Edição 1840 . 11 de fevereiro de 2004

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São Paulo
Perua na lama

Elegantíssima como sempre, a prefeita
Marta Suplicy é hostilizada por vítimas
das enchentes


Gustavo Rothi/Folha Imagem
Marta de modelito verde na área inundada pelas chuvas em São Paulo: vaia dos moradores

A prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, do PT, é reconhecida pela exuberância de seu guarda-roupa, um dos mais vistosos e caros do país, e em geral admirada, pelos que nem de longe podem se vestir como ela, por comparecer sempre impecavelmente trajada à periferia pobre da metrópole que administra. Na semana passada não foi assim. Com um bem cortado modelito verde, a mesma cor da pedra cravejada nos brincos que os cabelos loiros presos em coque deixaram à mostra, ao voltar de uma rápida viagem a Londres ela visitou uma das áreas mais atingidas pelas enchentes que castigaram a capital paulista durante vários dias. Elegantíssima, pisou com desenvoltura no lamaçal que tomou conta da região de Aricanduva, na Zona Leste, mas, contrariamente ao que costumava acontecer nessas aparições, deu-se mal. Moradores revoltados com as cheias partiram para hostilidades. Marta foi vaiada e chegaram a jogar lama em sua direção, sem atingi-la. Na saída, alguns manifestantes esmurraram o carro da prefeita, um Omega blindado. "Não fui recebida com lama, mas com desespero", considerou. Dois dias antes, dessa vez com uma roupinha básica – blusa preta e camiseta branca –, ela já enfrentara contratempos ao percorrer outra região inundada, onde manteve um feio bate-boca com uma dentista inconformada com os prejuízos que sofreu após os alagamentos. Houve troca de berros entre as duas, em cenas constrangedoras transmitidas pela TV.

Ao contrário do que dizem as iradas vítimas das enchentes, a prefeita nada tem a ver com os temporais – nem sua administração, iniciada há três anos, é a responsável pelo transbordamento de rios, resultado de décadas e décadas de má condução do problema. No fim da semana, ela tratou de ir a Brasília atrás de recursos e afirmou que considerava "inadmissível" que o governo federal, de seu partido, não liberasse verbas para combater as conseqüências das enchentes. Se Marta não fez chover, uma coisa ela indiscutivelmente conseguiu: em pleno período das previsíveis tempestades de verão, encheu São Paulo de obras viárias, num ritmo alucinante mesmo para um ano eleitoral no qual se candidatará à reeleição. Com essas obras, ela transformou a cidade em um caos e piorou ainda mais seu trânsito infernal. Foi nesse contexto que a prefeita visitou as vítimas das inundações e levou vaias da população.

 
 
 
 
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