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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
Ao
cruel ritmo
da natureza
O
governo Lula
antes estava na
barriga da mãe. Agora aprende a
andar. Onde estará aos oito anos?
Não
se subestime jamais o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Ao longo dos primeiros meses do governo, ele cansou de repetir a
imagem dos nove meses de gravidez. Dizia, bem ao seu modo de recorrer
a uma história pessoal, ou suposta história pessoal,
para dar força à argumentação, que quando
casou queria ter logo um filho de imediato, no dia seguinte.
Teve de submeter-se, porém, à implacabilidade da lei
natural que exige um período de nove meses para esse tipo
de evento. Da mesma forma, esta era a moral da história,
devia-se ter paciência com um governo que mal começava.
A
imagem foi boa enquanto o bebê permaneceu na barriga da Presidência
e de seus 35 nutridos ministérios. Mas e depois? Passados
os nove primeiros meses, o bebê governamental nasceu. A imagem,
em conseqüência, teve seu prazo de validade esgotado.
Enganou-se, porém, quem imaginava que Lula ia se apertar
por isso. Na semana passada, ao fazer um balanço do programa
Fome Zero, e admitir que houve percalços, ele disse: "A coisa
que eu mais queria na vida era que meu filho aprendesse a andar
sem cair, sem levar nenhum tombo, mas ele teve muitos tombos até
aprender a andar". Eureca! Agora o bebê está aprendendo
a andar! Saiu da barriga, e ensaia seus primeiros e cambaleantes
passos. Lula conseguiu a proeza de renovar sua imagética
sem sair do mote do ritmo do desenvolvimento humano.
A
frase é puro Lula, e merece ser apreciada aos bocados. O
começo é desconcertante: "A coisa que eu mais queria
na vida..." Para o comum das pessoas, o que "mais queriam na vida"
seria sorte no amor, sucesso na profissão, fortuna, saúde,
ver os filhos crescer saudáveis e felizes. Não o presidente.
O que "mais queria na vida" era... que o filho andasse sem dar tombos.
Suponha-se que o gênio da lâmpada se apresentasse diante
dele, um gênio da lâmpada no rigor da moda dos de sua
espécie, turbante enrolado na cabeça, anéis
nos dedos, roupas coloridas sobrando no peito, os braços
cruzados, as pernas dissolvidas na fumaça que ainda as liga
à lâmpada. "Vossa excelência pode ordenar. Qual
seu maior desejo?" O que se esperaria é que dissesse que
queria ser presidente (a história se passa antes de ter atingido
tal desiderato) ou, alçando-se às alturas de estadista,
que a justiça e a eqüidade se estendessem pelo mundo,
que não houvesse mais fome, que não houvesse mais
guerras. Puxando para o nosso lado, o que não seria mau,
poderia pedir que o Brasil fosse contemplado com o dobro do PIB
dos Estados Unidos. Já que se está diante de um gênio,
impõe-se esticar ao máximo a corda das possibilidades.
Não. Ele diria: "Queria que meu filho já começasse
a andar sem cair". É muito pouco. É alarmantemente
pouco. Seria desperdiçar absurdamente a oferta do gênio.
Acalentar um desejo desses é baratear muito além do
razoável o estoque de "maiores desejos na vida".
O
ponto seguinte a ressaltar na frase presidencial é o papel
de apressadinho que, nela, Lula se atribui. Nos tempos da imagem
da gravidez já era assim. Ele queria que o filho nascesse
já, de imediato, sem demora. Imagine-se a cena. Casa-se,
vive-se a primeira noite, e no dia seguinte o marido põe-se
a reclamar: "Não vai nascer? Por que ainda não nasceu?
Por que essa demora?" Na imagem do filho aprendendo a andar, o pai
reclama: "Por que essas pernas moles? Vamos, de pé". E, com
desalento, diante do novo tropeço: "Oh, caiu de novo!?" O
que resulta é o retrato de um homem de estranha sensibilidade,
nervoso, inadaptado, e portador de tal desconhecimento do mundo
que chega a ignorar os ritmos da natureza.
Tais
torneios na imagética presidencial são apenas detalhes,
no entanto, diante do principal. E o principal é a vitória
que, como um mágico que tira o coelho da cartola, Lula obteve
ao manter-se no fio da meada das demoras no desenvolvimento humano
para justificar os atrasos e percalços do governo. Antes
era a demora para nascer. Agora, a demora para aprender a andar.
Mais adiante, e a continuar a bater na mesma tecla, Lula poderá
dizer que "o que mais queria na vida", quando o filho fez três
anos, é que ele já soubesse ler e escrever. Depois,
dirá que o que mais queria é que aos quatro anos o
filho jogasse futebol como Ronaldinho, que aos cinco compusesse
sinfonias como Beethoven, que aos seis conhecesse a física
como Einstein... O problema...
O
problema é que o máximo a que o presidente pode aspirar
na Presidência são oito anos. Se continuar a medir
o grau de maturidade e capacidade de realização do
governo pela escala da existência humana, esbarrará
com o fato de que, aos oito anos, o ser humano ainda exibe notórias
insuficiências. Não poderá dizer: "Aos oito
anos, queria que meu filho já fosse crescido, preparado,
maduro e estivesse no auge de sua capacidade física e mental,
mas..." Não poderá dizer que, por ter só oito
anos, seu governo é ainda baixinho, despreparado, imaturo
e está longe do auge da capacidade física e mental.
Ele terá de se conformar com a dura realidade de que governo
é governo, e desenvolvimento humano é desenvolvimento
humano.
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