Edição 1840 . 11 de fevereiro de 2004

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Televisão
Cérebro, roteiro, ação!

No surpreendente humorístico Segura a Onda,
o americano Larry David mostra como se faz
humor com bem mais de dois neurônios


Marcelo Marthe



Divulgação
O comediante (à esq.), em Segura a Onda: improvisos e muita, muita edição

Durante boa parte de sua carreira, o americano Larry David parecia fadado a ser um eterno comediante de terceiro escalão. Em suas performances ao vivo nos clubes de Nova York, ele era uma figura apagada: além de não ter carisma no palco, o público não conseguia captar a sutileza de suas tiradas, sempre calcadas nos temas mais triviais. Para piorar, David não levava na esportiva quando os espectadores preferiam conversar e bebericar a prestar atenção nele – nesses casos, dava as costas e ia embora, irritadíssimo. Na televisão, suas investidas também não davam bons resultados. Embora tenha integrado a equipe de roteiristas do programa Saturday Night Live, apenas um dos esquetes que escreveu foi ao ar ao longo de um ano. Colecionando tantos reveses, a situação de David tornara-se periclitante: com mais de 40 anos, ele era solteiro, duro e morava num apartamento subsidiado para artistas em dificuldades. Foi nesse momento, no final dos anos 80, que um de seus melhores amigos lhe estendeu a mão. O comediante Jerry Seinfeld tinha acabado de convencer a rede NBC a produzir um programa seu e chamou David – com quem julgava ter uma "conexão cômica cerebral" – para ajudá-lo no roteiro. A idéia era, simplesmente, reproduzir no programa as tiradas que surgiam nas conversas corriqueiras entre ambos. O resto dessa história é conhecido. Seinfeld tornou-se um dos maiores sucessos da televisão americana dos anos 90. E David riu de seus antigos fantasmas por meio de seu alter ego no programa: o perdedor George Costanza.


SONY
O elenco de Seinfeld: o perdedor George Costanza (no centro) é o alter ego de Larry David

Com o estouro de Seinfeld, David – hoje com 56 anos – varreu para longe a pecha de comediante fracassado. Embolsou mais de 200 milhões de dólares, casou-se e tornou-se o feliz proprietário de uma mansão em Los Angeles. Mas lhe faltava algo mais: mostrar, finalmente, do que era capaz em cena. Esse objetivo é cumprido com louvor no humorístico Segura a Onda, que ele produz, escreve e protagoniza. O programa – cuja terceira temporada acaba de estrear no canal pago HBO, que o exibe nas noites de domingo – tem muito das situações de nonsense já exploradas por David em Seinfeld. Pode-se dizer, contudo, que é uma experiência de vanguarda no gênero. O comediante faz o papel de si próprio: Larry David, roteirista de um programa de sucesso que curte a meia-idade na flauta, ao lado da mulher. Muitos dos personagens são seus amigos, que surgem em suas identidades reais. As imagens são captadas com apenas duas câmeras digitais de mão, o que lhes confere um aspecto cru, como o das filmagens de documentários.

A precariedade visual só realça a grande qualidade de Segura a Onda: seu roteiro. As trapalhadas são detonadas a partir de incidentes insignificantes que têm conseqüências absurdas – mas, no final, os elementos se amarram. No primeiro programa da temporada, o catalisador da trama é a fixação de David por uma camisa. Mas não uma camisa qualquer: é aquela que o marido de uma vendedora de molduras, já morto, está usando numa foto. No segundo episódio, o tema é a alergia a amendoim da namorada de um amigo do comediante. Depois de fazê-la comer amendoim num jantar em sua casa, David tenta consertar o estrago. O problema é que a moça não pode tomar remédios, por ser adepta da seita conhecida como Ciência Cristã.

Trata-se de um tipo de humor que, na superfície, parece simples. A construção de cada programa, contudo, é um exercício exaustivo. David é detalhista ao escrever as situações dos roteiros, mas a maioria dos diálogos é criada de improviso no set, para garantir a atmosfera de casualidade. Em sua busca pelo humor em estado bruto, o comediante faz com que os atores só conheçam o teor de suas cenas no momento em que vão gravá-las. Trata-se de uma precaução para evitar que eles já venham armados de idéias no dia da gravação. "Um dos lemas de nosso programa é o seguinte: quanto menos você tentar ser engraçado, melhor", diz a atriz Cheryl Hines, que interpreta a mulher de David. Como cada cena pode ser rodada várias vezes, e o comediante não descarta nenhuma versão até rever uma a uma no estúdio, a gravação de uma historieta resulta numa quantidade incrível de material. Perfeccionista, David transforma a edição dessas imagens num verdadeiro martírio para os editores do programa: a finalização de um episódio com apenas meia hora de duração normalmente se arrasta por duas semanas. Azar dos editores. Sorte do espectador.

 
 
 
 
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