Edição 1840 . 11 de fevereiro de 2004

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Polícia
Aprendendo a dar o bote

Com estilo e recursos novos, a PF adota
operações de
impacto com prisões em série


Thaís Oyama, de Manaus

Às vezes sem verba para pagar contas de luz ou de gasolina, a Polícia Federal vem obtendo resultados de impacto em operações de âmbito nacional. A chave está na mudança de estratégia. O sistema de escutas, que ainda é a base das investigações policiais de grande porte, foi modernizado e, talvez mais importante, a instituição mudou a tática de dar pequenos botes cada vez que os criminosos visados se mexiam demais. O método do momento é deixar o sabiá do crime voar livre durante algum tempo, cantando à vontade. O pássaro é seguido, gravado, identificado na sua rede de contatos. Ao fim de um período determinado, os agentes pegam o sabiá e mais um viveiro cheio de espécies variadas. Foi o que aconteceu na semana passada com a Operação Zaqueu, que pôs na mira uma dezena de auditores do trabalho suspeitos de praticar corrupção na linha de recepção e empresários dos ramos de construção e produtos eletrônicos, acusados do mesmo delito, na extremidade oposta.

A operação foi desfechada na segunda-feira à noite, quando 120 agentes da PF, vindos de sete Estados, desembarcaram na Base Aérea de Manaus. Até o momento do embarque, eles não sabiam o destino da viagem – e só às 4 horas da manhã tomaram conhecimento do que, afinal, fariam ali. Uma hora depois, um comboio de 28 carros se dispersou pela cidade. Levavam os agentes munidos de fuzis, pistolas e kits que incluíam fotos dos acusados, mapas dos locais onde deveriam ser encontrados e 25 mandados de prisão. Na retaguarda, havia até um médico de plantão para atender detidos com problemas de saúde. Uma hora mais tarde, 23 pessoas eram presas simultaneamente em suas casas. Os dois últimos suspeitos foram localizados no fim do dia. No fim da semana, os sete empresários indiciados tiveram a prisão relaxada, mediante o compromisso de colaborar com a Justiça. Planejada durante cinco meses, a operação seguiu todos os passos da nova metodologia: 1) emprego de forças-tarefa de grande porte, trazidas de fora da área investigada; 2) prisões numerosas e simultâneas; 3) planejamento de longo prazo, com investimento no atacado em detrimento do varejo. "Concluímos que, no lugar de punir imediatamente um agente da alfândega acusado de corrupção, por exemplo, é mais eficiente monitorá-lo por um período de forma a verificar possíveis conexões suas com outras esferas", diz o diretor-geral da PF, delegado Paulo Lacerda.

 
Eduardo Knapp/Folha Imagem
Sebastião Moreira/AE
Operação Anaconda: força-tarefa de 100 policiais e prisão do juiz federal Rocha Mattos

Foi assim na Operação Anaconda, que teve início em Alagoas com a denúncia de que um delegado aposentado da PF estava envolvido em um esquema para aliviar a situação de acusados em inquéritos policiais. A investigação durou um ano e meio, chegou a São Paulo, resultou em nove prisões – incluindo a mais fragorosa, do juiz federal João Carlos da Rocha Mattos – e contou com dois diferenciais: o rigor em relação ao sigilo das investigações e o uso de novas tecnologias nos procedimentos. Na Operação Anaconda, foram grampeadas 181 linhas telefônicas, um volume que seria inadministrável no tempo em que as salas de arapongagem da PF eram uma profusão de tomadas e fios, cada um conectado a um gravador. Os agentes encarregados das escutas tinham tantas linhas sob sua responsabilidade que perdiam mais tempo atropelando-se para trocar fitas do que propriamente escutando o que deveriam escutar. A precariedade do sistema era tamanha que, muitas vezes, duas linhas tinham de ser interceptadas juntas – o que criava situações patéticas: um suspeito de tráfico ligava para dizer onde iria entregar um carregamento de drogas ao mesmo tempo que a segunda linha era acionada para encomendar uma pizza. Uma conversa encobria a outra e lá se ia a informação preciosa.

