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Paquistão
O
mercador de bombas H
Cientista
paquistanês, pai da bomba
islâmica, diz ter vendido segredos
nucleares a outros países

Diogo Schelp
AFP
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AP
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| Monumento
à "bomba islâmica" e manifestação
a favor do cientista nuclear (à dir.): Dr. Khan
é herói nacional no Paquistão |
O paquistanês
Abdul Qadeer Khan, pai da "bomba islâmica", admitiu na semana
passada o que há quinze anos se suspeitava e o governo do
Paquistão sempre negou: a venda, por baixo do pano, de equipamentos
e tecnologia para os programas de armas nucleares do Irã,
da Líbia e da Coréia do Norte, três países
governados por regimes extremistas e perigosos. Assim, confirmou-se
pela primeira vez a existência de um mercado negro de proliferação
nuclear, liderado pelo Paquistão. Na quarta-feira passada,
dias depois de assinar a confissão em um interrogatório
feito por autoridades paquistanesas, Khan pediu desculpas públicas
por seus negócios ilícitos "nunca mais vou
fazer isso", disse ele. Diante de promessa tão singela, foi
anistiado pelo presidente do Paquistão, Pervez Musharraf.
AP
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| Khan
conseguiu a tecnologia para a bomba atômica por meio de
espionagem industrial: ele vive numa mansão e viaja de
avião oficial |
General que chegou ao poder num golpe de Estado em 1999, Musharraf
tem pouco estímulo para levar as investigações
às últimas conseqüências. De um lado, é
pressionado a tomar providências pelo governo americano, ao
qual se aliou na guerra no Afeganistão. De outro, é
acusado pelos radicais islâmicos, que tentaram matá-lo
duas vezes no ano passado, de ter cedido às pressões
americanas (coisa que realmente fez), e não pode entrar em
conflito com os militares, que lhe dão sustentação.
Por isso, ele nega que o governo soubesse das atividades de Khan.
É algo difícil de acreditar. Os militares e o serviço
secreto paquistaneses não poderiam ignorar as ações
do cientista, que tinha até um avião oficial à
disposição para fazer as viagens que quisesse. Seja
como for, Khan é visto como herói nacional pela maioria
dos paquistaneses, e não há jeito de colocá-lo
na cadeia sem desencadear uma rebelião popular. A oposição
islâmica até já convocou uma greve geral de
protesto contra a humilhação sofrida pelo cientista.
Abdul
Qadeer Khan nasceu na Índia, país arquiinimigo do
Paquistão. Aos 16 anos, acompanhou o êxodo dos muçulmanos
indianos para o Paquistão, que acabara de ser criado como
um Estado islâmico. Daí nasceu seu ódio mortal
aos indianos. Estudante aplicado, ganhou uma bolsa para estudar
na Europa. Formou-se em engenharia e conseguiu um emprego na Urenco,
consórcio nuclear europeu. Encarregado de traduzir os manuais
das centrífugas de enriquecimento de urânio, combustível
das bombas nucleares, ele copiou o que pôde e fugiu para o
Paquistão em 1976. Condenado à revelia na Holanda
por espionagem industrial, Khan fundou em seu país um laboratório
de pesquisas nucleares e começou a desenvolver a "bomba islâmica",
testada com sucesso em 1998. O líder paquistanês Zulfikar
Ali Bhutto dizia, há trinta anos, que o país tinha
de possuir bomba atômica, nem que para isso a população
precisasse "comer grama". De fato, o Paquistão é um
país paupérrimo, com renda per capita de apenas 470
dólares anuais. Por mais de uma vez esteve à beira
de uma guerra nuclear com a Índia.
Khan
exibe um padrão de vida com mansões e carrões
que não condiz com seu salário de funcionário
público. Mas garante que não entrou no comércio
nuclear por dinheiro. Ele acredita, com a certeza dos fanáticos,
que os países islâmicos devem ter a bomba nuclear como
forma de se colocar em pé de igualdade com as grandes potências.
"A bomba atômica para mim é uma arma para a paz", costumava
dizer. Desde o início da era atômica, houve poucas
ilusões sobre a possibilidade de impedir a proliferação
das armas nucleares. A tecnologia básica tem quase seis décadas
e é bem conhecida. Chegar à bomba depende de disposição
para gastar muito dinheiro e conseguir técnicos especializados
e o material radiativo necessário, que é a parte mais
difícil. O Paquistão construiu sua bomba com ajuda
tecnológica da China. O dinheiro veio da Arábia Saudita
e da Líbia, ansiosas por colocar poder nuclear nas mãos
de um país muçulmano. O míssil paquistanês
capaz de levar uma ogiva nuclear é clone de um foguete norte-coreano.
A Coréia do Norte, por sua vez, recebeu em troca centrífugas
de alta velocidade.
A
principal salvaguarda contra a proliferação de armas
são as inspeções da Agência Internacional
de Energia Nuclear (IAEA), um órgão da ONU. Mas elas
precisam ser aceitas pelos países suspeitos. "A confissão
de Khan pode ajudar a conter a proliferação, mas isso
só se o governo paquistanês realmente se esforçar
para prevenir novas transferências no futuro e punir aqueles
que foram coniventes com o esquema de Khan", disse a VEJA o americano
Gary Samore, especialista em políticas de não-proliferação.
As informações levantadas até agora pela CIA
e pela IAEA levam a crer que o comércio liderado pelo Paquistão
contava com o envolvimento de intermediários e cientistas
de países do Oriente Médio, da Ásia, da Europa
e da África do Sul. É improvável que grandes
potências como os Estados Unidos ou a China façam uso
militar da bomba atômica. O perigo está em governantes
de países como a Coréia do Norte ou o Paquistão,
que preferem ver seu povo passando fome a abdicar de seus sonhos
de grandeza. O diretor da IAEA, Mohammed al-Baradei, disse recentemente
que nunca o mundo esteve tão perto de um conflito nuclear.
Al-Baradei teme que terroristas consigam pôr as mãos
em ogivas nucleares. Tentativas não faltaram. Guerrilheiros
da Chechênia já foram presos tentando roubar parte
do arsenal nuclear remanescente da ex-União Soviética.
Em 1999, cientistas paquistaneses deram consultoria sobre armas
nucleares para membros do Talibã e da Al Qaeda, a organização
terrorista que destruiu o World Trade Center.
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