Edição 1840 . 11 de fevereiro de 2004

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Tinto do sertão

Quem diria: do Vale do Rio São
Francisco, oposto em tudo ao Vale
do Loire, saem vinhos de qualidade


Silvia Mascella

DOS ARQUIVOS DE VEJA
Pesquisador busca origem do vinho
Nacional, mas importado
A vitória dos bons e baratos
O sucesso dos argentinos
O ranking dos nacionais
Vinhos italianos
Vinhos franceses
Como estocar o vinho

Vinho e um certo friozinho sempre fizeram a mais perfeita das combinações, tanto no consumo quanto na produção. Ainda fazem, é claro, mas esse preceito, como tantos sujeitos às reviravoltas dos avanços tecnológicos, começa a ser revisto. Vinhos podem, sim, dar certo em lugares muito quentes. Um deles fica nas margens do Rio São Francisco, entre Bahia e Pernambuco – lá, em pleno semi-árido nordestino, numa paisagem que em nada lembra o Vale do Loire, mais de uma dezena de vinícolas, a maioria instalada nos últimos dez anos, já responde por 15% da produção nacional de vinhos de mesa. O milagre da multiplicação das parreiras no sertão atrai, inclusive, os grandes do ramo. "As videiras do Vale do São Francisco vieram mudar conceitos estabelecidos", diz Otávio Piva de Alburquerque, dono da importadora paulista Expand, que, em parceria com a portuguesa Dão Sul e com a nordestina Grupo da Fonte, engarrafa neste momento no município de Lagoa Grande, a 70 quilômetros de Petrolina, os primeiros vinhos de produção própria, chamados Rio Sol e Adega do Vale. "O Vale dos Vinhedos, no Rio Grande do Sul, está quase no limite de sua produção. As vinícolas precisam encontrar novas áreas para trabalhar", acrescenta Fábio Miolo, diretor da empresa gaúcha homônima, que se instalou na região do São Francisco em 1999 e produz no município baiano de Casa Nova seus cinco vinhos Terranova: um espumante, dois tintos, um branco e um vinho de sobremesa.


J. Miranda
Terranova, da Miolo, e Botticelli: na luta pelo mercado externo

Agência Lumiar
Colheita no semi-árido: duas safras de uva por ano


Em matéria de natureza, o Nordeste, por incrível que pareça, tem várias das condições necessárias para o cultivo de uvas: sol (que favorece o amadurecimento e a concentração de açúcar natural), solo não muito rico, grande variação de temperatura entre o dia e a noite. Sob supervisão da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a produção é controlada passo a passo. As mudas livres de vírus nascem clonadas, as videiras são podadas com cuidado extremo, o maquinário especializado sofistica o processo e o resultado final é um vinho de qualidade, para os padrões nacionais, esclareça-se, a partir de inéditas duas safras por ano. O primeiro vinho do Vale do São Francisco foi lançado em 1984, com a marca Botticelli. "Estamos agora desenvolvendo um vinho com a uva rubi cabernet, que foi criada na Califórnia especialmente para crescer em vales com altas temperaturas, como o nosso", conta, orgulhoso, José Gualberto de Almeida, diretor executivo da Botticelli. Almeida, como os demais grandes produtores locais, está interessado no mercado externo, onde os vinhos do São Francisco tiveram, no fim do ano passado, o valioso empurrão de um elogio da jornalista inglesa Jancis Robinson, a papisa da crítica de vinhos. Convidada para uma degustação em São Paulo pela revista Prazeres da Mesa, Jancis qualificou o vinho ainda não lançado da Expand de "tinto respeitável, deliberadamente moderno e de fácil aceitação pelo mercado". A VEJA, Jancis reiterou os elogios: "Esses vinhos têm uma combinação excelente de preço e qualidade". O Rio Sol vai ser lançado em maio, em uma feira mundial do setor em Londres. Quem beber verá.

 
 
 
 
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