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Internacional Enrolado com lobistas
e sonegadores, Obama põe
O presidente Barack Obama, que durante a campanha prometeu realizar "a mais radical reforma ética da história", foi à televisão para fazer uma confissão sem atenuantes: I screwed up admitiu, recorrendo a uma expressão pouco presidencial equivalente, em informalidade e clareza, ao brasileiríssimo "pisei na bola". Obama screwed up porque seu indicado para secretário da Saúde, o ex-senador Tom Daschle, deixou de pagar 128 000 dólares de imposto. Daschle não informou ao Fisco que seu trabalho lhe dava carro com motorista, forma de renda que tem de ser declarada. Obama também screwed up porque Nancy Killefer, escolhida para zelar pela eficiência dos trabalhos na Casa Branca, não pagou 950 dólares de imposto referente à contratação de uma babá. Nancy Killefer renunciou à indicação na manhã de terça-feira. Horas depois, foi a vez de Tom Daschle. Em vez de focar na crise econômica, cada vez mais ameaçadora, Obama passou o dia falando de delinquências fiscais. O presidente lamentou a saída dos ex-futuros auxiliares, sobretudo a de Daschle, notoriamente equipado para a enorme tarefa de criar um sistema universal de saúde pública, mas disse que o corte na própria carne era importante para que os americanos recebessem a mensagem certa: "A mensagem de que não há duas leis, uma para as autoridades e outra para o cidadão comum que paga seus impostos", disse. O defeito da mensagem é que o secretário do Tesouro, Tim Geithner, deixou de pagar 34 000 dólares ao Fisco e está no pleno gozo do posto. De 2001 a 2004, Geithner deveria ter contribuído como autônomo para a previdência e a saúde, mas recebeu a parcela patronal e, em vez de ir ao guichê, embolsou o dinheiro. O Fisco pegou o erro referente a 2003 e 2004, Geithner pagou o que devia e se fingiu de morto sobre o erro dos anos anteriores. Ao contrário do cidadão comum, foi beneficiado pela interpretação camarada de que errou sem querer e, claro, beneficiado também pela urgência da crise que terá de domar. Quem suspeita que há sonegadores demais na política americana precisa lembrar que as nomeações presidenciais (não todas) são escrutinadas pela Comissão de Finanças do Senado, que, entre outras coisas, analisa com lupa a declaração de renda dos indicados. Se o Brasil adotasse o critério com a mesma seriedade, choveriam dólares antes que Renan Calheiros, o do laranjal, fosse ministro da Justiça ou Jader Barbalho, o do ranário, assumisse o Ministério da Previdência. Os equívocos fiscais dos democratas deram aos republicanos um discurso e uma piada. A piada é que está explicado por que os democratas não se opõem a aumentos de impostos: porque, seja o imposto alto ou baixo, eles não pagam mesmo. O discurso é que a promessa de rigor ético de Obama era patacoada de campanha, já que, mesmo quando soube das heterodoxias tributárias dos escolhidos, não achou que deveria buscar outros nomes. E, como se houvesse duas leis, uma para tubarões e outra para bagres, não pediu a nenhum que renunciasse. Pior. Em sua estreia na Casa Branca, Obama baixou o que está sendo considerado o conjunto de normas éticas mais rigoroso dos tempos modernos nos EUA. Uma delas diz que lobista não trabalha em seu governo. Pois bem. Com a norma em vigor, Obama nomeou William Lynn como braço-direito do secretário de Defesa. Lynn é ex-lobista da Raytheon, a mesma empresa que, à base de um lobby poderoso, forneceu equipamentos ao Sivam, na Amazônia. Obama também nomeou para um alto cargo na Saúde William Corr, ex-lobista de uma organização antitabagista. Como os dois vão trabalhar precisamente nas áreas em que faziam lobby, Obama afirmou que, no caso deles, era imperioso abrir uma exceção. Será lamentável, mas não de todo surpreendente, se qualquer um deles protagonizar aquelas cenas que levam o presidente à TV para dizer: I screwed up.
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