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Edição 2099

11 de fevereiro de 2009
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Entrevista Fernando Pimentel
"É Dilma. Não há plano B"

O ex-prefeito de Belo Horizonte conta como Lula
o sondou para o ministério e diz que, se for para
o governo, ajudará Dilma Rousseff a vencer
a eleição presidencial de 2010


José Edward

Nelio Rodrigues/1º Plano

"Para o presidente Lula, a candidatura de Dilma são favas contadas. Está empolgadíssimo. Tenho uma ligação antiga com ela e ele quer que eu o ajude nas costuras da campanha presidencial"

O ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel poderá ser o mais novo ministro do governo Lula. Ele foi sondado para chefiar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Se confirmado, usará o posto para articular a campanha presidencial da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, sua companheira de luta armada nos anos 70. É um reforço de peso. Pimentel é uma das lideranças mais arejadas do PT. Administrou as contas da capital mineira por dezesseis anos – nove deles como secretário e sete como prefeito. Empreendeu um bom programa de obras, muitas delas em parceria inusitada com o governador tucano Aécio Neves. Aos 57 anos, deixou o cargo com 85% de aprovação. Com esse cacife, poderia ter tentado eleger um sucessor petista em Belo Horizonte. Preferiu, porém, aliar-se a Aécio para levar à vitória um afilhado de ambos, o socialista Marcio Lacerda. A aliança enfureceu os dirigentes petistas, mas mostrou que PT e PSDB podem se entender em determinadas situações. Ele recebeu VEJA em seu escritório na capital mineira.

O presidente Lula o convidou para o ministério?
Não, mas há duas semanas, durante uma reunião no Palácio do Planalto e em um almoço no Alvorada, ele disse que quer me incorporar à sua equipe, provavelmente para uma função na área econômica.

Qual? A chefia do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social?
Acho que meu perfil se encaixa nessa função. Sou um economista com larga experiência administrativa e tenho bom trânsito junto aos sindicatos e ao empresariado.

Parte do PT mineiro tenta barrar seu ingresso no governo federal sob a justificativa de que o senhor entregou a prefeitura de Belo Horizonte a um aliado do PSDB.
A prerrogativa de nomear ministros é exclusiva do presidente da República. Quanto à prefeitura, ocorreu o contrário: ganhamos uma eleição que tinha tudo para ser perdida. O PT atravessava o que eu chamo de "síndrome da derrota". Fazia dezesseis anos que estávamos no poder e o risco de perder era real, pois enfrentaríamos um candidato do governador Aécio Neves, um líder fortíssimo. Em um segundo turno, seriam todos contra o PT. A candidatura do partido foi oferecida a Patrus Ananias (ministro do Desenvolvimento Social), o único que podia nos conduzir à vitória, mas ele não quis. Agora, fica aí se dizendo alijado. A aliança com Aécio permitiu eleger um candidato do nosso campo político.

"Temos de confiar nos líderes do PMDB que são ministros e que, até onde se sabe, trabalham para que seu partido marche conosco em 2010. O fato de o PMDB ter derrotado um petista no Senado não é o fim do mundo"

Por causa dessa aliança, o senhor é acusado de só pensar em se viabilizar como candidato à sucessão de Aécio.
O discurso de 2010 é balela, mas reconheço que há uma divisão no PT. O que está em jogo no partido – não só em Minas, mas em todo o país – é mais complicado. De um lado estão aqueles que, como eu, querem que o PT incorpore a nova classe média, que veio à tona no governo Lula. Do outro, estão aqueles que querem que o PT continue a ser um partido de inspiração bolchevique. Essa gente ainda acredita que o sujeito tem de ler O Capital e rezar pela cartilha marxista-leninista para militar no PT. Um setorzinho xiita de Minas pensa assim e levou de roldão líderes como Patrus Ananias e Luiz Dulci (secretário-geral da Presidência). A maioria do partido e o presidente Lula não têm essa concepção estreita.

