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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
Os
caçadores de barroco
"Seria
lastimável transformar os
descobridores do barroco em gatunos"
Bem no interior de Honduras está Copan, uma cidade maia,
desencavada a partir de 1890 pela Universidade Harvard. Meu guia
se queixava de que permitiram aos americanos levar a metade das
peças arqueológicas encontradas (hoje estão
no Peabody Museum). E a outra metade? A resposta foi lacônica:
"Sumiu". Esse caso me vem à mente ao abrir os jornais mineiros
e ver a abundância de notícias sobre imagens roubadas
ou sob suspeita de roubo.
Ilustração Ale Setti
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A missão francesa, trazida por dom João VI, muito
fez para documentar o nosso mundo. Iniciou a europeização
do país, trazendo ares neoclássicos para a arquitetura
e levando-nos a esquecer a herança colonial. O estilo do
mobiliário passou a vacilar entre o chippendale, horrores
franceses e um art déco "curioso".
Em 1922, os paulistas promoveram a Semana de Arte Moderna, que buscava
novos rumos para a arte brasileira. Ironicamente, foram esses intelectuais
"modernistas" que descobriram o barroco brasileiro. Mário
de Andrade e seus amigos fazem uma "expedição" a Minas,
descobrindo suas riquezas e as raízes de nossa identidade.
Não passava antes de uma velharia desprezível o que
os paulistas reconhecem como um patrimônio artístico
inestimável. O barroco brasileiro é no mínimo
tão atraente quanto o melhor similar europeu, criando um
extraordinário potencial turístico. É parte
do capital que faz hoje rodar a indústria do turismo.
Alguns saíram comprando sofregamente. Era o ciclo das galinhas-mortas,
por serem as peças consideradas sem valor ou interesse. Objetos,
hoje em museus, estavam abandonados ao relento. E quantos terão
ardido como lenha? Minha avó quis comprar uma cama que estava
servindo de poleiro de galinhas, uma peça comparável
às dos melhores museus. Mas a dona se recusou a cobrar, pois
sequer servia para queimar, tão dura era a madeira.
Amorosas igrejas e capelas barrocas eram demolidas e substituídas
por monstrengos de cimento. Os padres e as comunidades ficavam felizes
em trocar as velhas imagens de madeira, consideradas grotescas e
malfeitas, por outras novas de gesso que têm tanto
valor artístico quanto bonecas de camelô. Assim foi
salvo nosso patrimônio colonial que na época era lixo,
ou quase. Hoje vale uma fortuna incalculável. Para ilustrar,
uma cômoda de sacristia foi trocada por um apartamento luxuoso
de quatro quartos.
Minas e o Nordeste foram sistematicamente varridos pelos caçadores
de barroco. Essa caça, cheia de peripécias e aventuras,
recheou os museus brasileiros e as coleções particulares
que progressivamente se transformam em museus ou freqüentam
as exposições.
Mudou a cara da decoração de interiores brasileira
(para melhor), plasmando-se um estilo colonial sóbrio e marcante.
Nasceu também uma gigantesca "indústria de móveis
antigos". Nesse assunto, ganhamos dos Estados Unidos, onde a única
distinção é o ascético shaker.
Mas o aumento descomunal no valor das peças cria problemas
sérios. Como há uma desproporção entre
a pobreza local e o enorme valor adquirido pelas imagens sacras,
não existe a mínima segurança nas igrejas.
Daí a epidemia de furtos. Note-se a apreensão recente
de 118 peças roubadas, que quase vararam as fronteiras brasileiras.
É preciso descobrir maneiras de proteger um patrimônio
tão valioso.
Mas há o reverso da medalha, que é o questionamento
da legalidade das vendas realizadas em épocas em que o valor
de mercado das peças era ínfimo. Poucas vendas eram
com papel passado e autorização do bispo. A maioria
era só de boca. Três anjos de Santa Luzia estavam para
ir a leilão quando foram identificados por uma antiga moradora.
Pelo que consta, foram vendidos pelo sacristão.
Estamos diante de um dilema. Se não fossem a cultura e a
visão de alguns paulistas e cariocas, e se não fossem
as vendas dos padres, zeladores e sacristãos, esse patrimônio
teria ardido em fogões ou alimentado cupins. Mas a estrita
legalidade das compras é difícil de comprovar, pois
em poucos casos foram de papel passado. Seria lastimável
o alastramento de um populismo mesquinho que quer transformar os
descobridores do barroco em gatunos.
Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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