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Polícia
Aprendendo a dar o bote
Com
estilo e recursos novos, a
PF adota
operações de impacto
com prisões em série

Thaís
Oyama, de Manaus
Às
vezes sem verba para pagar contas de luz ou de gasolina, a Polícia
Federal vem obtendo resultados de impacto em operações
de âmbito nacional. A chave está na mudança
de estratégia. O sistema de escutas, que ainda é a
base das investigações policiais de grande porte,
foi modernizado e, talvez mais importante, a instituição
mudou a tática de dar pequenos botes cada vez que os criminosos
visados se mexiam demais. O método do momento é deixar
o sabiá do crime voar livre durante algum tempo, cantando
à vontade. O pássaro é seguido, gravado, identificado
na sua rede de contatos. Ao fim de um período determinado,
os agentes pegam o sabiá e mais um viveiro cheio de espécies
variadas. Foi o que aconteceu na semana passada com a Operação
Zaqueu, que pôs na mira uma dezena de auditores do trabalho
suspeitos de praticar corrupção na linha de recepção
e empresários dos ramos de construção e produtos
eletrônicos, acusados do mesmo delito, na extremidade oposta.
A operação foi desfechada na segunda-feira à
noite, quando 120 agentes da PF, vindos de sete Estados, desembarcaram
na Base Aérea de Manaus. Até o momento do embarque,
eles não sabiam o destino da viagem e só às
4 horas da manhã tomaram conhecimento do que, afinal, fariam
ali. Uma hora depois, um comboio de 28 carros se dispersou pela
cidade. Levavam os agentes munidos de fuzis, pistolas e kits que
incluíam fotos dos acusados, mapas dos locais onde deveriam
ser encontrados e 25 mandados de prisão. Na retaguarda, havia
até um médico de plantão para atender detidos
com problemas de saúde. Uma hora mais tarde, 23 pessoas eram
presas simultaneamente em suas casas. Os dois últimos suspeitos
foram localizados no fim do dia. No fim da semana, os sete empresários
indiciados tiveram a prisão relaxada, mediante o compromisso
de colaborar com a Justiça. Planejada durante cinco meses,
a operação seguiu todos os passos da nova metodologia:
1) emprego de forças-tarefa de grande porte, trazidas de
fora da área investigada; 2) prisões numerosas e simultâneas;
3) planejamento de longo prazo, com investimento no atacado em detrimento
do varejo. "Concluímos que, no lugar de punir imediatamente
um agente da alfândega acusado de corrupção,
por exemplo, é mais eficiente monitorá-lo por um período
de forma a verificar possíveis conexões suas com outras
esferas", diz o diretor-geral da PF, delegado Paulo Lacerda.
Eduardo Knapp/Folha Imagem
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Sebastião Moreira/AE
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| Operação
Anaconda: força-tarefa de 100 policiais e prisão do juiz federal
Rocha Mattos |
Foi
assim na Operação Anaconda, que teve início
em Alagoas com a denúncia de que um delegado aposentado da
PF estava envolvido em um esquema para aliviar a situação
de acusados em inquéritos policiais. A investigação
durou um ano e meio, chegou a São Paulo, resultou em nove
prisões incluindo a mais fragorosa, do juiz federal
João Carlos da Rocha Mattos e contou com dois diferenciais:
o rigor em relação ao sigilo das investigações
e o uso de novas tecnologias nos procedimentos. Na Operação
Anaconda, foram grampeadas 181 linhas telefônicas, um volume
que seria inadministrável no tempo em que as salas de arapongagem
da PF eram uma profusão de tomadas e fios, cada um conectado
a um gravador. Os agentes encarregados das escutas tinham tantas
linhas sob sua responsabilidade que perdiam mais tempo atropelando-se
para trocar fitas do que propriamente escutando o que deveriam escutar.
A precariedade do sistema era tamanha que, muitas vezes, duas linhas
tinham de ser interceptadas juntas o que criava situações
patéticas: um suspeito de tráfico ligava para dizer
onde iria entregar um carregamento de drogas ao mesmo tempo que
a segunda linha era acionada para encomendar uma pizza. Uma conversa
encobria a outra e lá se ia a informação preciosa.
