ensinam a evolução como se ela fosse um fato cientificamente comprovado. Isso não é verdade e nem honesto, já que não se podem provar cientificamente as origens da vida". Os criacionistas sustentam suas posições antidarwinistas alegando que o criacionismo não se mantém apenas pela fé, mas também pela comprovação científica. Diz o professor Nahor Neves de Souza Júnior, do Centro Universitário Adventista de São Paulo: "As descrições literais e históricas da Bíblia, incluindo o livro do Gênesis, estão sendo progressivamente confirmadas pelas mais recentes descobertas arqueológicas no Oriente Médio".

Julio Vilela

Em nome do Senhor
Débora Muniz, diretora do Colégio Presbiteriano Mackenzie, de São Paulo, defende a troca dos livros de ciências convencionais por apostilas de conteúdo criacionista até a 4ª série, feita no ano passado: "O evolucionismo é apresentado no momento certo"

As escolas evangélicas batistas veem com desconfiança o material didático produzido especialmente para introduzir o criacionismo nas aulas de ciências – tanto o importado quanto o preparado por autores brasileiros. Os batistas preferem usar os livros didáticos convencionais, utilizados também nas escolas laicas, e introduzir o criacionismo por meio da Bíblia e de livros de apoio sobre temas religiosos. O Ministério da Educação não apoia o ensino do criacionismo nas aulas de ciências, mas não pode proibi-lo. A única exigência do órgão é que os livros didáticos, mesmo defendendo a teoria bíblica da criação, apresentem simultaneamente a versão evolucionista consagrada pela ciência. "Não aprovamos livro didático que trate do criacionismo apenas. Temos uma posição muito clara, a de que o criacionismo é para ser lecionado e discutido na aula de religião", diz Maria do Pilar Lacerda, secretária de Educação Básica do Ministério da Educação. Essa conduta é adotada pelas escolas católicas, que evidentemente sustentam os dogmas bíblicos, mas separam a religião da ciência. "Sabemos que o criacionismo é uma teoria de fé e que o evolucionismo é ciência. Não podemos contrastá-los em sala de aula", diz o paranaense Dilnei Lorenzi, secretário executivo da Associação Nacional de Educação Católica.

Nas salas de aula, as escolas evangélicas não chegam a desqualificar as ideias de Darwin como fraudes. Elas aceitam que os animais evoluam ao longo das eras, mas não que uma espécie possa gerar outra completamente diferente, e muito menos que o homem e os macacos tenham ancestrais comuns. Com relação a outros aspectos do mundo animal, os evangélicos têm posições bem mais controvertidas. Os fósseis seriam restos de animais que morreram durante o dilúvio bíblico, que data de 2400 a.C. Os dinossauros também teriam sido extintos na mesma enxurrada, e não 65 milhões de anos atrás, como ensinam os cientistas. Os dinossauros não poderiam ter existido há tanto tempo – os evangélicos acreditam que o mundo tenha sido criado em 4004 a.C., data estabelecida no século XVII pelo bispo irlandês James Ussher.

Os alunos das escolas evangélicas não são necessariamente seguidores da religião pela qual elas se orientam. Nas escolas adventistas, por exemplo, 70% dos estudantes não seguem essa doutrina. Os pais de alunos das escolas evangélicas não costumam reclamar do fato de seus filhos serem instruídos no criacionismo em detrimento da ciência. Dizem ter escolhido a escola por acreditar que ela incute nas crianças valores morais, éticos e cristãos. "Nossa escola forma verdadeiros cidadãos. De que adianta o adolescente estar preparado para o vestibular se não tiver uma boa formação como ser humano?", diz a baiana Selma Reis Guedes, uma das diretoras do Colégio Batista Brasileiro, de São Paulo.