Mediante um acordo entre a Polícia Federal e as operadoras de telefonia, os grampos autorizados pela Justiça hoje são feitos diretamente nas centrais telefônicas e enviados digitalmente para os computadores da polícia. Adeus fitas que enrolam, emperram e acabam. O sistema, batizado de Guardião, foi desenvolvido pela própria Polícia Federal, em um galpão ao lado da superintendência do Rio Grande do Sul, com o emprego de programas de computador disponíveis em qualquer loja de informática. A escuta telefônica, sozinha, é prova discutível e facilmente refutável, tanto assim que a preocupação dos investigadores é robustecê-la com base na checagem e no cruzamento de informações – o chamado trabalho de inteligência. O grampo, no entanto, continua sendo a matriz de todas as investigações. A experiência mostra que mesmo quem tem motivos de sobra para acreditar que está sendo gravado acaba "derrapando" ao telefone – ou sendo vítima do seu interlocutor, como prova um dos diálogos interceptados na Operação Zaqueu (assim chamada numa referência ao coletor de impostos desonesto que, segundo a Bíblia, se arrepende da conduta depois de conhecer Jesus). Na conversa, o auditor Luiz Aurélio Carvalho Leite recebe uma ligação do contador Roberval Freitas, acusado de intermediar cobranças de propinas de empresários em troca da redução de multas trabalhistas:

Freitas: "Aquela proposta de 10.000 ficou por 5.000 mesmo, viu? Então, eu estou indo na empresa pegar o dinheiro, tá?"

Leite [nervoso]: "Tá, tá, tá. Daqui a pouco a gente conversa. Por telefone é complicado..."

Freitas: "Então, tá. Daqui a pouco a gente conversa. Eu ligo pra você assim que pegar o dinheiro".

Leite: "A 'documentação', né? Você quer dizer que vai pegar a 'documentação'?"

Freitas: "Não, rapaz, que documentação? Eu vou pegar é o dinheiro mesmo".

Todos os dez fiscais presos na Operação Zaqueu exibiam patrimônio acima de seus rendimentos, de cerca de 5 000 reais líquidos. Um deles chegava a movimentar até 250 000 reais por mês em conta corrente. Outro – proprietário de quatro apartamentos, uma casa em condomínio de luxo e um barco – possuía ainda um sítio, onde, ironicamente, pelo menos para um fiscal de trabalho honesto, mantinha empregados em condições constrangedoras. "Muitos disseram estar passando fome. Assim que os agentes chegaram, invadiram a despensa da cozinha atrás de comida", relata um participante.

Os novos métodos da Polícia Federal inevitavelmente provocam tensões internas. O sigilo que cerca as operações se estende até os agentes envolvidos nelas: a orientação é para que cada policial saiba "apenas o necessário". Para o presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais, Francisco Garisto, o recurso "fere a ética da corporação e coloca colegas sob suspeita". Ele cita o exemplo da Operação Anaconda. Durante todos os preparativos e até o bote final, o delegado Francisco Baltazar, superintendente da PF em São Paulo, desconhecia sua existência. Só tomou ciência dela quando 100 policiais vindos de outros Estados desembarcaram em sua área para efetuar as prisões. "O Baltazar ficou desmoralizado diante da categoria", diz Garisto.

A direção da PF, no entanto, conta com pelo menos dois pontos a favor de seu novo modus operandi. O primeiro é a receptividade de um efetivo com a auto-estima polida pelos últimos êxitos e ineditamente jovem. Nos últimos seis anos, a corporação foi renovada em dois terços, o que abriu caminho para uma nova geração de homens e mulheres, agora obrigatoriamente dotados de curso superior, no caso dos agentes. O segundo trunfo da PF reside na opção – e no mérito – de priorizar investigações que venham a cutucar sua própria carne: de janeiro de 2003 até agora, as megaoperações resultaram na prisão de 117 funcionários públicos. Destes, 95 eram policiais militares, civis, rodoviários ou federais.

 
 
 
 
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