Mediante um acordo entre a Polícia Federal e as operadoras
de telefonia, os grampos autorizados pela Justiça hoje são
feitos diretamente nas centrais telefônicas e enviados digitalmente
para os computadores da polícia. Adeus fitas que enrolam,
emperram e acabam. O sistema, batizado de Guardião, foi desenvolvido
pela própria Polícia Federal, em um galpão
ao lado da superintendência do Rio Grande do Sul, com o emprego
de programas de computador disponíveis em qualquer loja de
informática. A escuta telefônica, sozinha, é
prova discutível e facilmente refutável, tanto assim
que a preocupação dos investigadores é robustecê-la
com base na checagem e no cruzamento de informações
o chamado trabalho de inteligência. O grampo, no entanto,
continua sendo a matriz de todas as investigações.
A experiência mostra que mesmo quem tem motivos de sobra para
acreditar que está sendo gravado acaba "derrapando" ao telefone
ou sendo vítima do seu interlocutor, como prova um
dos diálogos interceptados na Operação Zaqueu
(assim chamada numa referência ao coletor de impostos desonesto
que, segundo a Bíblia, se arrepende da conduta depois
de conhecer Jesus). Na conversa, o auditor Luiz Aurélio Carvalho
Leite recebe uma ligação do contador Roberval Freitas,
acusado de intermediar cobranças de propinas de empresários
em troca da redução de multas trabalhistas:
Freitas: "Aquela proposta de 10.000 ficou por 5.000 mesmo, viu?
Então, eu estou indo na empresa pegar o dinheiro, tá?"
Leite [nervoso]: "Tá, tá, tá. Daqui
a pouco a gente conversa. Por telefone é complicado..."
Freitas: "Então, tá. Daqui a pouco a gente conversa.
Eu ligo pra você assim que pegar o dinheiro".
Leite: "A 'documentação', né? Você quer
dizer que vai pegar a 'documentação'?"
Freitas: "Não, rapaz, que documentação? Eu
vou pegar é o dinheiro mesmo".
Todos os dez fiscais presos na Operação Zaqueu exibiam
patrimônio acima de seus rendimentos, de cerca de 5 000 reais
líquidos. Um deles chegava a movimentar até 250 000
reais por mês em conta corrente. Outro proprietário
de quatro apartamentos, uma casa em condomínio de luxo e
um barco possuía ainda um sítio, onde, ironicamente,
pelo menos para um fiscal de trabalho honesto, mantinha empregados
em condições constrangedoras. "Muitos disseram estar
passando fome. Assim que os agentes chegaram, invadiram a despensa
da cozinha atrás de comida", relata um participante.
Os novos métodos da Polícia Federal inevitavelmente
provocam tensões internas. O sigilo que cerca as operações
se estende até os agentes envolvidos nelas: a orientação
é para que cada policial saiba "apenas o necessário".
Para o presidente da Federação Nacional dos Policiais
Federais, Francisco Garisto, o recurso "fere a ética da corporação
e coloca colegas sob suspeita". Ele cita o exemplo da Operação
Anaconda. Durante todos os preparativos e até o bote final,
o delegado Francisco Baltazar, superintendente da PF em São
Paulo, desconhecia sua existência. Só tomou ciência
dela quando 100 policiais vindos de outros Estados desembarcaram
em sua área para efetuar as prisões. "O Baltazar ficou
desmoralizado diante da categoria", diz Garisto.
A direção da PF, no entanto, conta com pelo menos
dois pontos a favor de seu novo modus operandi. O primeiro
é a receptividade de um efetivo com a auto-estima polida
pelos últimos êxitos e ineditamente jovem. Nos últimos
seis anos, a corporação foi renovada em dois terços,
o que abriu caminho para uma nova geração de homens
e mulheres, agora obrigatoriamente dotados de curso superior, no
caso dos agentes. O segundo trunfo da PF reside na opção
e no mérito de priorizar investigações
que venham a cutucar sua própria carne: de janeiro de 2003
até agora, as megaoperações resultaram na prisão
de 117 funcionários públicos. Destes, 95 eram policiais
militares, civis, rodoviários ou federais.
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