|
|
Televisão
Cérebro, roteiro, ação!
No
surpreendente humorístico Segura a Onda,
o americano Larry David mostra como se faz
humor com bem mais de dois neurônios

Marcelo Marthe
Divulgação
 |
| O
comediante (à esq.), em Segura a Onda:
improvisos e muita, muita edição |
Durante
boa parte de sua carreira, o americano Larry David parecia fadado
a ser um eterno comediante de terceiro escalão. Em suas performances
ao vivo nos clubes de Nova York, ele era uma figura apagada: além
de não ter carisma no palco, o público não
conseguia captar a sutileza de suas tiradas, sempre calcadas nos
temas mais triviais. Para piorar, David não levava na esportiva
quando os espectadores preferiam conversar e bebericar a prestar
atenção nele nesses casos, dava as costas e
ia embora, irritadíssimo. Na televisão, suas investidas
também não davam bons resultados. Embora tenha integrado
a equipe de roteiristas do programa Saturday Night Live, apenas
um dos esquetes que escreveu foi ao ar ao longo de um ano. Colecionando
tantos reveses, a situação de David tornara-se periclitante:
com mais de 40 anos, ele era solteiro, duro e morava num apartamento
subsidiado para artistas em dificuldades. Foi nesse momento, no
final dos anos 80, que um de seus melhores amigos lhe estendeu a
mão. O comediante Jerry Seinfeld tinha acabado de convencer
a rede NBC a produzir um programa seu e chamou David com
quem julgava ter uma "conexão cômica cerebral"
para ajudá-lo no roteiro. A idéia era, simplesmente,
reproduzir no programa as tiradas que surgiam nas conversas corriqueiras
entre ambos. O resto dessa história é conhecido. Seinfeld
tornou-se um dos maiores sucessos da televisão americana
dos anos 90. E David riu de seus antigos fantasmas por meio de seu
alter ego no programa: o perdedor George Costanza.
SONY
 |
| O
elenco de Seinfeld: o perdedor George Costanza (no
centro) é o alter ego de Larry David |
Com
o estouro de Seinfeld, David hoje com 56 anos
varreu para longe a pecha de comediante fracassado. Embolsou mais
de 200 milhões de dólares, casou-se e tornou-se o
feliz proprietário de uma mansão em Los Angeles. Mas
lhe faltava algo mais: mostrar, finalmente, do que era capaz em
cena. Esse objetivo é cumprido com louvor no humorístico
Segura a Onda, que ele produz, escreve e protagoniza.
O programa cuja terceira temporada acaba de estrear no
canal pago HBO, que o exibe nas noites de domingo tem muito
das situações de nonsense já exploradas por
David em Seinfeld. Pode-se dizer, contudo, que é uma
experiência de vanguarda no gênero. O comediante faz
o papel de si próprio: Larry David, roteirista de um programa
de sucesso que curte a meia-idade na flauta, ao lado da mulher.
Muitos dos personagens são seus amigos, que surgem em suas
identidades reais. As imagens são captadas com apenas duas
câmeras digitais de mão, o que lhes confere um aspecto
cru, como o das filmagens de documentários.
A
precariedade visual só realça a grande qualidade de
Segura a Onda: seu roteiro. As trapalhadas são detonadas
a partir de incidentes insignificantes que têm conseqüências
absurdas mas, no final, os elementos se amarram. No primeiro
programa da temporada, o catalisador da trama é a fixação
de David por uma camisa. Mas não uma camisa qualquer: é
aquela que o marido de uma vendedora de molduras, já morto,
está usando numa foto. No segundo episódio, o tema
é a alergia a amendoim da namorada de um amigo do comediante.
Depois de fazê-la comer amendoim num jantar em sua casa, David
tenta consertar o estrago. O problema é que a moça
não pode tomar remédios, por ser adepta da seita conhecida
como Ciência Cristã.
Trata-se
de um tipo de humor que, na superfície, parece simples. A
construção de cada programa, contudo, é um
exercício exaustivo. David é detalhista ao escrever
as situações dos roteiros, mas a maioria dos diálogos
é criada de improviso no set, para garantir a atmosfera de
casualidade. Em sua busca pelo humor em estado bruto, o comediante
faz com que os atores só conheçam o teor de suas cenas
no momento em que vão gravá-las. Trata-se de uma precaução
para evitar que eles já venham armados de idéias no
dia da gravação. "Um dos lemas de nosso programa é
o seguinte: quanto menos você tentar ser engraçado,
melhor", diz a atriz Cheryl Hines, que interpreta a mulher de David.
Como cada cena pode ser rodada várias vezes, e o comediante
não descarta nenhuma versão até rever uma a
uma no estúdio, a gravação de uma historieta
resulta numa quantidade incrível de material. Perfeccionista,
David transforma a edição dessas imagens num verdadeiro
martírio para os editores do programa: a finalização
de um episódio com apenas meia hora de duração
normalmente se arrasta por duas semanas. Azar dos editores. Sorte
do espectador.
|