Edição 1840 . 11 de fevereiro de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Ao cruel ritmo
da natureza

O governo Lula antes estava na
barriga da mãe. Agora aprende a
andar. Onde estará aos oito anos?

Não se subestime jamais o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ao longo dos primeiros meses do governo, ele cansou de repetir a imagem dos nove meses de gravidez. Dizia, bem ao seu modo de recorrer a uma história pessoal, ou suposta história pessoal, para dar força à argumentação, que quando casou queria ter logo um filho – de imediato, no dia seguinte. Teve de submeter-se, porém, à implacabilidade da lei natural que exige um período de nove meses para esse tipo de evento. Da mesma forma, esta era a moral da história, devia-se ter paciência com um governo que mal começava.

A imagem foi boa enquanto o bebê permaneceu na barriga da Presidência e de seus 35 nutridos ministérios. Mas e depois? Passados os nove primeiros meses, o bebê governamental nasceu. A imagem, em conseqüência, teve seu prazo de validade esgotado. Enganou-se, porém, quem imaginava que Lula ia se apertar por isso. Na semana passada, ao fazer um balanço do programa Fome Zero, e admitir que houve percalços, ele disse: "A coisa que eu mais queria na vida era que meu filho aprendesse a andar sem cair, sem levar nenhum tombo, mas ele teve muitos tombos até aprender a andar". Eureca! Agora o bebê está aprendendo a andar! Saiu da barriga, e ensaia seus primeiros e cambaleantes passos. Lula conseguiu a proeza de renovar sua imagética sem sair do mote do ritmo do desenvolvimento humano.

A frase é puro Lula, e merece ser apreciada aos bocados. O começo é desconcertante: "A coisa que eu mais queria na vida..." Para o comum das pessoas, o que "mais queriam na vida" seria sorte no amor, sucesso na profissão, fortuna, saúde, ver os filhos crescer saudáveis e felizes. Não o presidente. O que "mais queria na vida" era... que o filho andasse sem dar tombos. Suponha-se que o gênio da lâmpada se apresentasse diante dele, um gênio da lâmpada no rigor da moda dos de sua espécie, turbante enrolado na cabeça, anéis nos dedos, roupas coloridas sobrando no peito, os braços cruzados, as pernas dissolvidas na fumaça que ainda as liga à lâmpada. "Vossa excelência pode ordenar. Qual seu maior desejo?" O que se esperaria é que dissesse que queria ser presidente (a história se passa antes de ter atingido tal desiderato) ou, alçando-se às alturas de estadista, que a justiça e a eqüidade se estendessem pelo mundo, que não houvesse mais fome, que não houvesse mais guerras. Puxando para o nosso lado, o que não seria mau, poderia pedir que o Brasil fosse contemplado com o dobro do PIB dos Estados Unidos. Já que se está diante de um gênio, impõe-se esticar ao máximo a corda das possibilidades. Não. Ele diria: "Queria que meu filho já começasse a andar sem cair". É muito pouco. É alarmantemente pouco. Seria desperdiçar absurdamente a oferta do gênio. Acalentar um desejo desses é baratear muito além do razoável o estoque de "maiores desejos na vida".

O ponto seguinte a ressaltar na frase presidencial é o papel de apressadinho que, nela, Lula se atribui. Nos tempos da imagem da gravidez já era assim. Ele queria que o filho nascesse já, de imediato, sem demora. Imagine-se a cena. Casa-se, vive-se a primeira noite, e no dia seguinte o marido põe-se a reclamar: "Não vai nascer? Por que ainda não nasceu? Por que essa demora?" Na imagem do filho aprendendo a andar, o pai reclama: "Por que essas pernas moles? Vamos, de pé". E, com desalento, diante do novo tropeço: "Oh, caiu de novo!?" O que resulta é o retrato de um homem de estranha sensibilidade, nervoso, inadaptado, e portador de tal desconhecimento do mundo que chega a ignorar os ritmos da natureza.

Tais torneios na imagética presidencial são apenas detalhes, no entanto, diante do principal. E o principal é a vitória que, como um mágico que tira o coelho da cartola, Lula obteve ao manter-se no fio da meada das demoras no desenvolvimento humano para justificar os atrasos e percalços do governo. Antes era a demora para nascer. Agora, a demora para aprender a andar. Mais adiante, e a continuar a bater na mesma tecla, Lula poderá dizer que "o que mais queria na vida", quando o filho fez três anos, é que ele já soubesse ler e escrever. Depois, dirá que o que mais queria é que aos quatro anos o filho jogasse futebol como Ronaldinho, que aos cinco compusesse sinfonias como Beethoven, que aos seis conhecesse a física como Einstein... O problema...

O problema é que o máximo a que o presidente pode aspirar na Presidência são oito anos. Se continuar a medir o grau de maturidade e capacidade de realização do governo pela escala da existência humana, esbarrará com o fato de que, aos oito anos, o ser humano ainda exibe notórias insuficiências. Não poderá dizer: "Aos oito anos, queria que meu filho já fosse crescido, preparado, maduro e estivesse no auge de sua capacidade física e mental, mas..." Não poderá dizer que, por ter só oito anos, seu governo é ainda baixinho, despreparado, imaturo e está longe do auge da capacidade física e mental. Ele terá de se conformar com a dura realidade de que governo é governo, e desenvolvimento humano é desenvolvimento humano.

 
 
 
 
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