Mas, afinal, o senhor é candidato a governador de Minas Gerais?
Não posso dizer que sou, mas meu nome está colocado nessa disputa. Fui prefeito da capital, saí do cargo com um alto índice de aprovação e fiz meu sucessor. Mas minha candidatura depende da estratégia do partido para eleger o próximo presidente e da união do PT de Minas. Além disso, precisamos assegurar aos mineiros que não vamos desconstruir o que o governo Aécio fez de bom.

O candidato do PT não deve criticar Aécio?
Ou reconhecemos que ele faz uma boa gestão, ou chamaremos os mineiros de burros. Afinal, a maioria da população aprova seu governo. Da mesma forma que Aécio diz que, se for candidato a presidente, não será um anti-Lula, se eu for candidato ao governo de Minas, não serei um anti-Aécio.

O senhor diz que o projeto do PT em Minas deve se subordinar ao quadro nacional. Qual será ele?
Tudo indica que a disputa em 2010 se dará entre a ministra Dilma Rousseff e o governador (de São Paulo) José Serra.

O governador Aécio é uma carta fora do baralho?
A meu ver, o jogo está definido no ninho tucano. Aécio pressionará pela realização de prévias mais para preservar seu espaço do que por acreditar que elas ocorrerão. Esticará a corda, mas sabe que não tem mais espaço. As chances de Aécio ser candidato caíram sensivelmente depois que Geraldo Alckmin entrou na equipe de Serra. Serra uniu o PSDB em São Paulo, e o PSDB é um partido eminentemente paulista.

Aécio não pode ser candidato por outro partido?
Aécio é um homem público admirável, com trajetória para ser candidato por qualquer legenda, mas acho muito difícil que ele construa uma candidatura consistente fora do ninho tucano. PT e PSDB são, hoje, os dois únicos partidos com projeto nacional, e ele sabe disso, por ser dotado de um grande senso de realismo. Também não acredito que Aécio comporia uma chapa puro-sangue com Serra. É mais provável que dispute o Senado, para o qual tem eleição praticamente garantida. Dali, poderia articular sua própria candidatura em 2014 ou 2018.

A opção do PT por Dilma é definitiva?
Para o presidente Lula, são favas contadas. Não há plano B. Embora ele não tenha falado abertamente com a ministra sobre sua decisão, está empolgadíssimo. Diz que Dilma é a pessoa mais competente que passou pelo seu governo e também a que tem mais noção da complexidade do país. Tenho uma ligação antiga com ela. Por isso, Lula quer que eu o ajude nas costuras da candidatura presidencial da ministra.

Que vantagens Dilma teria em relação a Serra?
Ela conta com a bandeira dos avanços sociais do governo Lula. Na campanha, vamos ver se o Serra usou mesmo aquele orçamento extraordinário que São Paulo tem para melhorar os indicadores do estado. Além disso, sua visão do Brasil é muito paulista. Dilma é mineira com trajetória no Rio Grande do Sul. Olha o Brasil de forma mais abrangente. É comprometida com o país, eticamente irrepreensível, tem uma imensa capacidade de trabalho e demonstrou preparo ao colocar o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) para andar.

"A queda dos juros poderia ter começado há três meses. Mas, como diz Lula, estamos ganhando o jogo e o Pelé nem entrou em campo. Pelé, no caso, é a redução dos juros, uma arma poderosa de que o país dispõe para enfrentar a crise"

Até os aliados de Dilma dizem que lhe falta jogo de cintura. É verdade?
Ilude-se quem acha que ela não tem traquejo. A ministra já mostrou sua capacidade de se adequar a novas situações. Foi o que ocorreu quando passou do Ministério de Minas e Energia para a Casa Civil. De uma hora para outra, estava no olho do furacão, apagando os incêndios do escândalo do mensalão, uma das maiores crises já vividas pela República. Lidou com a imprensa, com parlamentares, coordenou grupos interministeriais e foi a relações-públicas do governo. Enfim, fez política e se saiu muito bem. Agora, está se adaptando ao figurino de candidata.

Não acho que ela tenha feito plástica só para ser candidata. Fez porque está bem consigo mesma e queria se sentir ainda melhor. A plástica realçou os melhores traços da ministra. Quanto aos óculos, só quero lembrar que eles já estiveram na moda. Tinham lá seu charme, sobretudo entre intelectuais e os militantes de esquerda. Só não vou dizer que ela ficou mais jovem. É perigoso falar da idade dos outros... Ainda mais se for mulher. Pode até virar contra mim...