Lailson Santos

Longe do muro
Selma Reis Guedes é a responsável pelo atendimento religioso de pais e alunos no Colégio Batista Brasileiro, de São Paulo, que usa livros de ciência convencionais, mas defende o criacionismo. "Não podemos ficar em cima do muro. Por que não ensinar criacionismo se é nisso que acreditamos?", ela diz

À época em que governava o Rio de Janeiro, Rosinha Garotinho tentou implantar aulas de religião com viés criacionista nas escolas do estado. Em abril de 2004, a governadora chegou a declarar publicamente que não acreditava na teoria da evolução. O projeto causou polêmica, principalmente entre a comunidade científica, e foi oficialmente implantado, mas não vingou. A pedido do arcebispo do Rio de Janeiro, dom Eusébio Scheid, o novo prefeito do Rio, Eduardo Paes, que é católico, pretende implantar o ensino religioso nas escolas públicas do município. Segundo fontes da Secretaria da Educação da prefeitura carioca, no entanto, o mais provável é que o projeto não saia do papel.

Embora as escolas evangélicas brasileiras procurem conciliar as ideias darwinistas com o criacionismo, a verdade é que, para os defensores da versão bíblica da criação do mundo, a teoria da evolução representa um inimigo a ser combatido a todo custo. Nos Estados Unidos, a oposição ao darwinismo se tornou uma guerra que frequentemente chega aos tribunais. Nos últimos anos, muitas escolas americanas de ensino fundamental e médio simplesmente subs–tituí-ram os ensinamentos de Darwin pelo criacionismo nas aulas de ciências e de biologia. Duas dezenas de estados americanos já criaram leis que obrigam os colégios a ensinar o criacionismo ao lado da teoria da evolução. O último deles foi a Louisiana, em junho do ano passado. A manobra é constantemente motivo de processos judiciais por parte de pais de alunos – que em geral são derrotados nas decisões dos juízes.

Os criacionistas americanos se reúnem em organizações influentes e com forte lobby político. De tempos em tempos eles aperfeiçoam seu arsenal de argumentos para desqualificar Darwin. Um dos mais recentes é que certos elementos da natureza são tão complexos que só podem ter sido criados por uma inteligência superior. Como o olho humano. No reino animal, um bom exemplo de design inteligente é o besouro-bombardeiro, chamado de "o besouro de Deus". Comum em várias regiões do mundo, esse artrópode é dono de um sistema de ataque que lembra uma complexa arma militar. Duas bolsas localizadas em seu abdômen armazenam, separadamente, água oxigenada e hidroquinona, substâncias que entram em ebulição ao ser misturadas. Diante do predador, o besouro abre uma câmara de combustão e mistura os dois líquidos. Depois comprime a bolsa, disparando a solução tóxica por meio de um jato fortíssimo.

Os evolucionistas explicam que as substâncias que o besouro armazena são comumente produzidas por artrópodes, como também são corriqueiras nesses animais as vesículas de reserva de líquidos. Por acaso, ao longo da evolução, líquidos e bolsa se concentraram numa determinada espécie. De qualquer forma, a ideia de que os seres vivos são o resultado de um planejamento cuidadoso realizado por um designer inteligente não resiste ao menor exame. Veja o exemplo do engasgo, que pode levar uma pessoa à asfixia e à morte. Os seres humanos engasgam porque têm a laringe em posição muito baixa na garganta, se comparada à dos chimpanzés e à da maioria dos mamíferos. Esse arranjo adaptativo permite a modulação dos sons e, por consequência, a fala. É excelente do ponto de vista da sobrevivência da espécie, mas atrapalha quando se trata de respirar e comer ao mesmo tempo. Se o homem tivesse tido um designer mais inteligente, esse problema teria sido evitado com a simples colocação das tubulações – a da respiração e a da alimentação – bem distante uma da outra. É por isso que o biólogo Francisco Ayala, da Universidade da Califórnia, definiu a seleção natural como o "design sem um designer".

