Edição 1840 . 11 de fevereiro de 2004

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Ponto de vista: Claudio de Moura Castro
Os caçadores de barroco

"Seria lastimável transformar os
descobridores do barroco em gatunos"

Bem no interior de Honduras está Copan, uma cidade maia, desencavada a partir de 1890 pela Universidade Harvard. Meu guia se queixava de que permitiram aos americanos levar a metade das peças arqueológicas encontradas (hoje estão no Peabody Museum). E a outra metade? A resposta foi lacônica: "Sumiu". Esse caso me vem à mente ao abrir os jornais mineiros e ver a abundância de notícias sobre imagens roubadas ou sob suspeita de roubo.

Ilustração Ale Setti


A missão francesa, trazida por dom João VI, muito fez para documentar o nosso mundo. Iniciou a europeização do país, trazendo ares neoclássicos para a arquitetura e levando-nos a esquecer a herança colonial. O estilo do mobiliário passou a vacilar entre o chippendale, horrores franceses e um art déco "curioso".

Em 1922, os paulistas promoveram a Semana de Arte Moderna, que buscava novos rumos para a arte brasileira. Ironicamente, foram esses intelectuais "modernistas" que descobriram o barroco brasileiro. Mário de Andrade e seus amigos fazem uma "expedição" a Minas, descobrindo suas riquezas e as raízes de nossa identidade. Não passava antes de uma velharia desprezível o que os paulistas reconhecem como um patrimônio artístico inestimável. O barroco brasileiro é no mínimo tão atraente quanto o melhor similar europeu, criando um extraordinário potencial turístico. É parte do capital que faz hoje rodar a indústria do turismo.

Alguns saíram comprando sofregamente. Era o ciclo das galinhas-mortas, por serem as peças consideradas sem valor ou interesse. Objetos, hoje em museus, estavam abandonados ao relento. E quantos terão ardido como lenha? Minha avó quis comprar uma cama que estava servindo de poleiro de galinhas, uma peça comparável às dos melhores museus. Mas a dona se recusou a cobrar, pois sequer servia para queimar, tão dura era a madeira.

Amorosas igrejas e capelas barrocas eram demolidas e substituídas por monstrengos de cimento. Os padres e as comunidades ficavam felizes em trocar as velhas imagens de madeira, consideradas grotescas e malfeitas, por outras novas de gesso – que têm tanto valor artístico quanto bonecas de camelô. Assim foi salvo nosso patrimônio colonial que na época era lixo, ou quase. Hoje vale uma fortuna incalculável. Para ilustrar, uma cômoda de sacristia foi trocada por um apartamento luxuoso de quatro quartos.

Minas e o Nordeste foram sistematicamente varridos pelos caçadores de barroco. Essa caça, cheia de peripécias e aventuras, recheou os museus brasileiros e as coleções particulares que progressivamente se transformam em museus – ou freqüentam as exposições.

Mudou a cara da decoração de interiores brasileira (para melhor), plasmando-se um estilo colonial sóbrio e marcante. Nasceu também uma gigantesca "indústria de móveis antigos". Nesse assunto, ganhamos dos Estados Unidos, onde a única distinção é o ascético shaker.

Mas o aumento descomunal no valor das peças cria problemas sérios. Como há uma desproporção entre a pobreza local e o enorme valor adquirido pelas imagens sacras, não existe a mínima segurança nas igrejas. Daí a epidemia de furtos. Note-se a apreensão recente de 118 peças roubadas, que quase vararam as fronteiras brasileiras. É preciso descobrir maneiras de proteger um patrimônio tão valioso.

Mas há o reverso da medalha, que é o questionamento da legalidade das vendas realizadas em épocas em que o valor de mercado das peças era ínfimo. Poucas vendas eram com papel passado e autorização do bispo. A maioria era só de boca. Três anjos de Santa Luzia estavam para ir a leilão quando foram identificados por uma antiga moradora. Pelo que consta, foram vendidos pelo sacristão.

Estamos diante de um dilema. Se não fossem a cultura e a visão de alguns paulistas e cariocas, e se não fossem as vendas dos padres, zeladores e sacristãos, esse patrimônio teria ardido em fogões ou alimentado cupins. Mas a estrita legalidade das compras é difícil de comprovar, pois em poucos casos foram de papel passado. Seria lastimável o alastramento de um populismo mesquinho que quer transformar os descobridores do barroco em gatunos.

Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)

 
 
 
 
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