Edição 1840 . 11 de fevereiro de 2004

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Ambiente
Tem gringo no mato

Mais de 10 000 estrangeiros
trabalham na Amazônia.
E isso é bom


Leonardo Coutinho

 
Da esquerda para a direita, os pesquisadores americanos Mittermeier, Laurance, Schwartzman e Nepstad

Se o interesse e a presença de estrangeiros na Amazônia fossem mesmo o problema que tanta gente gosta de levantar, seria tarde para tomar alguma providência. Mais de 10 000 pessoas de nacionalidade não brasileira já vivem ou freqüentam regularmente a região, compondo uma comunidade com formação intelectual suficiente para governar a área provavelmente com mais bom senso do que fazem muitos dos políticos locais. Nessa turma há jornalistas, executivos, estudantes, militares, ambientalistas e principalmente cientistas pesquisando as características e os benefícios que se podem obter da biodiversidade da floresta. Para desgosto de madeireiros que acabam de lançar uma campanha de outdoors xingando os militantes do Greenpeace de bêbados e de generais que chegam a recusar ajuda internacional para combater incêndios florestais, o fato é que essa gente contribui mais para o desenvolvimento do país e da região do que boa parte dos proprietários de terras e instrutores de manobras lotados na área.

Para ficar apenas no caso dos cientistas, alvos freqüentes de insinuações sobre biopirataria e submissão a interesses de outros países, basta conferir a lista de pesquisas relevantes realizadas na região para descobrir que quase não existe projeto sem um ou dois estrangeiros na equipe. Entre outros exemplos, há o do americano William Laurance, do Smithsonian Tropical Research Institute, que lidera estudos sobre o futuro da Amazônia com o desmatamento e a ocupação humana. Stephan Schwartzman, da organização não-governamental Environmental Defense, monitora a aplicação dos recursos de bancos internacionais em projetos ambientais no Brasil e tem no currículo a apresentação de Chico Mendes ao mundo. Antes que o líder seringueiro fosse famoso no Brasil, Schwartzman o levou ao Banco Interamericano de Desenvolvimento, nos Estados Unidos, onde suas idéias começaram a ganhar repercussão. Outro americano, Daniel Nepstad, fundador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, veio pesquisar a regeneração de florestas em 1984, acabou se radicando no país e desenvolveu um modelo de estudo dos efeitos das secas que está desembocando num sistema de previsão de queimadas.

Uma das vantagens da presença desses estrangeiros trabalhando na Amazônia é a capacidade que eles têm de atrair recursos para pesquisas num nível que o Brasil não consegue bancar. Enquanto o primatólogo Russell Mittermeier, chefão da rede preservacionista Conservação Internacional, movimenta o equivalente a 300 milhões de reais – boa parte disso na Amazônia – só para cuidar de espécies ameaçadas, o Fundo Nacional do Meio Ambiente tem orçamento de 6 milhões para essa mesma área no Brasil inteiro. Outro fato relevante nessa questão é que a Amazônia é tão grande e tem tanta coisa a pesquisar que nem todos os cientistas do país juntos conseguiriam dar conta do recado. Calcula-se que 5 milhões de espécies vegetais existentes na floresta ainda não foram classificadas. Com seu trabalho, os estrangeiros também ajudam a formar pesquisadores brasileiros. "Eles são fundamentais para a formação de recursos humanos na Amazônia", diz o ecólogo Marcos Silveira, da Universidade Federal do Acre. Nessa perspectiva, 10 000 são bem menos do que o Brasil precisa.

 
 
 
 
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