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Congresso
Deputados
cangurus
O
governo incentiva os adversários a trocar
de partido e, com isso, debilita a oposição

Solano
Nascimento
Marcio Fernandes/AE
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| José
Genoíno: o PT não tem nada a ver com as trocas
e até acha tudo muito natural |
Nos
Estados Unidos, menos de trinta deputados mudaram de partido nos
últimos 100 anos. No Brasil, 114 deputados federais fizeram
a mesma coisa apenas nos últimos doze meses. Alguns deixaram
a base do governo em direção à oposição,
mas a grande maioria fez o caminho inverso. Como cangurus, esses
parlamentares vivem pulando de um partido para outro. Como cangurus,
usam o salto como recurso biológico de sobrevivência.
Diferentemente dos cangurus, buscam o adesismo, que lhes proporciona
cargos, verbas e poder. Em 2002, quando as urnas foram abertas,
a coligação que elegeu Lula presidente tinha uma bancada
de 130 deputados. Na posse, em 2003, o total de aliados já
era de 252. Um ano depois, o governo conta com uma maioria folgada
de 376 deputados federais, o que equivale a 73% da Câmara
e ainda quer mais. A maior parte dos novos governistas chegou
pelo caminho das alianças políticas. Outros, cujos
partidos estão na oposição, simplesmente pularam
para o lado do governo. O resultado dessa migração
é que os principais partidos de oposição, PFL
e PSDB, sofreram consideráveis baixas. Juntos, elegeram 154
deputados, mas perderam 36 desde então. O PTB e o PL, os
fiéis aliados do governo, abriram suas portas para receber
os infiéis oposicionistas. Passaram, assim, de 52 para 94
parlamentares no mesmo período. O governo quer chegar a 80%
de adesismo, venha de onde vier, seja de onde for. "O PT não
está nessa", adverte o presidente do partido, José
Genoíno. "Mas é natural que as outras siglas atraiam
gente interessada em fazer parte da base do governo." Natural e
conveniente.
O
deputado Jovair Arantes, por exemplo, é dono da ficha número
7 de fundação do PSDB de Goiás. Ele abandonou
os tucanos em agosto do ano passado e, ao que tudo indica, fez um
bom negócio. Suas emendas estavam emperradas na burocracia.
Desde que pulou para o PTB, já garantiu a liberação
de 78% dos recursos. "É claro que os deputados dos partidos
do governo recebem sempre um olhar mais atencioso. "Se é
preciso decidir entre um aliado e um não aliado, o governo
vai ficar com o primeiro." O deputado Roberto Pessoa, do PFL do
Ceará, pulou para o PL. Além de ganhar um posto importante
no Congresso ele foi indicado como o representante da bancada
nordestina na Comissão de Orçamento , o neogovernista
acha que está mais perto de um sonho: a prefeitura de Maracanaú.
Ele conta que, durante as negociações para trocar
de partido, combinou com o então líder do governo,
Aldo Rebelo, hoje ministro da Articulação Política,
que terá todo o apoio nas eleições de outubro.
"O PT e o governo vão trabalhar por minha candidatura. Serei
o candidato de uma grande frente de esquerdas", garante o ex-liberal
oposicionista, agora um liberal do governo e futuro líder
de uma frente de esquerda.
Todas
as mudanças sempre embutem algum tipo de interesse. O deputado
Salvador Zimbaldi é um especialista em questões do
setor elétrico. Na condição de tucano oposicionista,
achou que precisava se aproximar do governo e pulou para o PTB.
Desde então passou a ter acesso fácil ao Ministério
das Minas e Energia e, de quebra, ainda foi indicado relator de
uma lei de interesse do setor elétrico. "Nenhum parlamentar
consegue relatorias importantes na oposição", explica.
Que o diga o deputado paranaense Chico da Princesa, ex-diretor de
uma empresa de ônibus. Sua área de interesse no Congresso,
por razões óbvias, é a "causa do transporte".
Em 1998, ele se elegeu pelo PTB, pulou para o PSDB e, agora, pulou
para o PL, que, não por acaso, vem a ser o partido que controla
o Ministério dos Transportes. "Consegui o mesmo acesso que
tinha na época do Fernando Henrique", explica. O nobre parlamentar
tem se empenhado em convencer o governo a liberar as empresas de
ônibus do pagamento de impostos sem dúvida uma
causa boa para os donos de empresas.
Na
legislatura passada, 250 deputados trocaram pelo menos uma vez de
partido. É quase a metade da Câmara. O problema no
Brasil é que, além da fragilidade partidária,
não existe nenhum mecanismo que impeça um político
de se eleger por um partido e terminar o mandato por outro. Há,
no Congresso, várias propostas que discutem a fidelidade.
Estabelecem desde regras rígidas para eventuais mudanças
até a perda de mandato para quem tentar trocar de legenda.
Essas propostas, porém, esbarram sempre na falta de interesse
político de quem está no poder. "É mais fácil
fazer uma compensação fisiológica e clientelista",
avalia o líder do PSDB na Câmara, deputado Jutahy Júnior.
O PSDB de Jutahy e o PFL, quando eram governo, nunca se empenharam
em mudar a regra, deixando os esforços a cargo da minoritária
oposição comandada pelo PT. Agora, o PT, um velho
crítico do troca-troca, assiste leniente à migração
em massa de deputados inimigos para as legendas da base governista.
"Essas trocas são um desrespeito ao eleitor", critica o relator
da reforma política, o pefelista Ronaldo Caiado, agora um
convicto exemplar da minoritária oposição.
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