Nelio Rodrigues

Apoio discreto
Professor e alunos numa aula de ciências no Colégio Cristão, de Belo Horizonte, de orientação batista: o criacionismo aparece só em materiais de apoio

A mais recente estratégia dos criacionistas americanos para implantar os dogmas da Bíblia nas aulas de ciências das escolas públicas é sustentar o discurso de que a liberdade acadêmica deve ser preservada a qualquer custo. O texto da lei que tornou obrigatório o ensino do criacionismo nas escolas da Louisiana afirma que é preciso "ajudar os professores a criar nas escolas um ambiente que promova o pensamento crítico, a análise lógica e a discussão objetiva das teorias científicas". Além disso, diz a lei, "deve-se incentivar os alunos a analisar com objetividade as teorias estudadas". São sábios conselhos, ninguém duvida. Apenas não estão a serviço do aperfeiçoamento das instituições acadêmicas, mas das aspirações dos criacionistas de universalizar suas ideias nas salas de aula. O conceito de liberdade acadêmica é o tema central do primeiro filme destinado a panfletar as ideias criacionistas, Expelled: No Intelligence Allowed, lançado nos Estados Unidos há dez meses (e massacrado pela crítica). O filme denuncia uma suposta conspiração por parte da comunidade científica americana contra o criacionismo. Uma pesquisa recente da Universidade da Pensilvânia mostrou que, nos Estados Unidos, um em cada oito professores do ensino médio apresenta o criacionismo a seus alunos como "uma alternativa cientificamente válida para a explicação darwinista sobre a origem das espécies". No Brasil, não existem estatísticas sobre o assunto, mas, pelo avanço criacionista nas aulas de ciências das escolas evangélicas, pode-se apostar que os dogmas da Bíblia estão em alta no meio educacional.

O julgamento do macaco

Em 1925, o professor de biologia John T. Scopes, de 24 anos, foi julgado por violar a lei que proibia o ensino da teoria da evolução nas escolas públicas do Tennessee. "O julgamento do macaco", como ficou conhecido, contrapôs o promotor William Jennings Bryan, candidato derrotado três vezes à Presidência dos Estados Unidos, ao advogado Clarence Darrow e deu visibilidade global ao tema. Scopes foi condenado a pagar a irrisória multa de 100 dólares, mais tarde revogada.

CONFRONTO NO TRIBUNAL
Spencer Tracy e Fredric March em O Vento Será Tua Herança

A duração do dia do Senhor

"O julgamento do macaco" chegou às telas do cinema pela primeira vez em 1960, com O Vento Será Tua Herança. Ao lado, a transcrição de trecho do debate entre os personagens Henry Drummond (o advogado de defesa representado por Spencer Tracy) e Matthew Harrison Brady (o promotor interpretado por Fredric March). Na versão cinematográfica, a defesa usou a Bíblia para demonstrar a fragilidade das teses do criacionismo.

Brady: o bispo Ussher, estudioso da Bíblia, determinou dia e hora exatos da criação. Deus iniciou a criação em 23 de outubro do ano 4004 a.C., às 9 horas.

Drummond: no horário da costa leste ou das Montanhas Rochosas? Não era horário de verão, já que Deus não criou o sol antes do quarto dia, certo?

Brady: certo.

Drummond: quanto tempo o senhor acha que durou esse primeiro dia? Vinte e quatro horas?

Brady: a Bíblia diz que foi um dia.

Drummond: não havia sol. Como o senhor sabe quanto tempo durou? É possível que tenha durado 25 horas, já que não havia um método para saber?

Brady: é possível.

Drummond: o primeiro dia, tal qual descrito no livro do Gênesis, poderia ter durado por tempo indeterminado?

Brady: quero dizer apenas que não foi necessariamente um dia de 24 horas.

Drummond: poderia ter durado uma semana, um ano, 100 anos ou 10 milhões de anos. A Bíblia é um livro. Um bom livro, mas não o único.

Brady: é a palavra revelada por Deus aos homens que a escreveram.

Drummond: como o senhor pode saber que Deus não falou com Charles Darwin?

Brady: Deus ordena que eu me oponha aos ensinamentos malignos desse homem.

Drummond: Deus fala com o senhor? Diz-lhe o que é certo e errado?

Brady: sim!



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