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Tecnologia
Tinto do sertão
Quem diria: do Vale do Rio São
Francisco,
oposto em tudo ao Vale
do Loire, saem vinhos de qualidade

Silvia
Mascella
Vinho
e um certo friozinho sempre fizeram a mais perfeita das combinações,
tanto no consumo quanto na produção. Ainda fazem,
é claro, mas esse preceito, como tantos sujeitos às
reviravoltas dos avanços tecnológicos, começa
a ser revisto. Vinhos podem, sim, dar certo em lugares muito quentes.
Um deles fica nas margens do Rio São Francisco, entre Bahia
e Pernambuco lá, em pleno semi-árido nordestino,
numa paisagem que em nada lembra o Vale do Loire, mais de uma dezena
de vinícolas, a maioria instalada nos últimos dez
anos, já responde por 15% da produção nacional
de vinhos de mesa. O milagre da multiplicação das
parreiras no sertão atrai, inclusive, os grandes do ramo.
"As videiras do Vale do São Francisco vieram mudar conceitos
estabelecidos", diz Otávio Piva de Alburquerque, dono da
importadora paulista Expand, que, em parceria com a portuguesa Dão
Sul e com a nordestina Grupo da Fonte, engarrafa neste momento no
município de Lagoa Grande, a 70 quilômetros de Petrolina,
os primeiros vinhos de produção própria, chamados
Rio Sol e Adega do Vale. "O Vale dos Vinhedos, no Rio Grande do
Sul, está quase no limite de sua produção.
As vinícolas precisam encontrar novas áreas para trabalhar",
acrescenta Fábio Miolo, diretor da empresa gaúcha
homônima, que se instalou na região do São Francisco
em 1999 e produz no município baiano de Casa Nova seus cinco
vinhos Terranova: um espumante, dois tintos, um branco e um vinho
de sobremesa.
J. Miranda
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| Terranova,
da Miolo, e Botticelli: na luta pelo mercado externo |
Agência Lumiar
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| Colheita
no semi-árido: duas safras de uva por ano |
Em matéria de natureza, o Nordeste, por incrível que
pareça, tem várias das condições necessárias
para o cultivo de uvas: sol (que favorece o amadurecimento e a concentração
de açúcar natural), solo não muito rico, grande
variação de temperatura entre o dia e a noite. Sob
supervisão da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(Embrapa), a produção é controlada passo a
passo. As mudas livres de vírus nascem clonadas, as videiras
são podadas com cuidado extremo, o maquinário especializado
sofistica o processo e o resultado final é um vinho de qualidade,
para os padrões nacionais, esclareça-se, a partir
de inéditas duas safras por ano. O primeiro vinho do Vale
do São Francisco foi lançado em 1984, com a marca
Botticelli. "Estamos agora desenvolvendo um vinho com a uva rubi
cabernet, que foi criada na Califórnia especialmente para
crescer em vales com altas temperaturas, como o nosso", conta, orgulhoso,
José Gualberto de Almeida, diretor executivo da Botticelli.
Almeida, como os demais grandes produtores locais, está interessado
no mercado externo, onde os vinhos do São Francisco tiveram,
no fim do ano passado, o valioso empurrão de um elogio da
jornalista inglesa Jancis Robinson, a papisa da crítica de
vinhos. Convidada para uma degustação em São
Paulo pela revista Prazeres da Mesa, Jancis qualificou o
vinho ainda não lançado da Expand de "tinto respeitável,
deliberadamente moderno e de fácil aceitação
pelo mercado". A VEJA, Jancis reiterou os elogios: "Esses vinhos
têm uma combinação excelente de preço
e qualidade". O Rio Sol vai ser lançado em maio, em uma feira
mundial do setor em Londres. Quem beber verá.
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