Edição 1840 . 11 de fevereiro de 2004

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Paquistão
O mercador de bombas H

Cientista paquistanês, pai da bomba
islâmica, diz ter vendido segredos
nucleares a outros países


Diogo Schelp


AFP
AP
Monumento à "bomba islâmica" e manifestação a favor do cientista nuclear (à dir.): Dr. Khan é herói nacional no Paquistão

O paquistanês Abdul Qadeer Khan, pai da "bomba islâmica", admitiu na semana passada o que há quinze anos se suspeitava e o governo do Paquistão sempre negou: a venda, por baixo do pano, de equipamentos e tecnologia para os programas de armas nucleares do Irã, da Líbia e da Coréia do Norte, três países governados por regimes extremistas e perigosos. Assim, confirmou-se pela primeira vez a existência de um mercado negro de proliferação nuclear, liderado pelo Paquistão. Na quarta-feira passada, dias depois de assinar a confissão em um interrogatório feito por autoridades paquistanesas, Khan pediu desculpas públicas por seus negócios ilícitos – "nunca mais vou fazer isso", disse ele. Diante de promessa tão singela, foi anistiado pelo presidente do Paquistão, Pervez Musharraf.


AP
Khan conseguiu a tecnologia para a bomba atômica por meio de espionagem industrial: ele vive numa mansão e viaja de avião oficial


General que chegou ao poder num golpe de Estado em 1999, Musharraf tem pouco estímulo para levar as investigações às últimas conseqüências. De um lado, é pressionado a tomar providências pelo governo americano, ao qual se aliou na guerra no Afeganistão. De outro, é acusado pelos radicais islâmicos, que tentaram matá-lo duas vezes no ano passado, de ter cedido às pressões americanas (coisa que realmente fez), e não pode entrar em conflito com os militares, que lhe dão sustentação. Por isso, ele nega que o governo soubesse das atividades de Khan. É algo difícil de acreditar. Os militares e o serviço secreto paquistaneses não poderiam ignorar as ações do cientista, que tinha até um avião oficial à disposição para fazer as viagens que quisesse. Seja como for, Khan é visto como herói nacional pela maioria dos paquistaneses, e não há jeito de colocá-lo na cadeia sem desencadear uma rebelião popular. A oposição islâmica até já convocou uma greve geral de protesto contra a humilhação sofrida pelo cientista.

Abdul Qadeer Khan nasceu na Índia, país arquiinimigo do Paquistão. Aos 16 anos, acompanhou o êxodo dos muçulmanos indianos para o Paquistão, que acabara de ser criado como um Estado islâmico. Daí nasceu seu ódio mortal aos indianos. Estudante aplicado, ganhou uma bolsa para estudar na Europa. Formou-se em engenharia e conseguiu um emprego na Urenco, consórcio nuclear europeu. Encarregado de traduzir os manuais das centrífugas de enriquecimento de urânio, combustível das bombas nucleares, ele copiou o que pôde e fugiu para o Paquistão em 1976. Condenado à revelia na Holanda por espionagem industrial, Khan fundou em seu país um laboratório de pesquisas nucleares e começou a desenvolver a "bomba islâmica", testada com sucesso em 1998. O líder paquistanês Zulfikar Ali Bhutto dizia, há trinta anos, que o país tinha de possuir bomba atômica, nem que para isso a população precisasse "comer grama". De fato, o Paquistão é um país paupérrimo, com renda per capita de apenas 470 dólares anuais. Por mais de uma vez esteve à beira de uma guerra nuclear com a Índia.

Khan exibe um padrão de vida – com mansões e carrões – que não condiz com seu salário de funcionário público. Mas garante que não entrou no comércio nuclear por dinheiro. Ele acredita, com a certeza dos fanáticos, que os países islâmicos devem ter a bomba nuclear como forma de se colocar em pé de igualdade com as grandes potências. "A bomba atômica para mim é uma arma para a paz", costumava dizer. Desde o início da era atômica, houve poucas ilusões sobre a possibilidade de impedir a proliferação das armas nucleares. A tecnologia básica tem quase seis décadas e é bem conhecida. Chegar à bomba depende de disposição para gastar muito dinheiro e conseguir técnicos especializados e o material radiativo necessário, que é a parte mais difícil. O Paquistão construiu sua bomba com ajuda tecnológica da China. O dinheiro veio da Arábia Saudita e da Líbia, ansiosas por colocar poder nuclear nas mãos de um país muçulmano. O míssil paquistanês capaz de levar uma ogiva nuclear é clone de um foguete norte-coreano. A Coréia do Norte, por sua vez, recebeu em troca centrífugas de alta velocidade.

A principal salvaguarda contra a proliferação de armas são as inspeções da Agência Internacional de Energia Nuclear (IAEA), um órgão da ONU. Mas elas precisam ser aceitas pelos países suspeitos. "A confissão de Khan pode ajudar a conter a proliferação, mas isso só se o governo paquistanês realmente se esforçar para prevenir novas transferências no futuro e punir aqueles que foram coniventes com o esquema de Khan", disse a VEJA o americano Gary Samore, especialista em políticas de não-proliferação. As informações levantadas até agora pela CIA e pela IAEA levam a crer que o comércio liderado pelo Paquistão contava com o envolvimento de intermediários e cientistas de países do Oriente Médio, da Ásia, da Europa e da África do Sul. É improvável que grandes potências como os Estados Unidos ou a China façam uso militar da bomba atômica. O perigo está em governantes de países como a Coréia do Norte ou o Paquistão, que preferem ver seu povo passando fome a abdicar de seus sonhos de grandeza. O diretor da IAEA, Mohammed al-Baradei, disse recentemente que nunca o mundo esteve tão perto de um conflito nuclear. Al-Baradei teme que terroristas consigam pôr as mãos em ogivas nucleares. Tentativas não faltaram. Guerrilheiros da Chechênia já foram presos tentando roubar parte do arsenal nuclear remanescente da ex-União Soviética. Em 1999, cientistas paquistaneses deram consultoria sobre armas nucleares para membros do Talibã e da Al Qaeda, a organização terrorista que destruiu o World Trade Center.

 
 
 
 
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