Edição 1840 . 11 de fevereiro de 2004

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Livros
O francês carioca

Mostras de arte, biografia de Lily Marinho,
Guggenheim, literatura? O Romaric está lá


Marcelo Marthe


Oscar Cabral
Romaric Büel: banho de sal grosso para afastar os maus fluidos

Trechos do livro

Oriundo de uma família cujas raízes remontam ao século XV e ex-integrante do serviço diplomático de seu país, o francês Romaric Büel encontrou no Brasil a sua verdadeira casa. "A vivacidade dos brasileiros me arrebatou", diz ele. Radicado no Rio de Janeiro há cerca de dez anos, Romaric transformou-se no que se convencionou chamar de agitador cultural. Sua principal atuação é no campo das artes plásticas. Ele esteve por trás de mostras vistas por 15 milhões de pessoas, como as retrospectivas de Rodin, Monet e Renoir. Seu feito mais recente foi ajudar a tornar viável a retrospectiva de Pablo Picasso em cartaz atualmente em São Paulo: ele fez a ponte entre a BrasilConnects, organizadora da mostra, e o Museu Picasso, de Paris. "Sem mim, a exposição não sairia", afirma. Aos poucos, Romaric também se aventura em um outro campo: a literatura. Seu romance de estréia, O Lírio e a Quimera, lançado em 2002, narra os amores de uma aristocrata francesa no Brasil do século XIX. No recém-publicado Do Leito da Minha Mãe, o tema é a relação edipiana de um garoto mimado com sua mãe (leia trecho). Trata-se de uma história amena na Paris da belle époque, em que chamam atenção os dotes do autor para descrever os modos da alta burguesia – sobretudo as mulheres.

A família de Romaric é de origem suíça. "Um de meus ancestrais era íntimo de Beethoven", diz. Ele chegou ao Rio em 1993, como adido diplomático francês, e tornou-se presença requisitada na sociedade carioca. Em pouco tempo, já era destaque de escola de samba: desfilou em 1995 como uma reencarnação de Jean-Baptiste Debret, o pintor francês que retratou o Brasil do século XIX. Ao ser convocado para um posto diplomático em Berlim, preferiu pedir demissão e ficar no Rio. Romaric obteve a cidadania brasileira e abriu uma empresa de produção cultural que lhe tem garantido bons negócios – e algumas controvérsias. Em 1999, ele teve uma rusga com a então diretora do Museu Nacional de Belas-Artes, Heloísa Lustosa, por causa da mostra do impressionista Claude Monet. Em 2002, o francês entrou na confusão que cerca a construção do Museu Guggenheim no Rio e despertou a ira do prefeito Cesar Maia. O alcaide carioca qualificou Romaric de "guia cultural de madame".

Aos 51 anos, Romaric divide seu apartamento no Flamengo com três mulheres. Uma delas é Perla Mattison, socialite octogenária que ficou em dificuldades financeiras com a morte do marido. Nos anos 40 e 50, ela abalava o jet set internacional com sua beleza e tornou-se íntima de celebridades como o estilista dominicano Oscar de la Renta. "Sempre que encontro Oscar, ele pergunta: E Perla? E Perla?", conta Romaric. As outras mulheres da casa são as domésticas Alice e Joaquina, que ele chama de "babás". "Quando alguém quer me atingir, uma das babás me dá um banho de sal grosso", diz.

Romaric encontrou em Lily Marinho, viúva do empresário Roberto Marinho, da Rede Globo, uma de suas interlocutoras mais entusiasmadas. O ponto em comum entre ambos é o amor pela França, que também é o país de origem da mãe dela. "Nossas conversas têm como tema a defesa da língua francesa no Brasil. Já defini com Romaric a próxima tarefa: como apoiar a Aliança Francesa e as redes públicas na difusão do francês", diz ela. Romaric atua como consultor no livro que Lily está preparando. O tema principal é o romance dela com Roberto Marinho. Da própria lavra, o escritor deve lançar quatro romances que darão seqüência a Do Leito da Minha Mãe e uma série de crônicas sobre o Rio de Janeiro. Ele vislumbra ainda outro projeto. "Gostaria de escrever algo maior sobre essa mulher extraordinária, que poderia ter o seguinte título: Lily Marinho, um Retrato – Itinerário de uma Franco-Brasileira", diz.

 
Eu quero colo


"O ogro abrira sua bocarra e avançava ameaçador. Não me veio a voz para gritar, pedir ajuda. Fugir, era preciso correr para escapar daqueles dentes luzidios como lâminas de punhal. Peludo, disforme, enorme, ele se aproximava fazendo estremecer o chão. Em sobressalto, despertei do pesadelo, encontrei-me em minha caminha de criança. Ocorreu-me então que mamãe não me abandonara, devia estar dormindo naquele leito de rainha, no meio de travesseiros de pluma.

– O que aconteceu, Pierre? Estás chorando! Vem aqui no colo da mamãe."

Trecho de Do Leito da Minha Mãe

 

 
 
 
 
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