Quais são as chances de o vice de Dilma vir do PMDB?
Seria muita pretensão dar palpite em um partido que não é o meu, mas temos de dar um crédito de confiança aos líderes do PMDB que são ministros do governo e que, até onde se sabe, trabalham para que seu partido marche com o nosso candidato em 2010. Por isso, diria que a chance é de razoável para boa. Mais do que isso, não diria. O PMDB tem muitas divisões.

Na semana passada, dois peemedebistas, Michel Temer e José Sarney, conquistaram as presidências da Câmara e do Senado. Que impacto isso pode ter em 2010?
Acho que o significado disso está sendo superestimado. O fato de o PMDB ter ganhado a Câmara e derrotado um petista (Tião Viana) no Senado não é o fim do mundo. Não será decisivo sequer para que o partido apoie esse ou aquele candidato em 2010. O PMDB é um condomínio de interesses regionais e dificilmente marchará unido na eleição presidencial, mesmo que indique o vice em uma das chapas.

Como o senhor, que militou em uma organização de extrema esquerda, avalia a decisão do governo de negar à Itália a extradição do terrorista Cesare Battisti?
Prefiro não comentar, até porque não conheço detalhes do processo. O que posso dizer é que a opção que a esquerda italiana fez pela luta armada foi um erro político crasso. A Itália não passou por uma ditadura como o Brasil. Aqui, nós nos envolvemos na luta armada porque enfrentávamos um governo ilegítimo, que tomou o poder à força. Podemos ter cometido um erro político, mas nossa ação era eticamente justificável. Na Europa, não. Lá, ninguém rasgou constituição. Optaram pela luta armada em um período de democracia, o que, por si só, é moralmente condenável. E, como não havia ditadura, é difícil distinguir crimes políticos de crimes comuns.

Ao tomar essa decisão, o Brasil questionou a legitimidade da Itália de julgar seus delinquentes?
É um exagero dizer isso. A França tomou uma decisão semelhante, ao negar a extradição de uma militante das Brigadas Vermelhas italianas. Brasil e França têm direito de conceder ou negar a extradição. E a Itália tem o direito de protestar.

A folha de pagamentos do governo tem inchado com aumentos salariais e a contratação de servidores. Isso põe em risco o equilíbrio fiscal?
Concordo que o aumento da folha é preocupante. Os reajustes salariais concedidos em 2008 terão impacto no equilíbrio fiscal. Não dá para ser generoso nesse campo. Mas a maior parte das contratações futuras ocorrerá por determinação do Ministério Público, para substituir funcionários terceirizados.

Se for confirmado no ministério, o senhor defenderá o socorro do governo a empresas em dificuldades?
Acho correta, sim, a liberação de recursos do BNDES para irrigar a economia real. Governos do mundo inteiro estão fazendo isso. O país correrá um risco muito maior se o governo deixar as empresas quebrarem apenas para manter a disciplina fiscal. O governo Lula foi o campeão na produção de superávits fiscais primários, mas o cenário mudou. Não podemos dar o mesmo remédio para doenças diferentes. Se as empresas quebrarem, os empregos sumirão. Quem reclama o tempo todo do gasto público esquece de mencionar que os juros são o maior item da despesa do governo. 

O senhor está entre os que acham que o Banco Central demorou a baixar os juros?
A queda iniciada em janeiro poderia ter começado há três meses. O Banco Central errou um pouco no timing, mas não demonizo a instituição nem seu presidente, Henrique Meirelles. Sem o rigor deles, não teríamos hoje reservas de 200 bilhões de dólares para manejar a variação cambial e atravessar bem a crise. Mas o mais importante é que temos condições propícias para continuar a baixar os juros. Como me disse o presidente Lula, estamos ganhando o jogo e o Pelé ainda nem entrou em campo. Pelé, no caso, é uma metáfora futebolística para a redução dos juros, uma arma poderosa de que o país dispõe para enfrentar a crise.

 



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